2017-12-30

os monstros entre nós

Estou no bar vermelho do hotel. Não tirei a camisola preta, porque me disfarça o peso.
A televisão está a dar jogos da NBA nos ladrilhos de vidro da janela. As cores das equipas e do recinto de jogo misturam-se no vidro com as bolas dos candeeiros de rua, que são brancas e amarelas. Não que tenha mal ser um tipo grande, mas chateia-me que o atribuam à falta de amor próprio. Eu gosto de ser grande. Sempre quis escrever como um pintor. Sentar-me no chão da estação de São Bento e descrever o que me apetecesse. Mesmo que não estivesse lá. Eu sou bom rapaz. Sou também inábil. Sei exercer a hipocrisia da misericórdia. Não sei praticar a que me daria vantagens. Não sei viver, mas vivo. No hotel onde fechei a primeira versão de três livros, sempre no dia 26 de Dezembro, sou, este ano, apenas leitor. Também me sinto advogado, o que me perturba. Peço o segundo café e o primeiro copo de água. Não quero dizer mal das mulheres. Não têm culpa de escrever crónicas ridículas sobre a filha do Figo. Mas, na verdade, elas aqui são, em média, mais velhas do que nos outros hotéis e já não seduzem. Tenho pena. Gosto da classe da sedução em qualquer idade. Há algo de distinto nas copeiras e nas camareiras. As recepcionistas são inalcançáveis. Lá fora, há seis meses, foi tudo consumido pelo fogo. Desta vez, até a água. Hoje chove torrencialmente. Maria esconde os olhos de quarenta e sete anos de humilhação à voz de um homem cobarde e frágil. Nunca teve medo dele, sentia-se protegida como num coro de ópera. Não tinha voz própria, tinha a voz média de um colectivo. Costumava cantar o Heilig Heilig do Schubert no auditório da junta e sempre pelo Natal. Maria chorava sempre, a música parecia maior do que ela e até do que o mundo. Não se podia queixar. Então o coro deslumbrava e ele bebia e entrava-lhe na alma. Ameaçava furá-la toda e às vezes acertava-lhe com coisas. Quarenta e sete anos depois fez queixa dele à polícia. Saiu de casa. Ele ligava e dizia que tinha saudades de ouvir a voz dela. Ela pedia para ele deixar de ligar. Quiseram pôr-lhe a pulseira e ele reagiu mal. O juiz internou-o no Conde Ferreira e nessa noite ela foi lá levar-lhe roupas. Quando o homem apareceu atrás do enfermeiro, todos reconheceram um louco dentro de um olhar azul claríssimo onde, ainda assim, não entrava luz nenhuma. Deram um beijo carinhoso, ele forneceu algumas instruções para fechar isto e aquilo e, se ela quisesse, levar para a filha o bacalhau que ele tinha destinado à ceia de natal. O homem ia passar a ceia de Natal perigosamente sozinho. Havia de ligar a Maria e a filha, com pena, convidaria o pai para a ceia. O homem chegaria para a furar. Mas nada disto acontecerá porque Maria está agora a entregar-lhe roupas para três meses de internamento. Maria regressa a casa da filha a chorar. O homem que foi o seu a vida toda estava internado, finalmente. Toda a vida o pedira, e agora chorava. Maria usa um silêncio cheio de culpa entre os lábios grossos, mas não tem culpa nenhuma. Arranja as couves. Estende a roupa no estendal. Põe o bacalhau de molho. Amanhã vai à casa que abandonou buscar mais coisas para o agressor. Quem disse que dois mais dois são quatro? Clara, uma jovem mãe, cinco casas adeante, chora agarrada aos filhos que o ex-marido ameaçara não lhe devolver. Beatriz, uma menina de quinze anos, foi apalpada pelo padrasto e sente-se culpada. Ele metera-se na cama dela uma noite em que a mãe fora trabalhar e ela sente-se culpada. A própria mãe acusa-a de rameira. A menina afunda-se na escola. O pai salva-a, leva-a para casa dele e faz queixa. Chamam a menina ao Ministério Público e caem em cima dela para a apanhar em contradição. Perguntam se não estará a mentir. Ela fica assustada, quer desistir de tudo, mas o crime é público. Por isso, vai ter de falar de uma noite terror várias vezes e perante várias pessoas durante os próximos anos. É dificil que o agressor, que ela amava como um pai, seja condenado. Vão chamá-la mentirosa mais vezes e ouvir testemunhas que elogiam o padrasto pela sua conduta social impoluta. Vão exigir uma bateria de exames médico-legais. Ainda assim, a protecção do pai dá-lhe conforto. Volta a tirar notas altas. Hoje é dia de Natal e até o cafezinho está fechado. Sai vapor quente do chão da praça. Estou no bar vermelho do hotel. Não tirei a camisola preta, porque me disfarça o peso. A televisão está a dar jogos da NBA nos ladrilhos de vidro da janela. As cores das equipas e do recinto de jogo misturam-se no vidro com as bolas dos candeeiros de rua, que são brancas e amarelas.

PG-M 2017
foto minha

1 comentário:

Gil António disse...

Olá, boa tarde. Visitando, gostando e elogiando a escrita em prosa/texto que, de forma sedutora, aqui é publicada. Voltarei com mais tempo...

* Vivências de Amor - Volúpia Incerta *
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Cumprimentos poéticos