2017-01-09

Manchester by the sea (e Arrival e outras coisas)

 Vi no Famashow - e olhem que não foi por ser no Famashow, porque sou daqueles que pensa que o universo informativo das televisões portuguesas está ao mesmo nível, com duas ou três excepções, e não me venham dizer que estes são melhores do que aqueles ou que há serviços de referência, com essas duas ou três excepções - as perguntas aos convidados à entrada de uma sessão de promoção do filme "Manchester by the sea", obviamente gratuita, em que classificavam o filme, na própria pergunta, como um "filme sobre a família". Ora, dizer que Manchester by the sea é um filme sobre a família é a mesma coisa que dizer que um anúncio da McDonalds é  sobre comida (e, por acaso, raramente é, principalmente o meu favorito, aquele em que a menina pergunta, em suspenso, com um acentuado e belíssimo sotaque nortenho - o meu -, ao nerd do pretendente, "tu adoras...?"). Este filme está a ser bem promovido, vai ser muito falado, vai ganhar óscares e outros prémios, mas não deixem que isso vos afaste dele por excesso de popularidade, porque é, claramente, uma das obras-primas a passar na grande tela nos últimos anos. Quando eu quiser mostrar um filme literário, um filme-livro, um filme com as qualidades todas da grande arte, das grandes artes, lembrem-me de falar deste. De resto, não se deixem cair em simplificações nem deixem que vo-lo descrevam de forma simplista. Não, não é um filme triste nem "sobre a família". É sobre isto tudo. É visceral, e, porque é visceral, parte das entranhas para vos transportar nos corpos dos protagonistas e vos fazer sentir as emoções todas, que também são vossas. Aliás, seria melhor dizer: para vos convocar os sentimentos, os sentimentos mais profundos e verdadeiros. É um filme que sabe calar, omitir, como um grande livro, que sabe sugerir como um grande quadro, e é claramente o momento da família Affleck, provando-nos que não vale a pena muitos saltos, muitos pinchos, pelos quais é mais conhecido o irmão Ben, para chegar ou voltar à excelência (partindo do princípio de que "Good Will Hunting", que o consagrou ao lado de Matt Damon - embora este último esteja, para mim, noutro campeonato, um campeonato em que tem superado os muitos tiques que tem como actor - um filme excelente). Pois este é claramente o ano de Casey. Vai ter de ser um dos cinco nomeados para o óscar de melhor actor. Quem o vê neste filme, tende a pensar que não vale a pena apresentar mais nenhum, porque este é mesmo o papel de uma vida. Vamos aguardar. Era bom que tivéssemos outras surpresas e que a estatueta tivesse concorrência. Um bom amigo perdeu a minha sugestão de ir ver o "Arrival" no cinema porque, em decisão familiar, consideraram que o "Arrival" era "demasiada ficção". É provavelmente dos filmes mais importantes da minha vida, e ainda está em algumas salas de cinema. E ao ser o filme da vida de alguém (minha e de alguns outros que aceitaram a minha sugestão) só pode ser realista. Com ficção de apoio, se quiserem, mas realista. Ou seja, os trailers e as sinopses são simplistas por natureza, falsos por natureza. Já este Manchester by the sea tem tudo, bom trailer, boas sinopses, boa música, bons actores: mais do que bons, em estado de graça. Talvez o Arrival não tivesse nada disto, embora não precisasse, porque o argumento arrasava tudo. Não deixem que alguém vos diga o contrário deste Manchester, ou seja, que é tão realista que magoa. Não, a grande arte muda-nos. Se nos muda, projecta-nos para o topo, arranca-nos do chão. Ou seja, há um momento em que não estamos cá, estamos no espaço entre mundos a mudar. Por isso é que sinto estas duas obras-primas, Arrival e Manchester by the sea, como dois lados da mesma moeda. Um breakthrough íntimo. Acontece sempre quando o que vemos, lemos ou ouvimos é mesmo muito bom. Não percam, por favor. E não percam na tela grande, que é o lugar certo.

PG-M 2017

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