2017-10-03

vida e morte dos gatos

até muito tarde na vida

sempre que passava de carro pelo cadáver de um gato

ficava a pensar na minha morte
e desolado pelo tempo do gato
ali parado e sem amor

e os rodados dos carros sem alívio
zim zim zim zim zim
e o gato ali
parado e sem amor

agora na vida é mais tarde e

sempre que passo de carro pelo cadáver de um gato

não mudo de pensamento
só de atenção e é uma mudança
breve
leve
verifico se é preciso trocar de faixa
se o telemóvel está ligado ao sistema de mãos livres
se aquela morte não me vai atrasar a vida
penso no descuido do felino
mas tudo passa quando
o carro passa e eu passo
com o carro
sem ficar lá

como ficava antes

até muito tarde na vida

o meu filho sentava-se comigo à mesa do café
de camisola de manga curta e miniatura de mustang
e eu de olhar vazio e sorriso vago inclinava a cabeça e dizia

vrummmmmmmm

e ele dava uma gargalhada e eu continuava aflito
não com a vida ou morte dos gatos
agora o meu filho sai às sete e entra no wc do café
sai de camisa e gravata e olhar vazio e sorriso vago
e inclina a cabeça para mim e diz

vrummmmmmmm

e eu como mais uma colher de sopa

até muito tarde na vida
a peixeira parava ao largo e abusava da buzina
e a tia quina saía lampeira a dizer menina
e o toninho movia-se dentro do balcão
com dignidade a tirar cervejas cafés e a dar
raspadinhas e prémios e troco
do benfica em terra de portistas
e como o toninho era puro ficavam
todos a rir

até muito tarde na vida
o poder mal se notava na rua
os ferros e as mãos entravam na terra
as línguas nas bocas e o sal na comida
os corpos encaixavam debaixo dos braços
e não havia distância
nem desterro

até muita tarde na vida
cuidava-se da vida e da morte
dos gatos
o avô entrava no porto pela ponte dom luís
parava no largo 1º de dezembro cortava a travessa
da rua chã rompia o frio das sete para arrumar os
volumes de tabaco e as harmónicas novas iguais
às harmónicas velhas havia um balcão de dois metros
de ancho que eu até me deitava lá ao comprido ainda
eu não era comprido e os gatos viviam e morriam
normalmente

até muito tarde na vida
atirávamos o prego para a terra
o pião para o chão
o iôiô de balancé
para o vazio
trocávamos cromos a chorar
pelos mais raros
e ir ao telefone
era um momento solene
tínhamos cães e gatos como pessoas
e eles não morriam sem
consentimento
a avó dava notas de dez contos
e o jantar tinha uma única hora
em todas as casas

até muito tarde na vida
o natal era secreto entre os ouvidos dos primos
e as famílias compridas de dois metros de ancho
como o balcão da loja e como os jogadores
de basquete do futebol clube do porto
no pavilhão américo de sá e quando a solidão
e quando a solidão nos tocava
havia sempre um vizinho
no ombro

até muito tarde na vida
o mundo era imperfeito
e desarrumado
as bancadas dos estádios frias
e sem cobertura
havia baianas na casa da batalha
e sapatilhas de marca na crocodilo
e nós dançávamos slows
nas festas de garagem
e das paredes nasciam
grupos de rock
e ninguém se rendia
nas caçadinhas só
no jogo do lencinho
com juras de sangue
nos lábios das loiras
para todo o sempre
e os gordos e os
caixas de óculos
eram nossos
e investidos cavaleiros
no brasão do grupo

como o Piraña
do Verano Azul

até muito tarde na vida
jogámos futebol na rua
entre a vida dos cães
e dos gatos
com balizas de paralelos
e empates dez a dez
e perdíamos os amigos por
três meses e não pela vida
toda como agora
a morte dos cães
e dos gatos

até muito tarde na vida
fiz poemas muito maus e
mesmo assim os amigos
pediam versos como
Cristiano a Cyrano
para a Roxanne
e vinham de olhos
húmidos acusar-me
de poesia
e hoje
que os meus poemas são melhores
são mortos sem piedade como os
gatos no breu

até muito tarde na vida
os poemas eram finitos
e os gatos infinitos

doravante morrem os gatos
mas os poemas não 

PG-M 2017
(que neste escreverá toda a vida mais e mais versos e estrofes a seguir a "breu" até que o atropelem na estrada sem piedade como os gatos no breu - eis o poema aberto)

fonte da foto


Sem comentários: