2017-04-06

Escola e futuro são isto: a sabedoria de José Pacheco


Leiam e releiam vezes sem conta as palavras e as ideias de José Pacheco, porque Escola e Futuro são isto mesmo. Ligação para a reportagem da Notícias Magazine (2017):


Fotografia de Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens 

2017-03-31

Marisa

Embora eu tenha deixado de escrever sobre todas as visitas às escolas (cento e onze nos últimos seis anos), ou por causa disso, há coisas e pessoas que precisam de registo, que merecem registo. Já sei que não vale a pena dizer que a Marisa, a menina objecto deste texto, é apenas uma entre muitos meninos e meninas valorosos, aliás, pessoas valorosas, que incluem professores, dirigentes, delegados da editora, o departamento de encontros de autor e até livreiros que nos têm apoiado neste esforço. Não vale a pena, porque todos se vão lembrar apenas da Marisa sem fazer esse exercício de perceber que ela é apenas a que se destacou de todos os valorosos. Mas ela merece esse equívoco, essa singularização onde, por uma vez, eu queria aquilo que fazemos todos os dias pelas razões erradas: a generalização.

Acontece que olhar para a Marisa é olhar para mim aos treze anos. Para a revolução que ia dentro de mim, quando, aos doze, me pus a ouvir e a ler tudo sobre escritores e sobre o que os escritores diziam e a ler tudo o que pudesse ler deles, porque não havia muito dinheiro em casa, havia poucas bibliotecas nas escolas - e eram pequenas -, eu tinha treze anos e não podia ir sozinho a lado nenhum e nunca tive a sorte de me parar à porta uma carrinha-biblioteca itinerante e as livrarias não eram, ainda, feitas para deixar circular os leitores. Houve um escritor que disse: ninguém devia publicar antes dos quarenta. Nunca mais me esqueci, e cumpri-o escrupulosamente. Olhar para a Marisa é olhar para o inefável universo de que muitas vezes me fala a minha amiga Carla Flores, miúdos ainda mais novos do que a Marisa que são como sóis do seu próprio sistema solar ao qual apetece pertencer, por deixarem logo a sensação de que, na vida mais acinzentada que nos forra os dias, não há nada assim, nada parecido, nada que chegue perto, nada intelectualmente tão puro e tão cheio de possibilidades. Mas não há uma fórmula para isso. Apesar da abertura social, eu só conheço um lugar onde rapazes e raparigas valorosos, por um lado, e adultos que, não só os ouçam, mas com eles queiram partilhar o espaço intelectual, por outro, possam conviver: a escola. Mas a escola pertence aos que lá estão, e quem vai de fora volta com a tal ressaca de afectos de que já aqui falei tantas vezes. Uma coisa que me tocou particularmente foi ver a Marisa aos saltinhos, a perguntar, quase de forma retórica, "mas como é que eu posso dizer o resto que quero dizer?". Lembro-me tão bem de sentir isso. De ter uma revolução a acontecer na minha cabeça e no meu corpo e das festas de adultos onde me era dada atenção daquela forma paternalista e eu aproveitar para debitar desesperadamente tudo o que podia no mais curto espaço de tempo e a ver aqueles sorrisos amarelos de quem pensa: "bem, miúdo, eu só te fiz a pergunta por fazer, não era para me espetares com um tratado". Acontece que há miúdos que têm tratados dentro, porque lêem e pensam tanto que precisavam de um lugar para o fluxo do seu pensamento correr, um rio próprio, mas ficam com a única alternativa de inundar uma ribeira qualquer que é escavada temporariamente por um adulto que passou perto deles. A maior parte dos amigos da idade deles não os ouve, não lhes dá atenção com a profundidade que eles anseiam e de que precisam, e a maior parte dos que são mais velhos tolera-os, em vez de os acolher e entender.
Os treze anos da Marisa, o sorriso e a humildade da Marisa, a propriedade com que a Marisa se pronunciou sobre assuntos relevantes, a opinião fundamentada e muito madura sobre um dos meus livros, a impressão sobre a sessão escolar, escrita em plena sessão, o que escreveu nos livros, em jeito de dedicatória, a troca de comunicação comigo através da professora Filomena, aquela ansiedade luminosa e magnífica de dizer mais, de perguntar mais, o espanto de saber que o poema que ela elegeu (e ela teve o cuidado raro de ler, estudar e escolher para si), "Rafaela", se baseia numa pessoa real que ela certamente imaginará, na pureza dos seus treze anos que aspiram, vê-se bem, a serem rapidamente mais, com encanto ou desencanto por vidas bonitas ou difíceis, seja ela um pouco da Rafaela ou seja uma Rafaela um pouco menos ou um pouco mais do que ela, representa certamente o que a Marisa quer que um dia escrevam sobre ela própria.

Quando temos treze anos assim, devemos sorrir ao espelho e desacelerar o tempo, para que essa limpidez da existência e das aspirações se mantenha por muito tempo, antes de ser inquinada pela dureza da vida ou pelo aperto dos crivos ou pelo mero desencanto.

As magníficas jovens pessoas como a Marisa devem ser protegidas para se irem mostrando aos poucos, guardando a energia que a exposição excessiva consumiria, usando-a na construção do seu edifício pessoal de uma forma estruturada, sustentada, com a calma e serenidade dos sábios e esta curiosidade explosiva nas mãos e nas perguntas, ocupando o espaço deixado pelo niilismo e pela falta de sustentação da informação profusa a que todos temos acesso. E nunca devemos simplificar a mensagem: as palavras, as ideias, a forma como falamos com eles deve ser sempre a das pessoas crescidas, porque só o colo se dá a todos - quando deixam - como bebés.

Para isso, para lá do colo, também temos de lhes dar espaço e de os ouvir. De os ouvir verdadeiramente. De aprender com eles a grandeza das possibilidades e de lhes ensinar a gerir o banal, que é o que a vida nos ensinou a nós. Como ser o mais perfeito possível num mundo imperfeito. E como ser assim, puro e valoroso, sem ser devorado.

Escuto-te, Marisa.
A última mensagem, afinal, tem de ser a mais banal de todas, a tal que advém da banalidade que tu não tens ainda, mas que nós, os meninos curiosos mais crescidos, aprendemos:
nunca deixes de ser como és.
É a teimosia de seres melhor que te vai fazer realmente melhor.
Obrigado, Marisa, por teres entrado no meu mundo e deixares que o meu te sirva.

PG-M 2017
foto da própria

2017-03-26

Sónia Braga é nossa

Declaração de amor e de interesses: escrevo sobre a Sónia Braga que foi doada a Portugal pelo foral da Gabriela. Escrevo, pois, em interesse próprio. Ainda que Sónia Braga seja respeitada dos dois lados do Atlântico, só em Portugal é venerada. Se forem pelas ruas de qualquer cidade ou aldeia portuguesa e baterem às portas das casas perguntando aos homens se deixariam tudo para beijar chão que ela pisasse, não há um único português que diga que não, a não ser que ainda seja tuga. Sim, porque o português deixou ser tuga, esse diminutivo inventado no Brasil e usado, ao longo dos tempos, e simultaneamente, com as propriedades do amor e do carinho, mas também da sobranceria e da ignorância, pois, entre outras razões, o português deixou de ser tuga quando a Gabriela nos entrou nas casas. A Gabriela garantiu-nos, finalmente, a liberdade conquistada em Abril e reforçada e temperada em Novembro. Só nesse dia o português ficou livre, deixou de ver apenas rectas e ângulos rectos e passou a ver morenas açucaradas. Era uma segunda-feira, 16 de Maio de 1977, três escassos dias depois do 13 de Maio, em Fátima, três escassos anos depois da revolução. E, apesar da curva e do corpo da morena, do cheiro tropical das imagens e da pouca roupa da Gabriela, foram os avôs e avós de Portugal os primeiros a levantar a mão para que se fizesse silêncio e nada fosse perdido, passando pelos deputados que não deliberavam ou votavam durante a novela, até ao épico último episódio, numa quarta-feira, 16 de Novembro de 1977, que deixou Portugal de ressaca. O Brasil tinha uma história antes de Gabriela. O Portugal moderno não. Daí que Sónia Braga seja nossa e não se fale mais no assunto. 
Vem isto a propósito da Sónia Braga a beirar os 70 anos que protagoniza o pujante filme Aquarius, de 2016,  e que é um justa consagração. Quando ela amarra o cabelo e deixa ver a parte de trás do pescoço, é ainda a menina de há quarenta anos. Aliás, ela é a menina de há quarenta anos em tudo, não só na parte de trás do pescoço, e não se fala mais nisso. A forma como se move, a forma como nos olha naquele olhar castanho-nogal que o sol do Recife inflama. Não há um único pormenor em Sónia Braga que denote que o tempo passou, e seria pérfido quem viesse lembrar algum detalhe irrelevante. Quando ela pega nos mesmo vinis - dos Queen, do Roberto Carlos, do John Lenon, do Gilberto Gil - que nós cutivámos, sabemos que este é o culto perfeito e definitivo. Por mim, deixo a passageira afirmação de que aqui está a eternidade dela, isso e o remate de um mito, que Portugal bem merecia - finalmente houve um realizador à altura para nos dar isto, que devia ser obrigatório para a nossa geração e para a anterior, a passageira afirmação de que "Aquarius" é um grandíssimo e imprescindível filme que nos vinga a alma no tempo do passado recente e no presente, glorificando Sónia Braga pela eternidade como a cena de abertura do filme da Gabriela, com que encerro este, e depois da qual nos poderíamos encomendar ao criador. E a menos passageira afirmação de que a nudez da Gabriela não é menor do que a de Clara, à porta dos setenta, e nós desejamos sem culpa a mulher que nos fez homens da mesma forma que há quarenta anos, e todos nós beijaríamos hoje e para todo o sempre o chão que Sónia Braga pisa. Amém.

PG-M 2017

2017-03-18

Tabacaria espontânea: Carol 10.000

 "Cê pode ler textos meus com o seu sotaque maravilhoso?", "Claro que sim." E, digo eu, maravilhosos eram os textos da Carol. "Ai, que maravilha!" (dizia ela, ouvindo o meu sotaque, que não a minha leitura, porque nem sequer leio ou digo bem). "Eu sei a Tabacaria!", "Sabe? Que parte?", "Eu acho que toda", "Toda?", "Sim.", "Seria capaz de a dizer agora, sem preparação, e autoriza que eu filme?", "Claro." Armei o telemóvel, o mesmo que filmara o "Happy" de Minas por esses dias, e filmei seguido, e à primeira. Cada vez que sou notificado de um comentário, venho rever. É maravilhoso. Mais até do que a interpretação, o facto. A quem já ocorreu uma Tabacaria espontânea? A oito mil quilómetros de casa, eu lembro-me de que só queria chegar e chutar isto para a rede. No avião de regresso, mostrei o vídeo ao sobrinho do próprio autor. Ele espantou-se, como todos. Esta menina, a Carol, a quem chamámos Silvia Plath, e a Lívia, que assiste primorosamente, a quem chamámos actriz, já entraram na universidade. Ainda a quiseram trazer cá, e deviam, mas na verdade ninguém trouxe. Quase a celebrar as dez mil visualizações.


2017-03-04

O peso do leve

Em defesa do frívolo e da forma como ele - por vezes - nos pode iluminar.
Casos práticos: a nova música do Justin Timberlake, Can't Stop the Feeling, saída da banda sonora dos Trolls, passava-me completamente ao lado. O próprio Justin era artista que me passava ao lado. E creio que - ele e a sua música - passariam sempre, não fossem dois momentos relevantes: o Justin Timberlake ter estado por dentro da abertura dos Globos de Ouro, com o Jimmy Fallon (esta brilhantíssima, e que fez falta nos óscares) e na abertura dos Óscares (esta, aparentemente tão simples, mas complexa, em termos de realização e coreografia para uma transmissão recebida por milhares de milhões de pessoas e onde um detalhe - veja-se o caso da troca de envelope - pode ser dramático). De o próprio Justin ter contribuído para destruir todas as boquinhas, todas as críticas, com um elevado sentido de humor. Esse momento dos óscares injectou-nos de luz, a suficiente para esquecer o exagero do LaLaLand. Então dou por mim a modificar-me ao som da música que antes nem um pêlo me levantava. Ao ponto de já a ter encaixado na minha playlist, no meio de uma injecção de Credence Clearwater Revival. Mas esta coisa dos guilty pleasures é mais substancial do que pode parecer, se reflectirmos sobre estas invasões. Em 2014, no Brasil, o grupo de portugueses e espanhóis que foram a um festival literário tinham todos um sentimento idêntico sobre o hype da altura, o "Happy", do Farell Williams, não por causa do Farell, que é um grandíssimo compositor, mas por causa da massificação de Happies à escala global. Para "gozar" com o assunto, fizemos o nosso próprio "Happy", que abria com uma mimetização da passadeira de Abby Road, dos Beatles. O efeito foi de tal forma positivo, luminoso, que, não só se cumpriu a nossa dádiva de gratidão aos brasileiros e portugueses que nos receberam no sul de Minas, como despertou o interesse da Globo, que ainda fez uma ou duas reportagens sobre o assunto. Hoje, anos volvidos, e tendo perdido a vida duas das pessoas que participam no vídeo, tenho a certeza que todos os outros sentem o "Happy" como uma música importante, fundamental mesmo, no seu percurso. Podia continuar, mas isso ia obrigar-me a desenvolver a minha tese sobre o génio que é Jim Carrey, por exemplo, que, à conta de nos fazer pensar que nos dá barrigadas de riso pelo frívolo, é de uma profundidade e cultura estonteantes, algo que por cá nos habituámos a ver no Ricardo Araújo Pereira, mas noutro nível (o Ricardo não tem a capacidade de se rir de si próprio e consigo próprio que o Jim tem, tampouco a gargalhada franca, que no Ricardo é mais a assumida técnica humorística da autodepreciação). Sei que,não raro, me criticavam o meu Conan O'Brien por ser light, por nada ali se aprofundar, e eu me perguntar, admitindo que até era verdade, a razão de me sentir pleno com aqueles programas. Chego a esta conclusão intermédia (intermédia, porque este é apenas um princípio de reflexão), que talvez explique porque é que todos, mesmo aqueles que buscam algo mais profundo ou elevado, precisam do frívolo para sobreviver, principalmente do frívolo que ilumina e diverte: é que nós, na intimidade, somos isso mesmo, animais banais e frívolos que tentam sobreviver, cheios de tiques e hábitos nada elevados ou profundos. O frívolo é, pois, a nossa natureza. Precisamos dos que iluminam sem complicar para aguentar os dias mais sombrios. Precisamos de dançar e de cantar e de praticar o air guitar ou o air drums, precisamos de ser bonitos e cool ou que sejam bonitos e cool por nós.

PG-M 2017

2017-03-03

Marion forever (and ever, and ever, and ever)

Marion perfeita, como nunca. 
Este é um alerta urgente e essencial para cinéfilos, já que de nada vos vale cruzar o imdb com o metacritic, neste caso. Já aqui tenho escrito que eu já era fã da Marion Cotillard antes do merecido óscar por "La Môme" (não foi merecido, foi obrigatório).
Vi-a dispersar-se um bocadinho em Hollywood e em inglês. Mas também a fui vendo reencontrar-se com a grande actriz que é. Bom, não é grande, é maior. Mas nunca tinha visto tudo o que gosto nela, ponto por ponto, luz por luz, sombra por sombra, num só filme. Esse filme é, no original, "Mal de Pierres", que em português ficou com o título lamechas "Um instante de amor", mas é tudo menos isso (não é lamechas, nem o amor, neste filme, pode ser visto como um instante). É um filme completo e até algo inesperado. Acima de tudo, é o Olimpo para Marion, é um festival de Marion, totalmente esquecido pela academia americana, mas amplamente nomeado para os Césares (melhor actriz, claro, mas também a excelente realização de Nicole Garcia, entre outras nomeações), para a Palma d'Ouro, em Cannes, etc, etc.Quando penso que andam aí com La La La para cá, La La La para lá, e filmes como estes se perdem no ruído. Como diria a minha amiga Ana Saramago, com o seu hardcore fofo, La La La o c.! Marion forever, isso pode ser debruado a ouro! Não percam, sim? E depois digam se tenho ou não razão    

Ps: recordo o que escrevi em 2008: 

"Antes que o Óscar te queime a substância querubim de incêndios dourados, Antes que venham os iluminados decidir que a tua excelência não se pode consentir (o que raio é o overacting?), afinal tens toda uma pátria aos pés, e agora o mundo, e eu, este anónimo que teima em ver as estrelas de frente, as do céu não as caídas do cinema, e que desde o minuto um, depois de ter ver possessa de Piaf, aquele minuto em que desembrulhamos o corpo da magia do cinema e nos levantamos do lugar, calcamos as pipocas sobre a alcatifa e declaramos, já com a luz branca do shopping a surgir pela porta

- Magnífico!

Repara que eu nem sequer sabia que tu eras uma menina quando te vi levar "La Môme" até à morte, só podias ser uma actriz francesa consagrada que a selecção de Hollywood não tinha deixado chegar, depois procuro-te e sei que és bonita não complexa como Piaf, és elegante, mesmo olímpica, não mirrada como Piaf, és transparente e não negra como Piaf, vejo o filme de novo e ainda fico pior, mais inquieto, será que o Cinema vai deixar passar este monumento em claro?

Não deixou.

Ganhaste em casa o César, o improvável Bafta na Britânia e agora o universal Óscar, e mais quinze ou dezasseis prémios todos merecidos.

O que fizeste no "La Môme" ("La vie en Rose" em Portugal) é inefável. Tremendo.Não sei para onde vais, Marion, gostava que não fosses a lado nenhum de especial, mas a verdade é que, do ponto de vista divino, já és deusa, e nunca se é deusa cedo demais.Ficas para sempre, gostava apenas que ficasses mais um pouco e não fosses Monroe, Dean, Phoenix ou Ledger.

Hoje fui buscar a minha bisavó Germaine Lechartier, lá acima às memórias de um impreciso noroeste francês, para dar sentido ao meu sangue que fervilha como se fosses cá de casa."

PG-M 2017

2017-02-19

Natalie crying blood

 Coisa estranha, esta da arte. Se nos propomos falar de uma obra que nos é externa, como criadores, mas cujo processo compreendemos visceralmente, por termos tentado ou feito algo de parecido, há algo que se perde no processo, por parecer que falamos do outro tentando falar de nós.
Não.
Gostava que percebessem que, quando digo que entendo o processo criativo de "Jackie", de Pablo Larraín, e da própria Natalie Portman, por ter passado por algo muito parecido durante largos anos, ou seja, por ter trabalhado durante muito tempo uma mulher como arte, como este cineasta ou um escultor ou um pinto ou outro escritor, estejam elas vivas ou mortas - como está Jackie - estou apenas a dizer alto que não estou sozinho. 

Ouvi, à saída do cinema - e depois cá fora - uma só discussão em torno de Jackie:
uns pensam que Natalie Portman conseguiu a imitação perfeita, outros pensam que não.
Creio que não é isso que se pretende. "Jackie" é muito mais do que isso.
É a devolução do tempo que não vivemos ou esquecemos ou observámos de longe.
Pretende-se talvez o retrato perfeito, por dentro por fora, e aí talvez nenhum de nós esteja em condições de dizer se o filme chega lá, mas dá, pelo menos, essa sensação, e dá-a de uma forma contundente, por vezes avassaladora. O filme e a própria Natalie, como se chorasse sangue.
Esta Jackie é aparentemente frágil: essa aparente fragilidade é apenas dúvida. Dúvida cartesiana.
É, por isso, força e inteligência. Profunda inteligência. Filosofia. Poder.

E, se chego ao quarto parágrafo sem dizer o que realmente importa, já falhei.
É por isso que não vou escrever mais nada. Prefiro fazer uma pergunta e respondê-la primeiro: de todos (e foram muitos) os filmes e séries e livros sobre este momento histórico de JFK (e falamos dos momentos imediatamente anteriores e posteriores ao seu assassinato), qual foi o que te levou mais perto dos corpos e dos espaços e dos cheiros e dos medos e dos sons?
Qual foi o que te levou mais perto de tudo, o que te fez sentir que estavas lá, entre os membros do staff, entre os amigos e inimigos próximos, na dúvida, na determinação, na certeza?

Este "Jackie", sem qualquer dúvida.

Os três culpados principais são Pablo Larraín (que realiza), Noah Oppenheim (que escreve) e Natalie Portman (que já vinha ameaçando, mas que aqui aparece sem tiques e transfigurada, e olhem que isso não se vê nos trailers ou nas fotografias, têm de estar quase duas horas a observar-lhe as subtilezas: o biopic perfeito em underacting? Eu diria que sim: o biopic perfeito em underacting).

Talvez, talvez.

A verdade é que, se lhe entregarmos o peito, saímos parvos, íntimos, arrebatados.
Só Marion Cotillard me impressionou mais, até hoje, como Piaff.

Portanto, vénia, aplauso e cinema.
Têm de vê-la no cinema ou numa sala fechada sem um único som ou perturbação.

2017-02-16

Anti-Pró Dias dos Namorados

 Eu e a minha mulher já passámos os trinta anos de namoro, coisa incrível em quem tem pouco mais de trinta de vida , mais década menos década. Não querendo ser melhores do que ninguém, como o aniversário do que nos juntou é poucos dias antes do São Valentim, fomos ganhando terror ao dia, à medida que ganhou os contornos cosmopolitas que hoje tem. O dia dos namorados é quase sádico quando não os temos, e vai-se esvaziando com o tempo, com a proximidade do outono, com o tamanho do amor. É verdade que há silêncios mais importantes do que uma flor, muito mais importantes do que coraçõezinhos gráficos, mas também é verdade que, nos anos em que nos limitamos a rir, a ser histriónicos, exagerados, imitando os gestos mais lamechas no escuro do cinema, mesmo que o riso vá até às lágrimas e isso seja felicidade, falta a flor que lhe recusei neste dia. "Não. Hoje não. Todos os dias menos hoje." Por isso, por todas as recusas parvas de ser cosmopolita e lamechas, por toda a fúria da diferença, no fim vais querer-me simples e claro. Por isso, mesmo com o riso pleno, perdoa-me, meu amor.

2017-01-20

Z4


quandos irrompes
para a pipe
o teu corpo está deitado no cosmos
na posição das galáxias
ao longe
percutem supernovas
e silêncio


PG-M 2017
foto de José Rodrigues

2017-01-09

Manchester by the sea (e Arrival e outras coisas)

 Vi no Famashow - e olhem que não foi por ser no Famashow, porque sou daqueles que pensa que o universo informativo das televisões portuguesas está ao mesmo nível, com duas ou três excepções, e não me venham dizer que estes são melhores do que aqueles ou que há serviços de referência, com essas duas ou três excepções - as perguntas aos convidados à entrada de uma sessão de promoção do filme "Manchester by the sea", obviamente gratuita, em que classificavam o filme, na própria pergunta, como um "filme sobre a família". Ora, dizer que Manchester by the sea é um filme sobre a família é a mesma coisa que dizer que um anúncio da McDonalds é  sobre comida (e, por acaso, raramente é, principalmente o meu favorito, aquele em que a menina pergunta, em suspenso, com um acentuado e belíssimo sotaque nortenho - o meu -, ao nerd do pretendente, "tu adoras...?"). Este filme está a ser bem promovido, vai ser muito falado, vai ganhar óscares e outros prémios, mas não deixem que isso vos afaste dele por excesso de popularidade, porque é, claramente, uma das obras-primas a passar na grande tela nos últimos anos. Quando eu quiser mostrar um filme literário, um filme-livro, um filme com as qualidades todas da grande arte, das grandes artes, lembrem-me de falar deste. De resto, não se deixem cair em simplificações nem deixem que vo-lo descrevam de forma simplista. Não, não é um filme triste nem "sobre a família". É sobre isto tudo. É visceral, e, porque é visceral, parte das entranhas para vos transportar nos corpos dos protagonistas e vos fazer sentir as emoções todas, que também são vossas. Aliás, seria melhor dizer: para vos convocar os sentimentos, os sentimentos mais profundos e verdadeiros. É um filme que sabe calar, omitir, como um grande livro, que sabe sugerir como um grande quadro, e é claramente o momento da família Affleck, provando-nos que não vale a pena muitos saltos, muitos pinchos, pelos quais é mais conhecido o irmão Ben, para chegar ou voltar à excelência (partindo do princípio de que "Good Will Hunting", que o consagrou ao lado de Matt Damon - embora este último esteja, para mim, noutro campeonato, um campeonato em que tem superado os muitos tiques que tem como actor - um filme excelente). Pois este é claramente o ano de Casey. Vai ter de ser um dos cinco nomeados para o óscar de melhor actor. Quem o vê neste filme, tende a pensar que não vale a pena apresentar mais nenhum, porque este é mesmo o papel de uma vida. Vamos aguardar. Era bom que tivéssemos outras surpresas e que a estatueta tivesse concorrência. Um bom amigo perdeu a minha sugestão de ir ver o "Arrival" no cinema porque, em decisão familiar, consideraram que o "Arrival" era "demasiada ficção". É provavelmente dos filmes mais importantes da minha vida, e ainda está em algumas salas de cinema. E ao ser o filme da vida de alguém (minha e de alguns outros que aceitaram a minha sugestão) só pode ser realista. Com ficção de apoio, se quiserem, mas realista. Ou seja, os trailers e as sinopses são simplistas por natureza, falsos por natureza. Já este Manchester by the sea tem tudo, bom trailer, boas sinopses, boa música, bons actores: mais do que bons, em estado de graça. Talvez o Arrival não tivesse nada disto, embora não precisasse, porque o argumento arrasava tudo. Não deixem que alguém vos diga o contrário deste Manchester, ou seja, que é tão realista que magoa. Não, a grande arte muda-nos. Se nos muda, projecta-nos para o topo, arranca-nos do chão. Ou seja, há um momento em que não estamos cá, estamos no espaço entre mundos a mudar. Por isso é que sinto estas duas obras-primas, Arrival e Manchester by the sea, como dois lados da mesma moeda. Um breakthrough íntimo. Acontece sempre quando o que vemos, lemos ou ouvimos é mesmo muito bom. Não percam, por favor. E não percam na tela grande, que é o lugar certo.

PG-M 2017

2017-01-05

Deixa que eu levo os miúdos à escola


Deixa que eu levo
os miúdos à escola
e prometo
combater o vazio
nos olhos deles
a secura nas bocas
dos professores
as lágrimas nos
patamares o frio
no pbx a luz branca
que zumbe no wc


Deixa que eu vou
comprar pão
e prometo
combater o vazio
na boca deles
a secura nos olhos
dos clientes
as lágrimas
na mesa do canto
o frio que sai
do calor da padaria
para o profundo
das casas

Deixa que eu levo
os sorrisos da cidade
à casa dos loucos
que acenam à multidão


Deixa que eu fumo
o teu cigarro
quando for proibido

Deixa que eu faço
amor por ti
direi às mulheres
como estão bonitas
voltarei a casa inteiro
sem poemas
complicados

já te falo do fumo
nas chaminés e
do cheiro a
estrugido
das oito da noite

combaterei a solidão
e as portas fechadas
ninguém faz comida
quando quer morrer

ninguém se faz só

só por fazer


PG-M 2017
fonte da foto