2017-10-11

Temos fotografias

Eu nunca te mostro ou... nos mostro publicamente para lá do que escrevo, porque o amor, o verdadeiro amor, é ofensivo na face da desventura. Não há, pois, auto-retratos. Mas seria mais ofensivo para todas as mulheres que eu vi e me viram toda a vida dizer que ceguei e não vejo mais ninguém além de ti. Como fazia a mulher do García Márquez, e como fazem todas as grandes mulheres, tu também me chamas quando passam as mulheres que me arrebatam. Eu digo-te quase sempre quem são e nós vamos gerindo o perigo de nos perdermos com mundo, não com utopias. E no quase está a intimidade e o segredo de cada um, que o outro respeita, umas vezes, e outras tolera com mais ou menos sabedoria. As tentações estão dentro da harmonia. Sabemos que o verdadeiro amor só tem dois segredos: é simples e livre. Mas nunca descomprometido ou desleal. Esta mão está fresca sobre ti nos dias quentes e quente nos dias frios. Faz Janeiro trinta e um anos. Sou homem e amante, mas também sou um menino, um infante amedrontado, que já perdeu os mapas dos outros corpos. E se a confissão me faz perder a fama de onde nasce a tensão e a curiosidade dos outros (das outras), o mapa está aqui, sob esta mão, é o teu braço, a tua temperatura, o que eu faço de ti e tu de mim. E eu só saberia amar outra mulher como te amo a ti. E o corpo, oh, o corpo, teria de o aprender como uma criança, por este mapa, por esta mão, por este braço.

PG-M 2017
Foto nossa. Sim, somos mesmo nós, em Outubro de 2017, não há sete ou outo anos. Agora. O maior mérito tem sido velar. Mas desvelar os trapos que afinal não são trapos - uma ou duas vezes numa década - também tem o seu quê de utilitário. Sim, utilitário.

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