2017-03-31

Marisa

Embora eu tenha deixado de escrever sobre todas as visitas às escolas (cento e onze nos últimos seis anos), ou por causa disso, há coisas e pessoas que precisam de registo, que merecem registo. Já sei que não vale a pena dizer que a Marisa, a menina objecto deste texto, é apenas uma entre muitos meninos e meninas valorosos, aliás, pessoas valorosas, que incluem professores, dirigentes, delegados da editora, o departamento de encontros de autor e até livreiros que nos têm apoiado neste esforço. Não vale a pena, porque todos se vão lembrar apenas da Marisa sem fazer esse exercício de perceber que ela é apenas a que se destacou de todos os valorosos. Mas ela merece esse equívoco, essa singularização onde, por uma vez, eu queria aquilo que fazemos todos os dias pelas razões erradas: a generalização.

Acontece que olhar para a Marisa é olhar para mim aos treze anos. Para a revolução que ia dentro de mim, quando, aos doze, me pus a ouvir e a ler tudo sobre escritores e sobre o que os escritores diziam e a ler tudo o que pudesse ler deles, porque não havia muito dinheiro em casa, havia poucas bibliotecas nas escolas - e eram pequenas -, eu tinha treze anos e não podia ir sozinho a lado nenhum e nunca tive a sorte de me parar à porta uma carrinha-biblioteca itinerante e as livrarias não eram, ainda, feitas para deixar circular os leitores. Houve um escritor que disse: ninguém devia publicar antes dos quarenta. Nunca mais me esqueci, e cumpri-o escrupulosamente. Olhar para a Marisa é olhar para o inefável universo de que muitas vezes me fala a minha amiga Carla Flores, miúdos ainda mais novos do que a Marisa que são como sóis do seu próprio sistema solar ao qual apetece pertencer, por deixarem logo a sensação de que, na vida mais acinzentada que nos forra os dias, não há nada assim, nada parecido, nada que chegue perto, nada intelectualmente tão puro e tão cheio de possibilidades. Mas não há uma fórmula para isso. Apesar da abertura social, eu só conheço um lugar onde rapazes e raparigas valorosos, por um lado, e adultos que, não só os ouçam, mas com eles queiram partilhar o espaço intelectual, por outro, possam conviver: a escola. Mas a escola pertence aos que lá estão, e quem vai de fora volta com a tal ressaca de afectos de que já aqui falei tantas vezes. Uma coisa que me tocou particularmente foi ver a Marisa aos saltinhos, a perguntar, quase de forma retórica, "mas como é que eu posso dizer o resto que quero dizer?". Lembro-me tão bem de sentir isso. De ter uma revolução a acontecer na minha cabeça e no meu corpo e das festas de adultos onde me era dada atenção daquela forma paternalista e eu aproveitar para debitar desesperadamente tudo o que podia no mais curto espaço de tempo e a ver aqueles sorrisos amarelos de quem pensa: "bem, miúdo, eu só te fiz a pergunta por fazer, não era para me espetares com um tratado". Acontece que há miúdos que têm tratados dentro, porque lêem e pensam tanto que precisavam de um lugar para o fluxo do seu pensamento correr, um rio próprio, mas ficam com a única alternativa de inundar uma ribeira qualquer que é escavada temporariamente por um adulto que passou perto deles. A maior parte dos amigos da idade deles não os ouve, não lhes dá atenção com a profundidade que eles anseiam e de que precisam, e a maior parte dos que são mais velhos tolera-os, em vez de os acolher e entender.
Os treze anos da Marisa, o sorriso e a humildade da Marisa, a propriedade com que a Marisa se pronunciou sobre assuntos relevantes, a opinião fundamentada e muito madura sobre um dos meus livros, a impressão sobre a sessão escolar, escrita em plena sessão, o que escreveu nos livros, em jeito de dedicatória, a troca de comunicação comigo através da professora Filomena, aquela ansiedade luminosa e magnífica de dizer mais, de perguntar mais, o espanto de saber que o poema que ela elegeu (e ela teve o cuidado raro de ler, estudar e escolher para si), "Rafaela", se baseia numa pessoa real que ela certamente imaginará, na pureza dos seus treze anos que aspiram, vê-se bem, a serem rapidamente mais, com encanto ou desencanto por vidas bonitas ou difíceis, seja ela um pouco da Rafaela ou seja uma Rafaela um pouco menos ou um pouco mais do que ela, representa certamente o que a Marisa quer que um dia escrevam sobre ela própria.

Quando temos treze anos assim, devemos sorrir ao espelho e desacelerar o tempo, para que essa limpidez da existência e das aspirações se mantenha por muito tempo, antes de ser inquinada pela dureza da vida ou pelo aperto dos crivos ou pelo mero desencanto.

As magníficas jovens pessoas como a Marisa devem ser protegidas para se irem mostrando aos poucos, guardando a energia que a exposição excessiva consumiria, usando-a na construção do seu edifício pessoal de uma forma estruturada, sustentada, com a calma e serenidade dos sábios e esta curiosidade explosiva nas mãos e nas perguntas, ocupando o espaço deixado pelo niilismo e pela falta de sustentação da informação profusa a que todos temos acesso. E nunca devemos simplificar a mensagem: as palavras, as ideias, a forma como falamos com eles deve ser sempre a das pessoas crescidas, porque só o colo se dá a todos - quando deixam - como bebés.

Para isso, para lá do colo, também temos de lhes dar espaço e de os ouvir. De os ouvir verdadeiramente. De aprender com eles a grandeza das possibilidades e de lhes ensinar a gerir o banal, que é o que a vida nos ensinou a nós. Como ser o mais perfeito possível num mundo imperfeito. E como ser assim, puro e valoroso, sem ser devorado.

Escuto-te, Marisa.
A última mensagem, afinal, tem de ser a mais banal de todas, a tal que advém da banalidade que tu não tens ainda, mas que nós, os meninos curiosos mais crescidos, aprendemos:
nunca deixes de ser como és.
É a teimosia de seres melhor que te vai fazer realmente melhor.
Obrigado, Marisa, por teres entrado no meu mundo e deixares que o meu te sirva.

PG-M 2017
foto da própria

2 comentários:

Marisa Silva disse...

Obrigado por me ter homenageado desta forma, para mim foi muito gratificante perceber que o senhor se preocupa com o seu leitores. Antes de isto acontecer era para mim impensável pensar que um escritor se ia dar ao trabalho de escrever e publicar no seu blogue sobre apenas uma leitora de 13 anos. Mais uma vez muito obrigada.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Eu é que te agradeço, pequenita. Volta sempre.