2018-03-09

Oscar - decadência certa e impossível

Nota prévia: como estes textos se referem aos óscares, prémios da Academia Americana de Artes e Espectáculos concedidos anualmente desde 1927/28, embora eles próprios considerem que a primeira cerimónia oficial foi a de 1929 (razão pela qual só este ano celebram os 90 anos), usarei sempre a forma inglesa do singular e plural nos títulos ou tags: oscar e oscars.

Esta não pode ser uma crónica anual de um fenómeno vivo porque eu declarei os óscares, como os conhecemos, mortos. Portanto, das duas uma, ou esta é uma crónica de um cadáver ou de um novo ser, recém-nascido, com outra forma (ok, ok, lá vem a piadinha deste ano: a forma da água).

Na verdade, noto desde o ano passado algo que me incomoda. Ainda assim, deixem-me ser claro logo a abrir: é impossível que os óscares morram. Estão decadentes, é certo, mas nunca morrerão. Têm é de mudar todos os anos de forma, ou tornam-se rapidamente um prémio sem prestígio e respeito. É que, mesmo que os cinéfilos digam todos os anos que o óscar é um prémio que cumpre uma determinada função de promoção e não premeia estritamente o mérito, na verdade ganhar um óscar ainda é uma coisa transcendente. Imaginem o que seria um português ganhar um óscar ou ser simplesmente nomeado. Mais: se tivessem feito justiça ao Manoel de Oliveira e o tivessem incluído no habitual In Memoriam, quando morreu, em 2015, teria sido notícia em todo o país. Não foi. A Academia apenas lhe fez uma menção online. Agora veja-se: se nem um cineasta europeu de 107 anos, profundamente respeitado pelos seus pares, e que até dava uma boa história à Academia, tem direito a um segundo numa cerimónia de quatro horas, quanto vale um óscar para qualquer vencedor e até para os países a que pertencem? Este ano, por exemplo, a Academia quis deixar claro que está ao lado do México e afrontou o muro do Senhor Trump consagrando um filme menor de Guillermo del Toro, a animação e a música de Coco, entre muitas outras subtilezas que fizeram deste o ano da "latinoamerica" em Hollywood.

Mas não é bem este descambar da arte para a política que me aborrece mais. Eu escrevi acima que estava incomodado desde o ano passado. Estou, é verdade. Devo dizer-vos que sou tão doente por óscares que, muito antes do advento da internet, e à falta de uma obra que condensasse todos os dados importantes da história dos óscares, eu ia para as bibliotecas reconstituir os nomeados e os vencedores através dos jornais antigos. Estamos a falar de um puto de 16 ou 17 anos. Portanto, doente. Olhei e li para trás, para o que não testemunhei directamente. Ou seja, tenho noção da história dos prémios da Academia. Aliás, quando os comecei a acompanhar, em 1985, não tinham passado muitos anos de óscares como espectáculo de entretenimento global. Passariam ainda outros tantos sem que as televisões e as rádios, com a excepção da TSF, no final dos anos 80, princípio dos 90, se interessassem em transmitir a cerimónia em directo. E para bons artigos de follow up, talvez só o Público e o Diário de Notícias e as magníficas edições vespertinas d' A Capital com as imagens dos vestidos na passadeira vermelha. Depois vieram os anos de transmissões em directo com comentadores ansiosos por se mostrarem, atropelando o espectáculo e abafando as piadas superiores do Billy Cristal, e, finalmente, as transmissões a cru, com nenhuma ou escassa intervenção de comentadores, de que este ano a Sic foi um mau exemplo, ao poluir a imagem de rodapés e ao interromper o Jimmy Kimmel aqui e ali. Mas a transmissão em si teve uma melhoria interessante (mas não o espectáculo): bastava qualquer premiado mencionar o mais anónimo familiar, a que agradecia, que, se ele estivesse no Kodak Theatre, aparecia na imagem. Isto exige muitos recuros e planeamento.

Então o que me incomoda?
Tudo para dizer que tenho noção da história dos óscares e não sou elitista ou alternativo (gosto muito do bom e velho filme americano e não rejeito um blockbuster) para dizer o que vos vou dizer:

que apenas o ano passado e este ano entraram nos nomeados obras e protagonistas sem merecimento.
O evento LaLaLand, no ano passado, foi inenarrável. Mas este ano voltamos a ter filmes fraquinhos, como The Post, nomeações imerecidas como a que deram a Meryl Streep, filmes falhados como o, afinal, grande vencedor, A Forma da Água, consagrações de filmes estrangeiros medianos (quando antes só víamos obras primas nos cinco nomeados) como o chileno que venceu, Uma Mulher Fantástica, com uma tentativa de promover uma actriz transexual que não pode ser colocada sequer a meio da tabela, Daniela Vega, só porque sim - e aqui foi o lobby que funcionou, porque a rapariga andava há semanas a passear-se nas festas de Hollywood, numa atitude profundamente contraditória com a propalada dignidade e igualdade de género.

E foram esquecidos filmes maiores, como Mudbound ou, no meu entender, The Florida Project, secundarizadas obras como The Square, Loveless e, principalmente, o húngaro On Body And Soul e a sua brilhante protagonista Alexandra Borbély.

Não entro sequer - ou entro pouco - na questão da insistência na Frances McDormand, mais do que consagrada e premiada naquele registo (ainda que seja uma excelente actriz) e a forma como se passa ao lado de uma actriz monstruosa (no melhor dos sentidos) como Margot Robbie - e não é de agora, ela anda por ali a dar respostas de excepção há anos. E a quem me fala da juventude da dita, eu aceno com o verdadeiro "crime" cometido em 2013 pela Academia ao atribuir um óscar de melhor actriz a uma miúda que nem é grande coisa e tem muito que aprender, a Jennifer Lawrence, e negá-lo à grande actriz francesa com um desempenho perfeito em Amour, Emmanuelle Riva, e que viria a morrer pouco tempo depois. Aliás, nunca poderia a miúda Jennifer ganhar pelo fraquito (mais um, o começo da tendência) Silver Linings Playbook. Eu até admitia o óscar por Joy ou American Hustle, mas ainda acho um exagero uma miúda a precisar de humildade  e cultivo de talento ter já 4 nomeações e um óscar (imerecido).

Portanto, está mal e está no caminho errado.
E não percebo, finalmente, a falta de imaginação para fazer uma cerimónia com rasgo. Ninguém imagina, ninguém escreve, ninguém planeia, ou é assim porque querem que seja e vamos-lá-despachar-isto e ter salários exponenciados a partir de segunda-feira.

Termino com uma colecção de textos sobre alguns filmes nomeados e não nomeados este ano, já que tenho escrito tão pouco no blogue. Até para o ano!

MARGOT ROBBIE
"Margot Robbie. Não sei, sinceramente não sei, como se pode comparar este desempenho ímpar com o desempenho par da provável vencedora do óscar, Frances McDormand. Actrizes excepcionais há algumas. Frances é uma, mas já foi premiada por este registo, em Fargo. Daí o par. Margot é outra e este devia ser o ano ímpar da Margot, miúda com dois palminhos de cara que nunca (ou ainda não) se deixou deslumbrar. É simplesmente incrível. Quanto ao filme, é muito, muito bom. Em tudo. E, a acreditar na tese do filme, e eu acredito, Tonya Harding é uma das maiores desportistas de sempre e, claramente, das mais injustiçadas. Uma palavra especial para um desempenho que nem sequer tem sido destacado e é assombroso. Quando forem ver o filme, reparem no gordinho que faz de Shawn, Paul Walter Hauser, e depois digam-me qualquer coisa. Margot, se ganhares, a gente, cá em casa, apanha uma piela. Depois de Halle Berry e Charlize Theron (por quem ninguém dava nada, ao tempo do óscar), é na Margot que ponho as minhas fichas há algum tempo. Mas eles acham que a Jennifer Lawrence, a medianinha, é que é. Pfff. Ah, óscar que não têm discussão é o de secundária, para Allison Janey. Oh ye."


 THE FLORIDA PROJECT
"Este filme vai directamente para o número 1 do meu top pessoal, porque é simplesmente assombroso por tantas razões que não cabem num post. Começo pela Bria Vinaite, a mãe, que nem actriz era e, provavelmente, faz o melhor papel do ano, a par da sua "filha" Moonie, a jovem actriz Brooklyn Prince, que tinha 5 anos quando foi escolhida, e que é simplesmente inacreditável. Curiosamente, Bria não era actriz, mas a jovem Brooklyn já tinha feito pequenos papéis. Com este ganhou o Critic's Choice Award, que não é para qualquer um. Portanto, os dois melhores papéis do ano no mesmo filme chegam para não o perder, não concordam? Mas há "pior" (melhor). A forma como Sean Baker filma não profissionais é uma lição. Curiosamente, vê-lo a seguir a 15:17 Comboio para Paris torna mais claro o disparate de Clint Eastwood e o génio de Sean Baker. E olhem que o colapso emocional da jovem Brooklyn não estava no argumento. O Sean até teve de gritar "corta" mais cedo e não fazer mais nenhum take, por se ter afligido com a forma como a menina incorporou a emoção. Se forem ver o filme, vão perceber de que cena falo. É uma experiência inesquecível, obviamente esquecida pela Academia, que apenas nomeia o (excelente) gerente de motel, Willem Dafoe, porque não podia premiar o amadorismo genial de Bria, que contudo revistas e jornais de referência já escolheram para capa. O corporativismo não chega para ensombrar ou assombrar este filme genial. Sean disse ao produtor, vendo o Instagram da desconhecida Bria, "não há Brias em Hollywood?". E se lhe escrevêssemos? Bria pensou que era brincadeira até ver que lhe pagaram o bilhete para a Florida e que Sean era um realizador a sério. Agora ninguém a vai largar. Espero que também vocês. Já a jovem Brooklyn Prince, sou sincero: ouvi e vi várias entrevistas da miúda. Não é por acaso que, não sendo sequer uma menina de anúncio ou a mais bonita de todas, ela domina todos os espaços em que aparece, mesmo perante adultos. É brilhante. Por doloroso que seja aceitar que isto é possível numa miúda de 7 anos, vão ver e percebem.
#thefloridaproject #briavinaite #brooklynprince #seanbaker #willemdafoe"

15:17h DESTINO PARIS
"Não fiquem desconsolados se estavam com a ideia de ir ver este filme porque gostaram do trailer, querem saber o que se passou e a ideia de ver protagonistas reais vos deixou curioso. Mas isso não é um filme. É, mais do que uma palhaçada que nem telefilme chega a ser, um crime. Um não, vários. Um crime da argumentista, por estragar uma boa história. Um crime para a credibilidade de um cineasta como Clint Eastwood, que certamente perdeu a lucidez, e, pior, um crime contra o mito dos heróis e a ilusão do cinema, porque saímos do filme a pensar que estes heróis foram apenas uns bananas sortudos. Eu puxo pela cabeça e pergunto porquê. Como é isto possível? Não, desta vez não o comparo com o LaLaLand que, sendo um filme inane, tinha ao menos aparência de filme. Isto não. Isto é uma coisa disforme que nos faz pensar como pessoas acima de todas as suspeitas fazem esta maldade aos seus fãs. Nepotismo? Senilidade? Só pode. Mas não fiquem desconsolados. Vão ver. Só vendo se acredita. É que até um mau filme é melhor do que esta coisa. E olhem que não há aqui nenhuma subjectividade na apreciação. Vão por mim, ahah."


VISAGES, VILLAGES
"Agnés Varda. Faz 90 anos em Maio. Dá-nos, com o fotógrafo JR, um filme tão belo, tão belo, que eu já nem sei o que vos diga. Fora os logros do costume, que grande ano de cinema. 90 anos, hein? É a emoção na cara das pessoas. Visages Villages está nomeado para o óscar do melhor documentário. Devia ganhar. Era tão bonito que ganhasse. E fez-me decidir que tenho uma urgência. Ir para perto das pessoas que habitam uma região onde tenho parte das minhas raízes, a Normandia. Agnés, mulher de Jacques Demy e amiga chegada de Gordard, que ela vai visitar neste filme (sim, Godard ainda é vivo) é aquela cineasta brilhante com olhos e curiosidade de menina que já tem um lugar enorme na história do cinema. Estou com muita vontade de a ver na passadeira vermelha de Los Angeles no dia 4 de Março. Espero que possa ir. E,se subisse ao palco do Kodak Theatre, então é que era. Não percam, por favor."

ON BODY AND SOUL
"Depois de, finalmente, ter visto Corpo e Alma, Urso de Ouro em Berlim, filme húngaro candidato a melhor filme estrangeiro, que devia e podia estar candiato ao óscar absoluto; depois de me ter rendido a Alexandra Borbély, que devia e podia ser candidata ao óscar de melhor actriz, por ser um papel que ficará nas nossas almas e na história do cinema, tenho de afirmar peremptoriamente que Corpo e Alma pode ser o mais incontornável filme, não só de 2017, mas da década, até ver. No entanto, vou escalonar o meu pódio pessoal de 2017 da seguinte forma: 3. As estrelas de Hollywood não morrem em Liverpool 2. Corpo e Alma 1. Mudbound. E há dois LaLaLand em 2017 nomeados para melhor filme: o fraquinho The Post e o sobrevalorizado The shape of Water. Este é o tempo dos logros absolutos nos óscares. Não foi sempre assim. Mas enquanto houver Mudbound e Corpo e Alma estamos salvos."


AS ESTRELAS NÃO MORREM EM LIVERPOOL
"Anette Bening no papel da sua vida, esquecida por quase todos e agora o desabafo. Só me falta ver a (minha favorita) Margot Robbie no I, Tonya. Mas já posso dizer que, para mim, não faz sentido premiar a Frances McDormand por mais do mesmo. Ela é uma actriz genial, já sabemos. Premeiem-na num ano em que não haja tantas a merecerem mais, mesmo as esquecidas. Este "As estrelas não morrem em Liverpool" tem um ou dois momentos para os anais. É um filme belíssimo e verdadeiro. E a Anette Bening, actriz que nunca teve os meus favores, está finalmente magistral. A diva Gloria Grahame, que ela representa, bem o merecia. Que bonita vida madura ela teve. E a Margot Robbie vai arrasar onde a Frances cumpre. Este filme da Anette quase beija os pés do Mudbound, mas ainda assim é muito melhor do que os "Três cartazes...", que já é muito bom. Escrever um livro destes e fazer um filme destes é de uma grande coragem. E, não fosse a minha relação séria com a "rainha" Claire Foy (pelo desempenho numa série que nem sigo linearmente), ponderava o meu primeiro casamento com a Anette. Mas, vá, beijemos-lhe os pés de dupla diva, respeitemos a vez na lista da Margot Robbie (em espera há muito, eheh, tem é de voltar a engordar) e rezemos (eu vou rezar) para que a Academia ganhe juízo. Ps: Já agora, este é o primeiro ano em que a Meryll Streep não merece mesmo."

KEDI
"Eu acho - mas isso sou eu - que o filme dos gatos em Istambul é uma obra-prima. Eu, que nem simpatizava muito com uma ou com os outros, fiquei fascinado com aquela e reverencial para com estes. Gosto muito do som da língua turca há muito. De algum modo, além da sabedoria daquele povo (onde a única nota negativa - visível no filme, quando a jovem pintora diz que os turcos usam os gatos como o feminino e esquecem e não o permitem à própria mulher - talvez seja a menoridade das mulheres, mesmo das maiores), o filme mudou a minha perspectiva de vida, e isso é muito importante. Ainda hoje, quando um gato tomou a decisão de atravessar a estrada no momento do encandeamento pelas luzes do meu carro, eu pensei naquela frase magnífica: "Os gatos têm a percepção de deus, os cães acham que nós somos deus". Este gato conseguiu refrear os instintos e adiar a decisão e, portanto, não ser atropelado. Pela primeira vez fiquei a olhar para ele e achei o bicho lúcido :) - Grande obra de Ceyda Torun, que filma os gatos de uma forma perfeita - com muito cinema dentro. Kedi."

MUDBOUND
"Surpresa, surpresa, esse enooooooorme filme que é Mudbound. O melhor do ano, sem qualquer dúvida. Inesperado, porque ninguém fala dele. Quando o vi, foi quase por favor. Que texto, que imagem, que música, que actos. E só nomearam a Mary J Blige, mas podiam dar-lhe o óscar, em nome de todos. Não vão dar, mas que safanão. Que narrações sublimes. Que cadência. Oh, deixem-me chegar a este tempo e a esta escrita. Uf."

LOVELESS
"Volto a Mudbound, para mim o melhor filme de 2017. Quando escrevi esta sentença, não usei o "para mim". Parece-me óbvio, contudo, que o indivíduo apaixonado que usa amiúde superlativos sobre objectos artísticos ou literários, o faz sempre para si e para os que confiam nos seus pontos de vista e sentimentos. A minha amiga Raquel Pinheiro, que vê quase todos os filmes em pequeno formato, apressou-se a replicar que o melhor filme do ano era Loveless. Eu esperei para o ver, e vi-o no grande ecrã. Para mim, lá está, são objectos cinematográficos incomparáveis. Loveless é essencialmente cinema e fotografia. Excelente cinema e excelente fotografia. Não temos actores nem texto acima da média. Não temos narração. Mas é um retrato incrível dos nossos tempos, afinal tão longe e tão perto. Imperdível, claro. Mas quem me conhece sabe que não resisto - e me arrebato facilmente- a filmes que, além de tudo o que Loveless tem de excelente, também têm literatura, narração e actores ou desempenhos de mão cheia. E é isso que Mudbound tem que Loveless não tem. E ainda tem silêncio, como Loveless. E sombra, como Loveless, ou o mundo em castanho, como Loveless o tem em azul-noite-neve ou cinzento. Ambos nos deixam sair do cinema em apneia, mas a apneia de Loveless é respirável e a de Mudbound não. Gostava era de vos ver no cinema, o quanto antes, porque, ainda que ambas as formas de apreender a sétima arte sejam legítimas, a Raquel em pequeno formato e a minha em grande, eu acho que é apenas bom senso ser contemporâneo destas obras e vê-las no grande formato enquanto estão no nosso tempo, pois no pequeno poderão ser vistas em qualquer altura. Ver o desempenho da Mary J. Blige em pequeno formato é não ser cercado por ela. Portanto, sejam cercados pelo Mudbound e pelo Loveless no grande ecrã e digam qual é melhor. Eu não tenho dúvidas. Para mim, Mudbound é cinema e ainda tem um livro e várias peças dentro, e Loveless é cinema, sim, não o resto. E Mudbound é o melhor filme de 2017 de longe. Inesperadamente, como vos disse."

@pguilhermemoreira
2018

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