2015-02-04

Já são nove da noite


já são nove da noite
a orquestra nunca tocou no botequim
a cientista fuma um cigarro
entre contagens
olha o relógio

no pulso nu deste
século

está frio no tronco proibido
do jardim
ele dentro da boca
dele

lama nas pautas da
serenata

perderam o último autocarro
nos fumos da treva
e os cafés vazios
cheios dos tristes
da madrugada

o restaurante quente e alaranjado
o portão automático a abrir
o comando na mão

o vulto fluorescente da cozinha
ele vai beijá-la uma só vez
hoje

o abraço fica até
se encher de
filhos

ou nada

estão a chorar
o cemitério já fechou
e as campas quietas
tenho tantas saudades
diz a velha já deitada
tantas saudades

as auto-estradas vão ficando
foscas
as casas claras
as pontes menores
os montes maiores
os mares iguais
aos céus

a sala de cinema enche
e há vidas que sim
e há vidas que não

que já passa
das nove
da noite



PG-M 2015
fonte da foto

2014-05-01

Discurso brasileiro


Nota:
ainda antes de publicar uma crónica sobre a semana no Brasil, que termina a 3 de Maio, partilho convosco o discurso de ontem na grande e comovente noite que o grupo de portugueses aqui viveu. Eles e o espanhol Eric Fratini, um gran tío: tenho uma aposta com ele, e até gostava que, para lá dos comentários, cronometrassem ao minuto o tempo que levam a ler o texto, e depois me dissessem, vale? :)

"O Zezé, d”O meu pé de laranja lima” sabia que só podia chegar a poeta se usasse gravata de laço. Portanto, se eu hoje quisesse ser poeta, já não podia, porque esqueci a gravata de laço. Então, mesmo sem gravata de laço, vou tentar ter um comportamento decente, porque eu tenho a certeza de que não pareço um escritor. Hoje estive uma hora ao espelho para poder afirmar isto a vocês com toda a verdade. Há alguma coisa na parte da frente do meu cabelo, pelo menos, que não me deixa parecer escritor, e tenho um pescoço muito alto para gravata de laço. De facto, o meu próprio pé de laranja lima foi o livro do Mauro e o meu tronco era o Zezé, que me fazia companhia nos corredores escuros da escola. Escuros porque a escola não previa que os meninos quisessem ler na hora do recreio e apagava as luzes. E eu não reclamava, porque tinha vergonha de pedir luz, e também porque assim estava mais escondido. E são milhões os que lêem às escuras, por pobreza ou vergonha, ou então por pobreza com vergonha, porque havia eu de ser diferente? Na verdade, eu não era assim tão pobre. Pelo menos o meu pai tinha um carro lindo como o português do livro, o Manuel Valadares, que se chamava Valadares como a terra de onde venho, uma praia perto do Porto, no norte de Portugal, chamada Valadares. Isto anda tudo ligado, já dizia o outro.

Mal cheguei a Poços, pedi para falar com o velho mais sábio, o sábio mais velho, o jovem mais avisado e o avisado mais jovem. Como o tempo era curto, tive de inventar, e fiquei pelos velhos que hoje aqui vos vou contar: peguei no primeiro dentista de Poços e na minha avó de olho azul.

O primeiro é o velho preto Defonso, senhor Ildefonso de Souza, primeiro dentista de Poços de Caldas, nascido escravo e falecido há 82 anos, o que não é nada para uma história como esta. O Senhor Defonso foi carpinteiro e marceneiro até depois dos 40 anos, idade em que iniciou a instrução primária. Conseguiu a alforria, sua e da dona Zeza, a mulher e também escrava, e conseguiu-o pelos próprios meios.
Apenas doze anos depois das primeira letras, já com prática como protético e dentista, e para calar a boca dos críticos, prestou exame na Faculdade de Odontologia de São Paulo. Era o 16 de Abril de 1902. Passou com distinção e tornou-se dentista até à morte, procurado por gente famosa, e diz a História que foi pai de dois dentistas também brilhantes que, chegados aos Estados Unidos para se especializarem, foram mandados embora por saberem mais do que os mestres.

Claro que, se eu já me sentia pequenino quando cheguei, mais pequenino fiquei quando conheci o velho Defonso, porque esta história de vida esmaga qualquer pessoa que não usa gravata de laço, e algumas outras que usam. E foi com o velho preto Defonso que eu ontem passeei pela tarde e pelas praças de Poços.

Ele pediu para folhear os meus livros, eu dei-lhos, ele tomou o seu tempo e depois perguntou-me:
“Mas porque é que nunca desistiu de ser escritor?”
Reparem que pergunta mais bela. Não perguntou porque é que eu sou escritor.
Perguntou como é que eu aguento ser escritor.

Eu respondi que era culpa de um engano do meu pai, claro. Ou das malvadas das lágrimas. Nunca contei esta história em público. Mas agora, que atravessei o oceano e vocês estão aqui de propósito, vou contar.

Eu era pequenino e andava com “O meu pé de laranja lima” na mala da escola. Foi o meu primeiro livro a sério, de tirar o ar. Até aí eu lia “Os cinco famosos” com os olhos fechados só para ver o que ia acontecer, só para dobrar as esquinas. A partir do Mauro eu comecei a ler com os olhos abertos e às vezes molhados. Na verdade eu não choro na vida quando não vale a pena. Mas choro quase em todos os filmes, mesmo os maus, e nos livros bons, já cheguei a chorar quando os olhos azuis da minha avó Glória estavam perdidos do mundo, mas isso eu já explico. Na verdade eu nunca fui pequenino. Nem costumo ir a festivais literários e eu acho que é por ser grande e gordo e não caber nas cadeiras. O primeiro festival literário para que fui convidado em Portugal era de literatura fantástica e eu pensei: claro, é sobre monstros. Já nasci com quase sessenta centímetros e as pessoas a comentarem “olha o grande”. Sei bem que há maiores do que eu, salvo seja, mas a verdade é que toda a minha vida eu ouvi coisas como “não páras de crescer”, “tens tanto de grande como de burro”, “és grande, mas não és grande coisa” e aquela coisa que os malvados fazem com as mãos por causa do tamanho do sexo, que para o pequeno dotado era o indicador mas para mim era sempre polegar.

Portanto, eu nunca fui o pequenino que gostava de ter sido. Andava com O meu pé de laranja lima debaixo do braço quando o meu pai me fez ter a certeza de que eu seria escritor. Eu queria entrar num concurso literário do colégio, mas eles exigiam originais batidos à máquina. Na altura não havia computadores. Eu escrevi um texto lindo-lindo-lindo sobre o amor de um filho pelo pai, comparava o pai a um rio e o filho a uma folha que o rio levava ao mar, tinha doze anos e estava com alguma esperança porque o professor de português tirou o lenço do bolso depois de ler. Outra vez as lágrimas, pai enganado, lágrimas malvadas. Então perguntei ao meu pai se podia levar o texto para a empresa e pedir à secretária para bater à máquina. Ele pediu-me o texto para ler. Eu passei por baixo da porta e fiquei ansioso à espera. Tinha doze anos, lembram? Tinha medo que ele respondesse como o pai da Pamela Travers, a autora da Mary Poppins, quando ela lhe deu o primeiro poema a ler: “Hum, não é propriamente Yeats.” Era um medo injustificado, porque a resposta do meu pai foi apenas "isto está uma merda, não vale a pena passar à máquina". Recebi o texto de volta, por baixo da porta, e fiquei calado. Nos dias seguintes li uma, duas, cem vezes. E terminava sempre feliz depois de ler. Eu era o rio, o meu pai era a foz. No dia em que acabava o prazo da entrega eu já não li “O meu pé de laranja lima” no intervalo do almoço lá no colégio. Coloquei-o ao lado do meu texto sobre um banco de cimento, arranjei uma folha branca e uma régua. Pus-me de joelhos no chão empedrado e escrevi uma carta breve a explicar aos jurados o que tinha acontecido, que não tinha sido possível bater o texto à máquina por pobreza, apesar do carro lindo. Então comecei a copiar o meu texto para a folha branca tentando imitar a letra da máquina de escrever, direitinho, sobre a régua. As minhas lágrimas corriam pela cara enquanto copiava. Outra vez as lágrimas malvadas. Eu nunca quebrei nem tive pena de mim. Mas a alma chorou para fora e eu não pude fazer nada. Foi a primeira vez na minha vida que chorei sem ser por birra de menino, joelho esfolado ou briga de irmãos. Nesse ano eles não fizeram escalões, meninos de dez anos e de dezassete concorriam ao mesmo prémio. O Mauro, o Zezé e o Tio Edmundo ampararam-me desde o pé de laranja lima: “Chora, rapaz, chora que esse choro é justo.” Disseram que não era choro de menino, mas direito fundamental. No final, eu quase tinha perdido a esperança, porque aos doze anos um menino ainda ama o pai. Mas não tinha perdido a honra nem a vontade de lutar. Depois do final, afinal, deram-me o primeiro lugar e eu achei que se tinham enganado. Como eu? Eu só tenho doze. O pé de laranja lima estava lá, na minha mão, quando fui receber o prémio. O presidente do júri pegou no livro e disse “deixa ver isso, hum, meu pé de laranja lima, muito bem, foi por isso que você escreveu.” Foi por isso.

Depois vim vida fora sempre combatendo a descrença do pai, pior, a certeza do nada, que gera indiferença. Esse nada faz-me sempre lembrar o último olhar azul da minha avó Glória e nem deu choro nem literatura, só culpa, e está aqui porque um escritor tem de lembrar. Mesmo um que não parece um escritor por causa do cabelo na parte da frente da cabeça e do pescoço muito alto. Trago comigo a avó do olho azul porque são tantos os brasileiros que deixaram as suas em Portugal, mandaram o Mauro para fazer companhia e se há pais sem crença, nunca isso sucedeu com as avós. Pessoas das nossas vidas que entendam o que é para mim a literatura, e porque é que sempre me sentirei mais pequeno do que o leitor e do que todos os sábios ou velhos, porque toda a pessoa feliz tem estas perdas, toda a felicidade tem aquela tensão, aquela dor abaixo do ombro esquerdo, um pouco acima do coração, toda a perfeição tem um pequeno buraco por onde espreitam os imperfeitos como nós.

E enquanto eu falo, aqui em cima, a Avó do olho azul está aí em baixo, sentada mesmo ao lado do velho preto Defonso, que lhe conta que em Poços tem um Rio das Antas, e ela
“Ai sim? E nós tínhamos um Estádio das Antas no Porto, que era a casa do nosso grande, infinito (digo eu!) Futebol Clube do Porto!”
e o Defonso explica, “ali o seu neto me conheceu através do Luís Nassif, que é primo do Nacibe da Gabriela, sabia?” e a Avó do olho azul brilha, a Gabriela é uma novela que faz parte da ideia fundadora do Portugal moderno, foi o descobrimento de Portugal, mas enquanto o meu avô materno fazia toda a gente calar só com o olhar para ver a Gabriela – chegou a despedir uma empregada doméstica só por deixar cair um talher ao chão durante a novela, mas ela foi logo readmitida na cozinha pela avó – a avó do olho azul era muito mais doce a ver a Gabriela.
Via assim:

(fiz a posição de pé, ela com o braço direito a segurar o cotovelo esquerdo e a mão esquerda a segurar o queixo)

com o olho azul a receber de volta o brilho da Sónia Braga, e se alguém falava para ela, ela só dizia:
“Espera um bocadinho, miguinho, espera um bocadinho.”

A última coisa que publiquei em Portugal, chamada “Livro sem ninguém”, foi com essa culpa no peito e sobre a nossa marca nas coisas, nos objectos, a atenção aos detalhes do espaço. Que nos permitam levantar os olhos para os outros.

E com esta vontade de tocar e porque eu tantas vezes me lembro daquela fila infinita do Saramago, aqui mesmo no Brasil, e ele a pedir desculpa por não poder dedicar o livro, mas só assinar, para que os últimos da fila não esperassem dias para chegar até ele, tive uma ideia que trouxe para Poços, e que vou tentar aplicar mesmo que eu aqui tenha uma fila de duas pessoas:
ou um autógrafo ou um abraço. Eu fico a dever o autógrafo a quem escolher o abraço, e o abraço a quem escolher o autógrafo, o que significa que tenho de me encontrar duas vezes, pelo menos, com cada leitor.
Fico grato a todos, mesmo a todos, mas queria referir aqui quatro que não conheço mas ouvi dizer que vinham. Quatro rapazes e raparigas estudantes de uma pós-graduação em literatura na Universidade Federal de Goiás que conduziriam mais de dez horas desde Goiânia só para me dar um abraço. Para eles tenho uma oferta especial dois-em-um: se eles quiserem, levam abraço e autógrafo.
Olha, mudei de ideias, levam todos!
E vocês, todos vocês, por favor não me esqueçam nunca, que eu também não, tá?
Obrigado."

PG-M, 30 de Abril de 2014, Brasil (FLIPoços)

2012-11-05

pai, pater, padre, pare, papa, father, père, far, isä, otec, baba, tata, aita, athair

Não há uma só língua em que a palavra pai vague.
E todas têm um peso específico.
E nenhuma é leve.
Contudo, há pais que são desertos, silêncios, ausências. Meras deduções.
Ter de deduzir um pai a partir de uma qualquer operação lógica é, sempre foi, sempre será, um acto de violência gratuita sobre os filhos e sobre as mães que os amam com actos em consonância.

Mas, pai, talvez não tenha sentido usar contigo as mesmas palavras frias, os mesmos conceitos precisos, as lágrimas duras que fizeram de nós filhos de papel passado em vez de boleros.

E ainda assim eu sei que - sobre pais que nem um prosaico abraço concederam aos seus filhos pequeninos, nem cederam à tentação da beleza e da candura - nunca superarei o tom de manifesto. Mas se foi essa garantia de mediocridade que me impediu sempre de escrever o que era devido, hoje prosseguirei na lama:

Nós somos os filhos e as filhas nas costas.
É evidente que nos amas, pai.

Eu até sei porque te calas e não dizes nada

A verdade é que todos nós somos doentes incuráveis da mesma enfermidade.
Se o Cástor Perez, o pai de um rouxinol, essa Silvia, se senta num café com os velhos a fumar e jogar à sueca e tange a guitarra e a filha para a acompanhar  nos Veinte años, e cada passo da letra parece dirigido à dedução do nosso amor, e não a outro qualquer, nós, os filhos deduzidos, deixamos a todos, sem excepção, as tais lágrimas duras por tudo o que não podemos ter,
um pai cumprindo um simples gesto de amor,
que o teu por nós foi sempre sacado por arredondamento, nos teus silêncios ou nas tuas ausências, pai. Qué te importa que te ame/ si tu no me quieres ya?
El amor que ya pasado/ no se debe recordar./ Fui a ilusión de tu vida/ un día lejano ya/ Hoy represento el pasado, no me puedo conformar/ Com qué tristeza miramos un amor que se nos va

E es un pedazo del alma
que se arranca sin piedad

E pelo menos um desses filhos tem um pedaço de memória não incinerada em que o seu pai se acompanhava à guitarra cantando a Paloma, dicen que por las noches no más se iba en puro llorar, juran que el msimo cielo se extremecia al oir su llanto. Como sufria por ella, que hasta en su muerte la fue llamando, ai ai ai ai ai, cantaba, ai ai ai ai ai, gemia, de pasión mortal moria, que una paloma triste
nos és otra cosa mas que su alma

E só aí, depois de um vibrato, eu me rendia e os serões explodiam em palmas
e eu ia impodindo em mim - quanta injustiça que o mundo te visse transparente
e eu não
quanta injustiça que o mundo te visse de cara aberta
e eu nunca

E agora tudo nos faz chorar, pai, a nós, aos enfermos.
O pai de uma escritora que aparece em todas as fotografias que lhe foram tiradas numa certa tarde chuvosa de feira do livro de Lisboa. Ridículo, pai.
E no entanto faz-nos  chorar.
Todos os pais destes filhos enfermos se fundaram na própria ideia de egoísmo transformada em rigor.
Todos os pais destes filhos enfermos decidiram, num certo ponto da viagem, que há sentimentos que não merecem protecção, porque provindos da alta deformação da auto-piedade - mas todos os filhos enfermos, para sobreviverem, tiveram de gostar de si próprios.
Todos os pais destes filhos enfermos consideraram que o amor deve ser doseado.
Todos os pais destes filhos enfermos advogam a alta instância do inquebrável "não" como condição na dinâmica evolutiva da espécie humana.

Todos os pais destes filhos enfermos guardam para eles palavras de chumbo amoladas em rebolo de betão.

Todos os pais destes filhos enfermos usam como máxima que a porta-da-rua-é-serventia-da-casa e
Todos os pais destes filhos enfermos os põem na rua;
Todos os pais destes filhos enfermos os traem
Todos os pais destes filhos enfermos terminam

e nenhum pai de um filho enfermo lhe foi doce,
bem chorasse nos filmes,
e nenhum pai de um filho enfermo deixou de dizer uma vez em todas as suas vidas
tu desculpa sabes que te amo sou teu pai
ou por ele ou por uma mãe
desesperada

e num fim óbvio de solidão auto-piedosa, esses pais, todos os pais destes filhos enfermos, se servem deles como seus cuidadores e ficam frágeis como fios de cabelo e denunciam, com propriedade, os abraços não implementados
pelos mesmos filhos enfermos.

alguns têm amantes, outros só a sombra
no olhar

Todos os pais destes filhos enfermos os vendem
Todos os pais destes filhos enfermos os perdem.

Mas todos os filhos enfermos se curaram para servir os que lhes sucederam
e dão outros erros, não os erros perfeitos dos que os antecederam,
dão erros cândidos
dão excessos, abraços,
beijos,
tens de parar com isso, pai

Com qué tristeza miramos un amor que se nos va

E es un pedazo del alma
que se arranca sin piedad



PG-M 2012