2018-05-30

Estamos todos surdos (e inúteis), excepto para nós

Tudo o que eu escrevo ou digo serve para nada e tem uma importância nula. Não quero com isto dizer que a literatura é inútil. Que a poesia não serve para nada. 

Não quero dizer, também, que não possa haver prazer ou desgosto na sequência imediata da leitura do que escrevo ou na audição do que digo. Eventualmente até posso ser citado de raspão uns dias à frente. Ou seja, não me estou a desvalorizar ou menorizar. Sempre tive alguma consideração por mim próprio. Caso contrário, cultivando, como cultivo, a humildade, mais ainda do que a bondade na arte (cultivo, não defendo que seja imprescindível para ser bem feita: claro que não é!) já me tinha calado há muito, sem precisar de estar morto.

A minha percepção recente é diferente. Sempre vivi na convicção (profunda) de que nada do que fazemos pode ser correctamente avaliado à luz da contemporaneidade. Ou seja, no nosso tempo de vida. Portanto, os meus livros, os meus poemas, as minhas crónicas, só terão valor se resistirem ao tempo. Não que o tempo encerre em si o mérito. Já tenho falado de muitos artistas, escritores, pintores, músicos, que, não sendo devidamente comunicados, são punidos pelo tempo. Todos os dias se descobrem "novas" velharias desconhecidas. Falo do tempo absoluto: se essas "novas" velharias são publicadas, em vez escondidas para sempre, é porque resistiram ao tempo.

Mas hoje falo-vos de outra coisa: da auto-suficiência do ser humano. As pessoas, hoje, vivem rodeadas de si próprias como nunca. Porque as redes sociais nos ensinaram a fabricar uma versão simplificada de nós próprios que não serve apenas para alimentar os outros, mas a nós próprios. O tempo e a oportunidade para ouvir e observar os outros em profundidade (reparem: em profundidade), para reflectir e pensar, ou não existe, ou não é usado quando existe.

E o que nos deslumbra, mesmo que seja um barulho maior, mesmo que não seja abafado, será rapidamente esquecido no meio do ruído. Dos ruídos, tantos ruídos. E as pessoas voltam cada vez menos atrás e para dentro.

Começo a formar uma certeza: a de que, embora seja culpa nossa não ouvir, o mundo nos tem deixado poucas alternativas. Abandonar as redes sociais e todas as formas de ruído em excesso pode ser uma solução, mas é uma solução egoísta. Já pensei nisso muitas vezes. Preciso de ir embora, não por auto-piedade ou sentido de drama, mas para reconquistar o silêncio. Observo calado o movimento das minhas redes sociais e percebo que ir embora seria abdicar de ferramentas de trabalho essenciais e deixar de "ver" muita gente que gosto de ver e até é minha amiga.

Mas sabem a consequência desse ruído? Por mais que importe o que dizemos, rapidamente fica soterrado e esquecido. E até podemos servir a alguém, mas não chegará para que o nosso pensamento sobreviva. Deixá-lo escrito? Talvez. É um tiro no escuro, mas talvez seja a nossa obrigação. Mas ter de o escrever todos os dias ou regularmente em tempo recorde? Não. Os canais mediáticos não estão tomados pelo mérito, mas pela habilidade, pelo amiguismo, pelos lobbies, pelos interesses, pelas audiências. Na verdade, é sinal dos tempos. A qualidade é, por regra, financeiramente deficitária, porque pouco imediata. Portanto, mesmo que sintamos que temos coisas importantes para dizer, ou que tentemos comunicar com a maior humildade  por sentido de dever, não seremos ouvidos senão nas margens.

Lentamente, depois de anos de grande entusiasmo, quase onanismo, na comunicação e no vício da comunicação e do contacto e do conhecimento, percebo que é inútil comunicar no tempo, na contemporaneidade. Eu estive nos primórdios da internet e aprendi quase todas as lições. Acompanhei os novos tempos, cometi erros, fiz experiências, fiquei deslumbrado e achei que deslumbrava. Não.

Claro que não. Com excepções que confirmam a regra, se deixas de comunicar e publicar posts, sejas tu quem fores, serás esquecido, não porque não gostem de ti ou não te achem importante, mas porque cada indivíduo se alimenta o suficiente de si próprio para nunca morrer à fome. E, como está saciado, não vai ter energia suficiente - nem necessidade - para procurar o outro.

Se deixarmos de escrever ninguém nos vem procurar. Quase ninguém. Os que vêm serão sempre excepções a esta regra da autofagia. Ou amigos. E, embora os amigos devam ser, pela natureza da própria amizade e do investimento que ela exige, poucos, não podem ser a bitola social. Nem um indivíduo avaliado pelos amigos que tem. Houve muitas sumidades na história da humanidade que morreram sozinhas ou ostracizadas. A popularidade e a roda de amigos não podem ser bitolas: aliás, até podem ser fatais, porque são apenas mais uma ilusão, talvez a mais perigosa de todas. E todos nós vamos ganhando essa consciência, quando em rede. E então não nos voltamos para trás nem para o outro. Consumimo-nos e protegemo-nos a nós próprios.

Daí que o que mais me acontece hoje em dia é achar que não vale a pena dar opinião. Ou fazer reflexões, de fundo ou não.

Todo o mundo está a dá-las e a fazê-las e não há espaço para que nos ouçamos todos, até porque nos ouvimos demasiado a nós próprios. 

Lentamente, deixarei de escrever crónicas e pequenas opiniões. Creio que ficarei limitado aos grandes projectos.

Cada vez a minha vida tem mais silêncio, e cada vez dou mais silêncio aos outros.
Não creio estar a fazer mal. É isso que quero.
E já não é só na rede social, é na vida em carne.

Muito tem mudado em mim. Ouço mais os outros. Dou mais importância aos outros. Pratico aquilo que nos pode fazer diferentes da maioria: ficarmos felizes por eles, não sentirmos inveja ou pena de não estarmos a ser vistos ou iludidos pela falsa grandeza. Perante o sucesso, fico curioso, fico sempre a pensar como as pessoas lá chegaram. Raras vezes é pelo mérito puro. Fico mais feliz quando é pelo mérito puro. Fico intrigado quando não é e tento perceber o mecanismo. Já tentei reproduzir algumas vezes esses mecanismos. Nunca tive sucesso. Mas isto não é inveja. Por isso me irrito com os que são invejosos por natureza, mas até isso vou compreendendo cada vez melhor. Porque são a grande maioria. E o que vou eu fazer com a grande maioria? Deixar de contar com ela? Ostracizar a maioria? Virar eremita? Nunca. Recolhimento e busca de lucidez não são isso.

Na verdade, mostramo-nos tanto e tanta coisa que já nem sabemos bem distinguir o que é grandeza, o que é importante.

Levo mais e mais menos a mal. 
Mas o cronista e o comunicador vai descrente. Restam as obras, porque a obra, no singular, é uma consequência no tempo.

No imediato, como não sou pintor, sobra a imagem. Gosto da fotografia e tento atingir a excelência com meios amadores ou algumas lentes prime com mais de 40 anos. Foco manualmente. A vida também.

Quanto à escrita do imediato, mesmo neste texto de comunicação de desmame, tenho pouca fé. Tenho alguma fé nas marcas da imagem, do cheiro e de uma certa fé não exclusivamente religiosa.

Sempre escrevi a partir do outro, porque nisto acredito: que cada indivíduo é um universo, um pomo de elevação, se se despojar o mais possível de si próprio. 

Estamos todos surdos (e inúteis), exceptos para nós.

PG-M 2018

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