2018-07-28

A carruagem do silêncio

Melanie tinha subido da Mauritshuis, em Haia, de mão dada com a namorada. Nem uma nem outra se calavam sobre a autópsia do Rembrandt ou sobre a luz da pérola da Rapariga do Brinco do Vermeer. Compraram o bilhete de comboio para o aeroporto de Schipol e apanharam o intercity das 17:03h. A App dizia que o comboio era excepcionalmente curto e podia vir excepcionalmente cheio. Assim foi. Melanie e a namorada correram para a frente do cais, mas era 1ª classe. Voltaram a correr para trás e subiram em 2ª e entraram no compartimento de passageiros. O silêncio era tal que
Melanie sentiu que a tinham posto de castigo por uma razão que desconhecia. Ao princípio teve piada, mas a cada sorriso cúmplice trocado com a namorada a carruagem respondia com mais silêncio. Um qualquer automatismo cultural e cosmopolita fê-las sentirem que tinham entrado num  transporte especial para um campo de trabalho. A dor do século era crónica em todos os sobreviventes e todos os seres vivos são sobreviventes. Talvez suspeitassem que elas pertenciam à resistência. Mesmo em 2018. Olharam em volta e viram o sinal gráfico de um telemóvel atravessado por uma linha diagonal vermelha. Depois leram as letras na janela: "Silence Stilte". Ah, disse Melanie censurando-se a si própria de imediato, já sei. Ela tinha lido que os comboios holandeses tinham carruagens de silêncio. Os passageiros, todos os passageiros, mesmo os poucos que as observavam, de pé, acotovelando-se no corredor da carruagem do silêncio, porque os comboios holandeses não garantiam lugar e custavam o mesmo fossem suburbanos ou intercidades, estranha democracia, não esboçavam sequer um sorriso de empatia. O sinal gráfico do telemóvel cortado não era, certamente, a proibição do uso do telemóvel, porque todos os passageiros iam mergulhados nos seus telemóveis. E o silêncio era relativo, porque todos os passageiros daquele comboio levavam auriculares duplos, o que queria dizer que apenas não ouviam o próximo, mas toda a sua cabeça e corpo estavam repletos do ruído que eles haviam escolhido para criarem o seu próprio mundo e se isolarem do mundo dos outros. Os holandeses eram calmos, serenos, civilizados e bruscos. Uma francesa - aliás, qualquer cidadão do mundo - que fizesse o pouco mais de quilómetro entre a Maritshuis e a Estação Central de Haia perceberia logo que a bicicleta é a vaca sagrada dos holandeses e que um velocípede não pára  por razão nenhuma e parece ter prioridade, nem que seja apenas psicológica, sobre a totalidade dos outros. As bicicletas não abrandam nunca. Melanie imaginava que a sociedade holandesa tivesse debatido longamente a necessidade de carruagens assépticas e silenciosas onde às pessoas fosse permitido evitarem o mais possível o mundo dos outros, que os desmemoriados pensam mesmo não ser o seu - algo que conseguisse complementar a experiência asséptica moderna: limpo, bloqueio, apago todo o meu espaço social até me sentir superior aos demais quando me sento na sanita: porque esse momento de privacidade e silêncio ninguém me pode negar. A sociedade holandesa, dotada de um avançado civismo, precisou de um espaço de garantia contra os menos educados. Melanie pagara o mesmo bilhete, talvez até mais, do que as caras fechadas que a olhavam de solslaio, mas Melanie ia de pé e nem sequer podia falar de Vermeer ou de Rembrandt, com medo dos puristas destas coisas de regras. Começou a entrar no seu telemóvel uma chamada que Melanie rejeitou. Era a mãe. Pôs o telemóvel no silêncio. Depois uma sms. "Atende, é muito urgente". Melanie atendeu e falou em surdina. O pai acabava de ser internado, mal chegues a Paris vai directa ao hospital. As caras fechadas abriram em esgares de condenação, alguns dos seus donos apontaram para os sinais gráficos, ouviram-se sonoros "shhhhhhh". Melanie sentia-se perdida e já nem sequer sabia a próxima paragem. Seria a do aeroporto? Não se podia enganar. A namorada perguntou a algumas pessoas, mas não obteve resposta, até porque só se ouviam a si próprias, e ainda assim  o movimento de Melanie a atender o telefone os incomodara. Por vezes, uma sociedade moderna e civilizada não se enxerga a si própria. Qual era a próxima paragem? Qual era a próxima paragem? Dachau? Terezin? Bardufoss? Belzec? Bergen-Belsen? Bolzano? Bredtvet? Breendonk? Breitenau? Buchenwald? Chełmno? Falstad?Flossenbürg? Grini? Gross-Rosen? Herzogenbusch? Hinzert? Jasenovac? Kaufering? Kovno? Klooga? Langenstein Zwieberge?Le Vernet? L'viv? Majdanek? Malchow? Maly Trostenets?Mauthausen? Dora? Natzweiler? Neuengamme? Niederhagen? Oranienburg? Osthofen? Płaszów? Ravensbrück? Riga? Risiera di San Sabba? Sachsenhausen? Sobibór? Stutthof? Treblinka? Vaivara?

Schipol, finalmente?

PG-M 2018


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