2018-03-06

Em Sandra é sempre verão, em Adília ponte


O escritor chega à Escola Sá de Miranda, em Braga, toma um café e pede uma garrafa de água. Sandra é apenas uma aluna. Não sabe que o escritor é trapalhão e apaixonado, ou melhor, é trapalhão porque é apaixonado. Pelo pequeno detalhe da banalidade e também pelo extraordinário. Que não consegue ter um discurso sistematizado, mas viaja pelo planeta todo, melhor dito, pelos mundos todos, em grandes elipses, apenas para contar uma história simples, que, por causa dessa viagem, nunca é simples.
Sandra não sabe que o escritor nunca receberá um prémio de oratória.
O auditório está agora cheio com as três turmas e os professores e o PowerPoint pronto a arrancar. Mas o escritor não o arranca. Vai-se perdendo a contar porque é que tem  por ídolo Jim Carrey, explica que Jim Carrey é um génio vivo e não pode reduzir-se ao Ace Ventura ou à Máscara. Mais tarde o jovem Gustavo, que também é apenas um aluno, mostrará que ser apenas um aluno, hoje, é ser mais do que foram todos os alunos que hoje são crescidos, e fala do documentário sobre as filmagens do Man on the Moon e sobre a forma como o Jim Carrey fica aprisionado dentro do Andy Kaufman que representa ao ponto de se pegar à pancada com outros actores.

O escritor invocará um artigo do El País do último fim-de-semana, para explicar porque é que, do seu ponto de vista, esta é a mais extraordinária geração de sempre: é que 90% de toda a informação alguma vez produzida pela humanidade o foi nos último 5 anos. Precisamos mesmo de uma geração extraordinária para nos salvar do que isto pode encerrar. São eles, os que são apenas alunos, a Sara e o Guilherme. O Guilherme fala também do JKF e o escritor recomenda-lhe uma série de cujo nome não se lembra. Afinal era fácil: o título da série é a data de morte de JFK no formato americano: 11.22.63. Com o James Franco, sim. Brilhante. Por isto mesmo, por este jorro de informação a fluir a cada segundo, a sabedoria já não é o que era ou talvez os sábios tenham de ser outra coisa. Não basta, hoje, o domínio dos clássicos. Na informação que flui vertiginosamente perdem-se muitos génios e muitas coisas geniais. Somos tantos que não nos ouvimos.

Excepto Sandrra, e em Sandra é sempre verão. A Sandra ouve, escuta.
O escritor perde-se frequentemente. Não é Alzheimer. Ainda não, pelo menos. Já se disse: é paixão. Um dos alunos vai escrever no livro do escritor que ele se devia lembrar de tomar Memofante, passe-se a publicidade. Se o escritor lhe pudesse responder, dir-lhe-ia que não era essa a questão, mas que, se fosse, o Memofante, passe-se a publicidade, fosse demasiado caro.

o escritor perde-se frequentemente, mas Sandra está lá para o apanhar.
Está atenta e preocupada, mas, pior do que isso,  melhor do que isso, melhor do que tudo, atreve-se a oferecer-se como ponte quando o escritor diz que estar ali, perante eles, é o privilégio de uma vida, é intenso e agradável, mas de nada serve se eles não lerem uma só linha, dele ou de outro escritor qualquer.

Diz-lhes que é capaz de recomendar o livro adequado a cada aluno e que raramente se engana, o pateta. Diz-lhes que há sempre um livro que os pode deitar abaixo da cadeira, da cama, do banco, seja lá onde os alunos e os crescidos praticam o desporto social do passa-o-dedo-no-ecrã.

O problema, diz também, é que, depois dos dias de sessões escolares, não há comunicação, não há partilha de identidades, ou seja, não está ninguém do outro lado, ainda que o escritor esteja sempre ali. Como na história de imaturidade própria que o cómico de stand up  Jeff Dye conta no Jimmy Fallon e que todos podem ver aqui.

Depois da melhor conversa da vida dele com uma pessoa muito mais nova, sobre o filme A Bug's Life (eu ter-me-ia rido até às lágrimas recordando a cena da mosca a fritar: "a luz, a luz, a luz"), à saída do avião quer trocar contactos, mas não pode. Não pode porque a pessoa muito mais nova não tem telemóvel, email, facebook, instagram, nada.

Então perdem-se para sempre.
Então perdemo-nos para sempre.

É por isso que o momento em que Sandra se oferece para ser a voluntária (e que impedirá que isso aconteça), como já fez a Inês no Bonança, a  Viviana, a Ana Rita e a Diana em Oliveira do Douro, a Abigail no Olival, o Tiago em Vilar de Andorinho, a Débora e a Mia em Fornos, as Ineses na Xico, a Catarina Lacerda em Canidelo, a Cathe em Valadares e mais três ou quatro alunos em 117 escolas em 7 anos, não é um momento banal nem o cumprimento de uma obrigação, como a Sandra, humilde, quer fazer crer.

Serão, no máximo, dez alunos em 117 escolas. Portanto, 10 alunos em cerca de 15.000 (quinze mil, sim, a uma  média de cem por escola - e muitas vezes são mais e raramente são menos) que viram sessões com o escritor nos últimos 7 anos; 7 anos em que, recorde-se, foi produzida mais de 90% de toda a informação alguma vez produzida pela raça humana.

Dizia Lobo Antunes numa Escritaria, em Penafiel, não faz muito tempo, que a amizade, por ser um tipo de amor, também pode acontecer á primeira vista.

Em Sandra é sempre verão e Sandra é ponte se quiser. 
Faz parte, pois, dos extraordinários e nós, os tais crescidos, devemos muito a estas pessoas raras.

Talvez tudo do que andamos para aqui a fazer na literatura -

- disse o escritor.

Isso não impede que os sentimentos da classe dos súbitos e intensos, como são os de encanto e arrebatamento, tal como essas fundações precoces de amizade entre almas e espíritos livres sem idade, porque não há, propriamente, gerações na essência da arte, de qualquer arte, possam ser minados por impressões, opiniões póstumas, receios, sentido apurado de protecção (recomendo, para relectir sobre as consequências da super-protecção, o episódio 2 da temporada 4 da série Black Mirror, com realização de Jodie Foster, "Arkangel"), e tudo mude num repente.

Com efeito, uma nova moral dominante pretende defender-se do excesso de exposição a que se submete com o blackout, com a ausência do mundo, mesmo que não haja perigo, real ou aparente. E aí inibe-se tudo o que de bom dali vinha. E aí tudo se torna negativo. Nega-se tudo o que pode ser bom. Aliás, tudo parece mau. Qualquer experiência é má. E o que é potencialmente mau - nem que seja mau só de vez em quando - é posto atrás de filtros.

É aí que aparece a Adília das pontes certas. Jáfumega é um apelido que convoca a ponte que é uma passagem para a outra margem. Mas quando é convocado este conceito complexo, filosófico, da experiência alterada, a experiência que tem tudo de positivo e nada de negativo, mas que, por causa de um anátema, qualquer anátema de qualquer palavra, frase ou pessoa, altera a percepção de tudo, pode ver os seus pilares abalados.

É contra esse mundo aparente e volátil que o escritor combate desde sempre. Contra a forma como não queremos saber de nada nem ninguém, e, quando alguém se importa mesmpo connosco, tem de ser evitado porque existe a convicção de que não há almoços grátis e ninguém quer pagar preço nenhum, quando a existência já vai tão dolorosa.

Adília entende o conceito de pureza. E isso torna-a mais ainda do que a extraordinária Sandra.
Torna-a transcendente. Torna-a capaz da lucidez. Torna-a armada singular de si própria e imune às tempestades. E então devemos escutar, em vez de sentenciar ou declarar. Escutar e cultivar as Sandras e as Adílias deste mundo.

@pedroguilhermemoreira (instagram) e @pguilhermemoreira nos outros lados todos
2018

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