2003-07-21

Ignoramos todos os dias

Ignoramos todos os dias.

Ignoramos mais do que somos ignorantes. Contudo a todos nós repudiaria sermos militantes do ignorantismo ( até ao computador que a sublinha, a palavra, porque errada). Ignoramos por medo, pressa, pudor, vergonha. Ignorar é um acto de vontade : ignoramos porque queremos, raramente por distracção.
A distância de um ecran , que nos mostra sempre o lado de lá, o relato de alguém, de quem podemos sempre duvidar, vá que não vá! O pior é quando as coisas, as situações vaporizam o nosso campo magnético, nos invadem o olfacto, ignoram os óculos de sol, nos secam a boca de tanto contermos o ar. Aqui não há querer que nos valha e a distracção já ficou lá para trás.
Previne-me um qualquer sentido que um qualquer outro pode entrar em acção e eu suspeito ser a visão que de água a mais pode perder a clareza necessária para dar a volta ao texto. Resta-me apenas tempo para dizer que tudo o que fica dito também assiste a coisas e situações benéficas e pedir emprestado às feitas : "Bem aventurados os pobres de espírito porque é deles o reino dos céus."
Fica a promessa de um outro desfecho.
ANABELA ALMEIDA RODRIGUES, 2003-07-08

O ÓCIO CRIATIVO E A LABORIOSA MEDIOCRIDADE

É preciso despoluir uma baía.

Qualquer Presidente de Câmara ficaria rapidamente inundado de orçamentos de dezenas de milhões de Euros.

Jaime Lerner convocou os pescadores da baía de Curitiba, e disse-lhes que lhes comprava o lixo que eles lá recolhessem.

Em dias de má pescaria, os pescadores pescavam lixo iam sobrevivendo.

Curutiba gastou infinitamente menos com a despoluição da baía, e ganhou um processo de despoluição permanente. Os pescadores agradeceram o refúgio dos dias de chuva.

Prometi no "post" sobre o Dr. Zé, o cego, que falaria um dia de Jaime Lerner, um homem que, para mim, se tornou uma referência. Daquelas que ficam para a vida. E como acredito que percebê-lo, percebê-lo a sério, faz de quem o consegue melhor pessoa, vou tentando alargar-lhe o número de admiradores.

Jaime Lerner é arquitecto, engenheiro, político, ex-prefeito de Curitiba (3 mandatos milagrosos), ex-governador do Paraná e actual presidente da União Internacional dos Arquitectos.

Ora, não sendo eu Arquitecto, sempre me será mais fácil vender a sumidade do homem.

Outro exemplo:

Era preciso arranjar maneira de estacionar os autocarros (ele revolucionou o sistema de transportes da sua cidade) em tempo recorde e de forma precisa.

Das várias propostas apresentadas, uma houve que preconizava o comando electrónico do autocarro nos últimos 300 metros. Custava mais do que toda a frota.

Então, um colaborador de Jaime Lerner perguntou a um condutor se ele conseguia estacionar o autocarro da forma que se pretendia. Ele disse que sim. Fez um risco no vidro da janela do veículo, e outro risco num determinado ponto da paragem. E estacionou na perfeição. E foi esse o sistema eleito, que ainda subsiste.

Ele, Jaime Lerner, diz que o mundo anda nesta permanente luta: entre o ócio criativo e a laboriosa mediocridade. É a sua postura a favor do ócio criativo que o define como referência. Os exemplos seriam intermináveis. Mas este homem faz-me concluir, com uma razoável dose de certeza, que, feito o esforço de identificação dos laboriosos medíocres, todos damos um salto qualitativo - não na arquitectura, não no direito, mas na forma como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros.

Visitei nestas minhas férias, feliz e infelizmente a terminar (escrevo-vos da tal varanda sobre o mar, a metade mais saborosa das minhas férias - não é Sophia que diz: "Quando morrer, voltarei para resgatar os momentos que não vivi junto ao mar"?), a linha de costa espanhola de Huelva (Isla Cristina, Canela e Islantilla).Na primeira, o caos urbanístico era de tal forma deprimente, que fiquei a gostar mais do nosso Algarve. E, nas praias conspurcadas de Islantilla, só mesmo a temperatura da água nos fica a ganhar. Claro que indaguei como é possível os espanhóis, com quem tudo temos a aprender em matéria de turismo, terem deixado chegar a Isla Cristina ao que chegou. É uma espécie de Ria Formosa vilipendiada. Não sei a resposta. Sabê-la-ia no país em que vivo.

Mas o mais fantástico em Jaime Lerner é que, perante uma situação destas, que tem tudo de dado adquirido, não baixaria os braços.

Curitiba não nasceu, mas nasceu, quando ele ascendeu à prefeitura, com um suporte político frágil e instável. Mas o que ficou feito em Curitiba, sem recursos financeiros, mas com muita imaginação, é uma lição para todo o mundo.

Espanto-me todos os dias com Jaime Lerner.

Dos dois livros que tem no prelo, só me considero capaz de abordar o "Acupunctura Urbana", pelo qual espero ansiosamente.

"A qualidade de uma cidade, mede-se pela facilidade com que uma criança a desenha."

"Não há nada urbanisticamente mais perfeito do que a rua tradicional."

"Trabalho e residência devem aproximar-se."

"De nada valem os grandes projectos, se as pessoas os não percebem."

Tudo ideias de Jaime Lerner.

Gostava de o ter no meu país, mais que o seu conterrâneo Scolari.

Mas a laboriosa mediocridade diz-nos sempre o que é melhor para o país.

Na Expo 98, ninguém atirava papéis para o chão. Mas em Outubro de 98, todos voltáramos já ao nosso papelinho e à nossa cuspidela no mesmíssimo chão.

No IP5, com o início da tolerância zero, ninguém passava dos 90, e os acidentes quase desapareceram. Identificados os pontos de controlo, voltaram os nossos assassinos de estimação. 90-200-90-200-0. Menos um.

Estamos, pois, num país que se porta bem pela frente, e sempre mal por trás. Um país de terceiro mundo, que bem fazia em assumir-se como tal, e voltar aos bancos de escola para aprender a ser gente..

Um país onde se esquece o que se deve ensinar nas Escolas. Em que o conhecimento elegível é o que o "stôr" "deu" ou "não deu".

E se alguém realmente conversasse com as crianças, se as ouvisse, perceberia isso rapidamente.

Civismo? O que é isso?

O difícil é a simplicidade - Jaime Lerner personifica-a. Os laboriosos medíocres riem-se sempre. Gloriosamente.

Por obséquio, fiquem todos atentos, doravante, a este nome.

Jaime Lerner é uma lição imensa.

PEDRO GUILHERME-MOREIRA, 2003-07-17

2003-07-04

EM MEMÓRIA DE ANTÓNIO PRIETO

À hora em que escrevo tu já foste para outra galáxia que eu não concebo que exista outro lugar para ti que não seja por cima das nuvens.
Há tão pouco tempo falavas,guloso,dos jantares que tinhas programado para receberes os amigos que eram muitos e combinavas caminhadas pelo Cabedelo em nome da saúde que tanto medo tinhas de perder....
E de repente a tua vida mudou e, de ti, chegavam notícias de que já não comias, não falavas e já não nos conhecias.
Não fui visitar-te.Mandei-te um recado "que pensava em ti " e que mais podia dizer-te se tu estavas a morrer e sabias?.
Quando a tua mulher telefonou e disse que tinhas morrido senti-me aliviada.Já não sofrias.
No teu funeral,os teus filhos choraram abraçados.
Eras um homem bom António Prieto e não devias ter morrido cedo.
Havia ainda muitos jantares e muitas conversas ....
LUíSA NOVO VAZ, 2003-07-03



2003-07-03

KATHARINE

Até Tom Hanks, injustamente (por "Philadelphia"-1994, não por "Forrest Gump"-1995), o ter igualado no trono estatístico dos Óscares (Melhor Actor em 1938, por "Captains Courageous", e em 1939 por "Boys Town"), Spencer Tracy planava no éter como um dos poucos exemplos de genuíno bom gosto da Academia. De facto, era notável que, nos anos 30 do Século passado, um actor pudesse transcender-se assim.
Nunca mais lhe deram um Óscar.

Katharine dizia que ele lidava tão mal com a vida, quanto bem com a sua arte.
Lia os guiões de uma só vez, actuava, e nunca discutia os seus papéis.
Pela sua natureza,nunca vimos desenhado na voz de Spencer Tracy o brilho de Katharine, ela própria. Vimos no ecrán, sem pudor, e contudo com discrição, o amor de ambos.
Katharine nunca mais amou a nenhum homem como a Spencer.
Spencer era casado com outra, uma mulher que não quis nunca deixar de ser a Senhora Tracy.
Katharine nunca foi a Senhora Tracy.
Foi a senhora Spencer.

Um Amor que durou 27 anos, porque ele morreu.
Perdão, um amor que durou 76 anos, porque só agora Katharine se lhe juntou.
E até por isso, talvez ainda dure, algures, na nuvem ocidental do nosso crer.

Katharine abanava a cabeça involuntariamente, um tique hereditário (não degenerativo), e foi com esta limitação que ainda nos conseguiu deslumbrar na inesquecível primeira aparição ao lado de Henry Fonda. Acreditam que estes dois vultos do cinema apenas se conheceram na rodagem?
O filme era a "Casa do Lago/On Golden Pound"-1982,Oscar para ambos - o primeiro para Fonda (que foi merecidíssimo, apesar de ter servido também como prémio de carreira, e o quarto e último para Katharine, que se iniciara em 1934 (!), há 69 anos (!), com "Morning Glory").
Como Spencer, bem mais velho que ela, Katharine brilhava pela naturalidade que imprimia às suas personagens - algo impensável nos anos 30, mas que atravessou todo um século.

Não se pode dizer que era uma grande senhora, só porque morreu.
Pode dizer-se isso, porque se viu nos olhos dela a grandeza leve da verdadeira sabedoria. Eu vi. Tinha ela 86 anos.
Dez anos depois, com a mesma serenidade, pé ante pé, sorrindo por certo, foi ter com Spencer, beijou-o ao de leve, e disse:
- Estava a ver que não...

PEDRO GUILHERME-MOREIRA, 2003-07-03