2017-02-16

Anti-Pró Dias dos Namorados

 Eu e a minha mulher já passámos os trinta anos de namoro, coisa incrível em quem tem pouco mais de trinta de vida , mais década menos década. Não querendo ser melhores do que ninguém, como o aniversário do que nos juntou é poucos dias antes do São Valentim, fomos ganhando terror ao dia, à medida que ganhou os contornos cosmopolitas que hoje tem. O dia dos namorados é quase sádico quando não os temos, e vai-se esvaziando com o tempo, com a proximidade do outono, com o tamanho do amor. É verdade que há silêncios mais importantes do que uma flor, muito mais importantes do que coraçõezinhos gráficos, mas também é verdade que, nos anos em que nos limitamos a rir, a ser histriónicos, exagerados, imitando os gestos mais lamechas no escuro do cinema, mesmo que o riso vá até às lágrimas e isso seja felicidade, falta a flor que lhe recusei neste dia. "Não. Hoje não. Todos os dias menos hoje." Por isso, por todas as recusas parvas de ser cosmopolita e lamechas, por toda a fúria da diferença, no fim vais querer-me simples e claro. Por isso, mesmo com o riso pleno, perdoa-me, meu amor.

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