2017-06-19

Luto, luta

Sabem o que nos dá medo e todos os outros sentimentos que se confundem entre os nossos princípios e o desespero, a raiva, a indignação, a impotência? Pensarmos que podíamos ser nós, ali, naquela ratoeira, nós ou os nossos. Que não conseguiríamos valer a um filho, a um amigo, a um passante. Primeiro eu quis saber exactamente o que se passou e porquê. Já sei. Depois deixei de conseguir falar em público. Já em privado é difícil, quanto mais em público. Desabafei duas ou três coisas cá por casa, mais nada. Mas aqui estou a escrever, agora. Não sei bem o que dizer do barulho que hoje se faz nas redes sociais. Acho que é aflição misturada com solidão. Creio que a maioria de nós teria sido um herói, podendo. Creio também que todos queremos que isso dos heróis não seja tão necessário. Que as pessoas estejam seguras nas suas belas e simples vidas. Lembro-me daquele movimento dos indignados e de como a maioria voltava para as suas vidinhas no dia seguinte, sem fazer nada pelo mundo. De como eram violentos quando lhes diziam: já gritaste, agora faz. Creio profundamente que a nossa posição no mundo é fazer alguma coisa por todos os outros sem gastar energia e tempo a anunciar que se faz. Creio que as responsabilidades públicas, políticas, dos tempos que correm são dois terços de vazio e um terço de boa ou má vontade, de acordo com os casos: tentemos erradicar os dois terços de show off burocrático e mediático e ocupemo-los com calão e força para protegermos o próximo sempre de forma substancial. Puta que pariu os que não ajudam os outros e só querem aparecer. Creio que, para fazer coisas a sério, hoje em dia, coisas que valham a pena para o mundo, me devo afastar, não apenas dos poderes públicos, mas dos poderes fáticos. Há demasiada gente indignada que faz muito barulho e nada mais. No caso específico do maior drama de sempre dos incêndios em Portugal, um dos maiores de sempre no mundo, creio que o meu papel é lutar de forma silenciosa, usando o que estes mortos nos ensinaram. Que a sua vida valha muitos salvamentos. Lutar contra potenciais labirintos que eu conheça nos lugares onde vivo e passo. Nunca mais na vida bloquear pontos de água e pedir mais, se não vir nenhum. Ficar em paz perante os corta-fogos. Estar atento a quem grita pela sua terra e pelas suas matas. E não consigo fazê-lo de outra forma que não assumindo este luto e pensando que estes mortos são os meus mortos, que o seu fim horrível foi o fim dos que eu amo. Escrevo isto para vos explicar que este aperto que sentimos no peito quer dizer isso. E escrevo aqui porque tenho algumas centenas de irmãos que escutam e acolhem estas reflexões, como eu acolho as deles. Escrevo para entender, não para parecer bem. E sinto que entendo melhor. Como escrevia a Toni Morrison de uma das suas personagens em Beloved: a comida dela está cheia de lágrimas. A nossa comida está cheia de lágrimas. Movamos a terra para sermos todos um lugar melhor, aos poucos. A sério. Com as pequenas coisas que não fazem barulho, mas são amor.

PG-M 2017
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