2017-02-19

Natalie crying blood

 Coisa estranha, esta da arte. Se nos propomos falar de uma obra que nos é externa, como criadores, mas cujo processo compreendemos visceralmente, por termos tentado ou feito algo de parecido, há algo que se perde no processo, por parecer que falamos do outro tentando falar de nós.
Não.
Gostava que percebessem que, quando digo que entendo o processo criativo de "Jackie", de Pablo Larraín, e da própria Natalie Portman, por ter passado por algo muito parecido durante largos anos, ou seja, por ter trabalhado durante muito tempo uma mulher como arte, como este cineasta ou um escultor ou um pinto ou outro escritor, estejam elas vivas ou mortas - como está Jackie - estou apenas a dizer alto que não estou sozinho. 

Ouvi, à saída do cinema - e depois cá fora - uma só discussão em torno de Jackie:
uns pensam que Natalie Portman conseguiu a imitação perfeita, outros pensam que não.
Creio que não é isso que se pretende. "Jackie" é muito mais do que isso.
É a devolução do tempo que não vivemos ou esquecemos ou observámos de longe.
Pretende-se talvez o retrato perfeito, por dentro por fora, e aí talvez nenhum de nós esteja em condições de dizer se o filme chega lá, mas dá, pelo menos, essa sensação, e dá-a de uma forma contundente, por vezes avassaladora. O filme e a própria Natalie, como se chorasse sangue.
Esta Jackie é aparentemente frágil: essa aparente fragilidade é apenas dúvida. Dúvida cartesiana.
É, por isso, força e inteligência. Profunda inteligência. Filosofia. Poder.

E, se chego ao quarto parágrafo sem dizer o que realmente importa, já falhei.
É por isso que não vou escrever mais nada. Prefiro fazer uma pergunta e respondê-la primeiro: de todos (e foram muitos) os filmes e séries e livros sobre este momento histórico de JFK (e falamos dos momentos imediatamente anteriores e posteriores ao seu assassinato), qual foi o que te levou mais perto dos corpos e dos espaços e dos cheiros e dos medos e dos sons?
Qual foi o que te levou mais perto de tudo, o que te fez sentir que estavas lá, entre os membros do staff, entre os amigos e inimigos próximos, na dúvida, na determinação, na certeza?

Este "Jackie", sem qualquer dúvida.

Os três culpados principais são Pablo Larraín (que realiza), Noah Oppenheim (que escreve) e Natalie Portman (que já vinha ameaçando, mas que aqui aparece sem tiques e transfigurada, e olhem que isso não se vê nos trailers ou nas fotografias, têm de estar quase duas horas a observar-lhe as subtilezas: o biopic perfeito em underacting? Eu diria que sim: o biopic perfeito em underacting).

Talvez, talvez.

A verdade é que, se lhe entregarmos o peito, saímos parvos, íntimos, arrebatados.
Só Marion Cotillard me impressionou mais, até hoje, como Piaff.

Portanto, vénia, aplauso e cinema.
Têm de vê-la no cinema ou numa sala fechada sem um único som ou perturbação.

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