2018-04-10

Oh, desventura (3.0) !!!

Uma destas noites estava eu reclinado no sofá grande a ler, como estou tantas vezes. Contrafeito, como estou tantas vezes. O meu corpo é pesado. Dez minutos depois de cada posição, dói-me a parte que suporta mais peso (não sejam malandros com a palavra "posição": dez minutos no sexo já é um poema épico). Nunca dei a mim próprio um cadeirão decente, que me proteja e onde possa adormecer sem estar contrafeito. Mesmo no Ikea são caros. Mas também nunca procurei, rendendo-me à evidência: leio há quarenta anos e quero ler até morrer. Não quero sofrer tanto. E ainda vejo bem ao perto. Tinha tirado o som á televisão. Não gosto de ver televisão, mas gosto de me desligar dela com ela ligada, seja para ler, seja para adormecer, e principalmente para adormecer a ler. Alguém lá em casa tinha deixado no canal de um reality show e parece que ao sábado à noite é dia de eles verem um filme na sala da casa onde são metidos como ratos - há dezoito anos, quando estes programas começaram, nenhum concorrente ou espectador podia, verdadeiramente, medir as consequências de uma experiência destas. Hoje, os ratos têm consciência de que são ratos. Onde talvez falhe a consciência, neles, nos espectadores fiéis e nos detractores, é que nós, membros desta magnífica e venturosa raça, qualquer que seja o nosso nível cultural ou intelectual, seremos sempre previsíveis na ratoeira e na rodinha infinita. Já não é tempo de discutir se devemos, ostentanto a nossa superioridade intelectual, apoucar quem participa e quem vê, quem tem contas em redes sociais e quem não tem, quem consome futebol e apostas e não lê nem vai ao cinema, mas conduz a nossa economia e, consequentemente, o nosso mundo.

O mundo está sempre a mudar, mas esse mundo, o previsível mundo dos tipos sociais virtuais e/ou televisivos de massas, está mesmo a mudar. As redes sociais estão a chegar aos mais baixos estratos sociais e intelectuais, pressionados por nós, os mais altos. Mas o mundo já sabe que as pessoas não se escalonam em altos e baixos estratos sociais e intelectuais. Já sabe que a violência doméstica chega primeiro onde chegou o pedestal: a mulher feita deusa cairá dele perante o violentador, claro, porque o que fundamenta a sua violência é o seu próprio ego desequilibrado. Os mais doentes, social e mentalmente, são tão mais violentos quanto mais conhecimento têm. Não é a formação que gera a violência, mas a incapacidade de se comandar a si próprio quando ninguém vigia, quando a porta da célula familiar se fecha e ninguém pode avaliar as nossas atitudes. Quando voltamos a ser, simplesmente, animais no nosso limitado ecossistema. Ratos. Ratinhos. E, espanto, às vezes somos assim atrás de uma porta fechada, mesmo que estejamos a ser filmados por trinta câmaras e transmitidos em directo para o mundo inteiro.

Num curto espaço de dias, ouvi dois génios dizer exactamente a mesma coisa. O maior, Miguel Esteves Cardoso, no notável "Fugiram de Casa dos seus Pais", e o Ricky Gervvais, no seu novo espectáculo de stand-up, Humanity. Já devem saber que ando a vigiar o stand-up tanto quanto leio livros. Depois explico - noutro fórum, talvez, ou procurem aqui o que escrevi sobre o terceiro génio, que é o primeiro, Jim Carrey. Pois disseram eles algo como isto: inaugurado o poder popular de fazer e divulgar opinião de forma livre e com grande divulgação e de forma quase totalmente democrática (não soubéssemos já todos - mais ou menos - como funcionam os algoritmos das redes sociais), todos estão sempre a dar opinião e a protestar. Este é o nosso tempo. Um tipo chega a uma praça de uma grande cidade e põe-se a gritar com os placards publicitários, como se os placards publicitários quisessem saber. Somos assim nas redes sociais. E não é este tempo que eu digo que está a mudar. Este ainda vai durar mais uns anos, porque os mais megalómanos - e são muitos - não vão escolher abdicar desse poder nem perceber que, as mais das vezes, são usados pelo algoritmo,  e não o contrário.

O que está a mudar é a consciência.
A consciência que temos, dos dez ou onze anos aos cento e tais, de que somos usados, de que o nosso tempo é usado, de que perdemos o controlo sobre isso mais vezes do que gostaríamos, e que, quase sempre, não somos capazes de combater pelo mundo que sonhamos (o que é diferente de combater pelos nossos sonhos individuais - o mundo nunca esteve tão apto a cumprir sonhos individuais).

Na verdade, nos tantos eventos públicos em que estou presente, todos ou quase todos concordam com o essencial: é preciso mais atenção, concentração, colo, dedicação - uns aos outros e quaisquer que sejam as idades e os temas. Mas poucos lutam por isso.

Eu luto, e deixem-me que vos diga: tem sido tão amargo quanto sublime.
Como não é o indivíduo signatário que ando a cultivar, o risco e o eclipse do indivíduo que sou, de quando em vez, não me tira o sono. Incomoda muito, é  verdade, e às vezes incomoda muito tempo, mas durmo sempre bem e para o melhor lado. O combate não é pela aparência, mas pela essência. E nada pode ser deixado de fora. Sexo, literatura, arte, Direito, amor, ventura, desventura, oh, desventura (3.0) !!!!

Conservo, pois, a capacidade de levantar os olhos do livro para um reality show sem som e sentir algum espanto pela forma como as pessoas vêem um filme, seja na sala de casa, seja na sala escura do cinema. E somos todos iguais. Espanto pela imobilidade, pela passividade aparente, espanto por um momento de beleza, espanto por um sorriso, espanto pela serenidade, espanto pelos lábios, espanto pelo cheiro que se sente ou adivinha.

Oh, desventura (3.0) !!!!

@pguilhermemoreira 2018
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2 comentários:

João Raposo disse...

Acerca do cumprimento dos nossos sonhos individuais serão mesmo nossos? Ou serão subtilmente (ou sem subtileza alguma) induzidos?

Pedro Guilherme-Moreira disse...

João, as duas hipóteses são verdadeiras, no meu entender, e dependem de casa indivíduo e de cada contexto, separadamente ou em conjunto.