2017-03-04

O peso do leve

Em defesa do frívolo e da forma como ele - por vezes - nos pode iluminar.
Casos práticos: a nova música do Justin Timberlake, Can't Stop the Feeling, saída da banda sonora dos Trolls, passava-me completamente ao lado. O próprio Justin era artista que me passava ao lado. E creio que - ele e a sua música - passariam sempre, não fossem dois momentos relevantes: o Justin Timberlake ter estado por dentro da abertura dos Globos de Ouro, com o Jimmy Fallon (esta brilhantíssima, e que fez falta nos óscares) e na abertura dos Óscares (esta, aparentemente tão simples, mas complexa, em termos de realização e coreografia para uma transmissão recebida por milhares de milhões de pessoas e onde um detalhe - veja-se o caso da troca de envelope - pode ser dramático). De o próprio Justin ter contribuído para destruir todas as boquinhas, todas as críticas, com um elevado sentido de humor. Esse momento dos óscares injectou-nos de luz, a suficiente para esquecer o exagero do LaLaLand. Então dou por mim a modificar-me ao som da música que antes nem um pêlo me levantava. Ao ponto de já a ter encaixado na minha playlist, no meio de uma injecção de Credence Clearwater Revival. Mas esta coisa dos guilty pleasures é mais substancial do que pode parecer, se reflectirmos sobre estas invasões. Em 2014, no Brasil, o grupo de portugueses e espanhóis que foram a um festival literário tinham todos um sentimento idêntico sobre o hype da altura, o "Happy", do Farell Williams, não por causa do Farell, que é um grandíssimo compositor, mas por causa da massificação de Happies à escala global. Para "gozar" com o assunto, fizemos o nosso próprio "Happy", que abria com uma mimetização da passadeira de Abby Road, dos Beatles. O efeito foi de tal forma positivo, luminoso, que, não só se cumpriu a nossa dádiva de gratidão aos brasileiros e portugueses que nos receberam no sul de Minas, como despertou o interesse da Globo, que ainda fez uma ou duas reportagens sobre o assunto. Hoje, anos volvidos, e tendo perdido a vida duas das pessoas que participam no vídeo, tenho a certeza que todos os outros sentem o "Happy" como uma música importante, fundamental mesmo, no seu percurso. Podia continuar, mas isso ia obrigar-me a desenvolver a minha tese sobre o génio que é Jim Carrey, por exemplo, que, à conta de nos fazer pensar que nos dá barrigadas de riso pelo frívolo, é de uma profundidade e cultura estonteantes, algo que por cá nos habituámos a ver no Ricardo Araújo Pereira, mas noutro nível (o Ricardo não tem a capacidade de se rir de si próprio e consigo próprio que o Jim tem, tampouco a gargalhada franca, que no Ricardo é mais a assumida técnica humorística da autodepreciação). Sei que,não raro, me criticavam o meu Conan O'Brien por ser light, por nada ali se aprofundar, e eu me perguntar, admitindo que até era verdade, a razão de me sentir pleno com aqueles programas. Chego a esta conclusão intermédia (intermédia, porque este é apenas um princípio de reflexão), que talvez explique porque é que todos, mesmo aqueles que buscam algo mais profundo ou elevado, precisam do frívolo para sobreviver, principalmente do frívolo que ilumina e diverte: é que nós, na intimidade, somos isso mesmo, animais banais e frívolos que tentam sobreviver, cheios de tiques e hábitos nada elevados ou profundos. O frívolo é, pois, a nossa natureza. Precisamos dos que iluminam sem complicar para aguentar os dias mais sombrios. Precisamos de dançar e de cantar e de praticar o air guitar ou o air drums, precisamos de ser bonitos e cool ou que sejam bonitos e cool por nós.

PG-M 2017

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