2017-10-16

caramba, a vida

É curioso como olho para este lugar, cada vez mais, como um lugar vago, com a cara da solidão, apesar de tanta gente, como se visse desfilar uma multidão parda e silenciosa e conseguisse ouvir algumas conversas de circunstância - queríamos que fosse aquele permanente almoço barulhento entre amigos, em que tudo o que dói fica suspenso - ou o jantar alaranjado com fumos de forno e um tinto denso em que nos levantamos para ir buscar um copo e ouvimos uma gargalhada a puxar outras e o ar corpulento, como o vinho, e não pode ser sempre assim, vimos por aqui bem intencionados para que alguma coisa nos mova, ou apenas para deixar imagens maiores do que nós e assim completar a ilusão do nosso tamanho, preocupa-me, preocupa-me não valer a quem ainda não aprendeu que a vida tem de ser um esforço permanente de levar o sangue ao ponto de ebulição, mesmo em plena tristeza, podes estar sereno perante uma paisagem arrebatadora, em silêncio, e profundamente triste, como aqui, de olhar vazio para o ecrã azul e branco, mas o sangue tem de passar espesso e em alta tensão, sempre, não é um programa de saúde, não é sequer um abraço, há momentos tão desventurados que queremos é que nos deixem, que não nos toquem, que não nos falem, vai a multidão parda e tu podes agarrar num braço, sair dela, sentares-te a tomar um café e uma conversa de disparates levantar a película aderente dos nossos dias e sem querer estamos a consumi-los, a comê-los como deve ser, e até o trabalho, um bom dia de tensão, pode salvar-nos da incomensurável tristeza, aflição, ansiedade, medo de falhar, estamos aqui no centro de um multidão parda e podemos, sem demagogia ou lamechice, dar o grito de várias formas, e a infinita dolência, como a infinita alienação, são duas gémeas a percorrer os corredores do hotel e o melhor que tiramos daí são vários Jack Nicholsons que espreitam a todas as portas sem querer, realmente, saber. Se formos capazes de manter o sangue em ebulição, pousar o telemóvel, desligar o pc, abrir a boca e ouvir, fazer barulho e calar, nada do que é bom é contínuo, nada do que é mau é contínuo. Está gente fosforescente a sair da multidão parda e a encher as margens, há um rumorejo que cresce, já ninguém promete cafés ou jantares, já ninguém adia para depois da morte, já todos seguiram o bom exemplo dos velórios e funerais, onde homenageamos o outro, não a nós, onde cuidamos dos que o cuidaram, não de nós, onde não nos fotografamos, onde descobrimos um tempo impossível, em vez de nos ocuparmos a afastar todos para longe, e agora eles, os fosforescentes, falam, eles falam todos uns com os outros. Que raiva, dizem. Olha, dizem. Ouve, dizem. Caramba. Caramba. Caramba, a vida.

PG-M 2017

2017-10-11

Temos fotografias

Eu nunca te mostro ou... nos mostro publicamente para lá do que escrevo, porque o amor, o verdadeiro amor, é ofensivo na face da desventura. Não há, pois, auto-retratos. Mas seria mais ofensivo para todas as mulheres que eu vi e me viram toda a vida dizer que ceguei e não vejo mais ninguém além de ti. Como fazia a mulher do García Márquez, e como fazem todas as grandes mulheres, tu também me chamas quando passam as mulheres que me arrebatam. Eu digo-te quase sempre quem são e nós vamos gerindo o perigo de nos perdermos com mundo, não com utopias. E no quase está a intimidade e o segredo de cada um, que o outro respeita, umas vezes, e outras tolera com mais ou menos sabedoria. As tentações estão dentro da harmonia. Sabemos que o verdadeiro amor só tem dois segredos: é simples e livre. Mas nunca descomprometido ou desleal. Esta mão está fresca sobre ti nos dias quentes e quente nos dias frios. Faz Janeiro trinta e um anos. Sou homem e amante, mas também sou um menino, um infante amedrontado, que já perdeu os mapas dos outros corpos. E se a confissão me faz perder a fama de onde nasce a tensão e a curiosidade dos outros (das outras), o mapa está aqui, sob esta mão, é o teu braço, a tua temperatura, o que eu faço de ti e tu de mim. E eu só saberia amar outra mulher como te amo a ti. E o corpo, oh, o corpo, teria de o aprender como uma criança, por este mapa, por esta mão, por este braço.

PG-M 2017
Foto nossa. Sim, somos mesmo nós, em Outubro de 2017, não há sete ou outo anos. Agora. O maior mérito tem sido velar. Mas desvelar os trapos que afinal não são trapos - uma ou duas vezes numa década - também tem o seu quê de utilitário. Sim, utilitário.

2017-10-03

vida e morte dos gatos

até muito tarde na vida

sempre que passava de carro pelo cadáver de um gato

ficava a pensar na minha morte
e desolado pelo tempo do gato
ali parado e sem amor

e os rodados dos carros sem alívio
zim zim zim zim zim
e o gato ali
parado e sem amor

agora na vida é mais tarde e

sempre que passo de carro pelo cadáver de um gato

não mudo de pensamento
só de atenção e é uma mudança
breve
leve
verifico se é preciso trocar de faixa
se o telemóvel está ligado ao sistema de mãos livres
se aquela morte não me vai atrasar a vida
penso no descuido do felino
mas tudo passa quando
o carro passa e eu passo
com o carro
sem ficar lá

como ficava antes

até muito tarde na vida

o meu filho sentava-se comigo à mesa do café
de camisola de manga curta e miniatura de mustang
e eu de olhar vazio e sorriso vago inclinava a cabeça e dizia

vrummmmmmmm

e ele dava uma gargalhada e eu continuava aflito
não com a vida ou morte dos gatos
agora o meu filho sai às sete e entra no wc do café
sai de camisa e gravata e olhar vazio e sorriso vago
e inclina a cabeça para mim e diz

vrummmmmmmm

e eu como mais uma colher de sopa

até muito tarde na vida
a peixeira parava ao largo e abusava da buzina
e a tia quina saía lampeira a dizer menina
e o toninho movia-se dentro do balcão
com dignidade a tirar cervejas cafés e a dar
raspadinhas e prémios e trocos
do benfica em terra de portistas
e como o toninho era puro ficavam
todos a rir

até muito tarde na vida
o poder mal se notava na rua
os ferros e as mãos entravam na terra
as línguas nas bocas e o sal na comida
os corpos encaixavam debaixo dos braços
e não havia distância
nem desterro

até muita tarde na vida
cuidava-se da vida e da morte
dos gatos
o avô entrava no porto pela ponte dom luís
parava no largo 1º de dezembro cortava a travessa
da rua chã rompia o frio das sete para arrumar os
volumes de tabaco e as harmónicas novas iguais
às harmónicas velhas havia um balcão de dois metros
de ancho que eu até me deitava lá ao comprido ainda
eu não era comprido e os gatos viviam e morriam
normalmente

até muito tarde na vida
atirávamos o prego para a terra
o pião para o chão
o iôiô de balancé
para o vazio
trocávamos cromos a chorar
pelos mais raros
e ir ao telefone
era um momento solene
tínhamos cães e gatos como pessoas
e eles não morriam sem
consentimento
a avó dava notas de dez contos
e o jantar tinha uma única hora
em todas as casas

até muito tarde na vida
o natal era secreto entre os ouvidos dos primos
e as famílias compridas de dois metros de ancho
como o balcão da loja e como os jogadores
de basquete do futebol clube do porto
no pavilhão américo de sá e quando a solidão
e quando a solidão nos tocava
havia sempre um vizinho
no ombro

até muito tarde na vida
o mundo era imperfeito
e desarrumado
as bancadas dos estádios frias
e sem cobertura
havia baianas na casa da batalha
e sapatilhas de marca na crocodilo
e nós dançávamos slows
nas festas de garagem
e das paredes nasciam
grupos de rock
e ninguém se rendia
nas caçadinhas só
no jogo do lencinho
com juras de sangue
nos lábios das loiras
para todo o sempre
e os gordos e os
caixas de óculos
eram nossos
e investidos cavaleiros
no brasão do grupo

como o Piraña
do Verano Azul

até muito tarde na vida
jogámos futebol na rua
entre a vida dos cães
e dos gatos
com balizas de paralelos
e empates dez a dez
e perdíamos os amigos por
três meses e não pela vida
toda como agora
a morte dos cães
e dos gatos

até muito tarde na vida
fiz poemas muito maus e
mesmo assim os amigos
pediam versos como
Cristiano a Cyrano
para a Roxanne
e vinham de olhos
húmidos acusar-me
de poesia
e hoje
que os meus poemas são melhores
são mortos sem piedade como os
gatos no breu

até muito tarde na vida
os poemas eram finitos
e os gatos infinitos

doravante morrem os gatos
mas os poemas não 

PG-M 2017
(que neste escreverá toda a vida mais e mais versos e estrofes a seguir a "breu" até que o atropelem na estrada sem piedade como os gatos no breu - eis o poema aberto)

fonte da foto


2017-09-30

nos próximos minutos ou então a vida inteira


nos próximos minutos (ou então a vida inteira), haverá apenas dois guilhermes no mundo, um pai e um filho, tão diferentes um do outro como as copas e os troncos das árvores, como os sorrisos duros e os olhares doces, tão diferentes um do outro que os respectivos corações são poços sem fundo e quem para eles espreita dos rebordos de granito entre os meses só vê preto,

só que a entrada para o meu é pelo topo e a entrada para o teu pela base e como não têm fim nem a manipulação formal de equações, operações matemáticas, polinómios e estruturas algébricas resolve o problema a quem nos estranha:

onde fica o verdadeiro acesso?
já quem nos ama chega ao centro de olhos fechados, comigo pela pele e pelo cheiro, contigo pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

ambos comemos ética e liberdade, só que eu já engordei e tu ainda não,
pelo que comigo a ética e a liberdade funcionam como as lutas de homens e touros mais ou menos como as caracterizou um dos maiores matemáticos do nosso tempo, Hemingway, estou quase nos cinquenta e ainda não sei viver com economia física e acho que a beleza de um gajo do porto está no desbraganço e no calão e na forma vigorosa de destruir as espaldas dos amigos
(não vou agora recordar-te, com o risco de uma lamechice mortal, que a minha solução não foi opção porque era espancado em criança e um dia me levantei e comecei eu a espancar: isso seria estúpido e pouco literário; na verdade sou assim porque acredito nisto)

e tu, que só muito recentemente te tornaste homem,
comes ética e liberdade com economia

como o garcía martín lá em oviedo, a forma como um homem não se vende nem se cala - nem aos amigos, nem aos inimigos, nem aos inofensivos nem aos mais perigosos - priva-o imediatamente da unanimidade, e, como a unanimidade é perigosa, torna-o seguro

mas, na verdade, ninguém sabe que esse homem é seguro, porque o homem livre parece sempre um cabrão e um cabrão parece sempre um simpático homem livre

a diferença é que eu agora passo a vida a dizê-lo e tu não

os teus amigos percebem-te em silêncio e sem proximidade
curiosamente, no fim de contas, os meus também

posso dizer-te, meu filho, que é provável que possamos obter algum reconhecimento à morte ou na extrema velhice, nunca antes

não esperes palavras justas ou reconhecimento quando partes de um lugar ou de uma casa
não esperes agradecimentos públicos
não esperes cartazes pendurados em murais

afinal, esta filosófica busca da autenticidade - e não da verdade, que é mais falível e impura do que a matemática - traz apenas isso, autenticidade

mas, repara, não leves a mal a ninguém o silêncio perante homens com qualidades
quem pode viver sem um abraço e um elogio público?
ou ao ouvido, baixinho, para que ninguém ouça, "mano, sabes que nunca me vou esquecer de ti"?
quem pode viver sem uma noite de embriaguez e a negação da dolorosa ciência dos dias, sem os metais da vitória e do sucesso, a carne das taças e o brilho da geometria, a arrumação iconográfica do ecrã do telemóvel ou a selfie que te ilude a sentença suicida:

mas a vida é só isto? esta merda?

afinal, meu filho, a única coisa que tu fazes é voar

e ser digno


e sim, a vida é só isto, é lama e cinzento, são corpos cansados e as curvas das mulheres misturadas com as curvas dos ossos, mas, tu que és de cá,

um dia vais fazer o que eu fiz: vais levar o sobrinho do Pessoa,
que nasceu da névoa em Canidelo, naquele percurso da luz:
pelas onze da manhã, estacionas o carro na afurada, debaixo da ponte da arrábida, e diriges-te a pé rio acima e, depois da primeira curva à direita, vais apontar (eu sei que não gostas, mas, por favor, aponta) para o primeiro vislumbre da ponte de ferro e mostrar o jorro da luz da manhã a varrer o rasto dos barcos em direcção a ti e ao céptico que te acompanhar e dizer

a vida são aquelas lágrimas de há pouco, sim,
mas também isto

e lá está o meu defeito, é sempre a mesma merda:

eu só escrevi isto para te dar os parabéns como todos os pais têm dado aos filhos que entraram na universidade este ano, e mesmo aos que não conseguiram mas lutaram e vão continuar a lutar

é, pois, um texto profundamente banal e nepotista

é até bem triste que um pai se sirva do seu próprio filho como exemplo nas escolas que visita como escritor, como se não tivesse vida própria além desse filho, e é por isso que eu gostaria de esclarecer publicamente, para que fique claro, agora e sempre:

é verdade, eu não tenho vida própria além deste filho; mais precisamente: a minha vida própria é este filho e tudo o resto uma grande consequência de não haver nada mais importante

vai continuar a ser assim até descobrirem o fundo aos poços dos nossos corações, lamento

nas escolas eu digo que andavas com umas notas pouco recomendáveis no décimo ano quando viste a luz da engenharia mecânica, soubeste que estava na moda e que o lamentável crivo se aproximava de um dezoito e tu estava longe de ser um dezoito e disseste

eu quero isto


e acabaste perto do dezanove; desligaste a playstation durante um ano, perdias cinco horas por dia a treinar com a tua selecção nacional de voleibol e a combater as leis medíocres deste portugal que há muitos anos não ajuda os seus atletas e prefere fazer leis parvas que as escolas e as universidades e as federações não combatem a sério, foste dando sempre passos seguros atrás quando te queriam empurrar para a frente, mudaste de clube, foste feliz e respeitado e nunca deixaste de voar, mas os critérios de topologia, geometria, até a teoria dos números para te descrever, tudo

tudo em ti é imperceptível e infungível

e no entanto és feliz

baixas o corpo quando o distribuidor te aponta a bola, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado

sabes o teu lugar, se to tiram combates por ele e bates palmas aos adversários
e quando abraças um amigo é para sempre,
mesmo que ele não abrace de volta

mas receber o teu abraço custa uma vida
e quem te estranha, pergunta: onde fica o verdadeiro acesso?
já quem te ama chega ao centro de olhos fechados, pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

entraste

vais lutar pelo máximo, sempre

e, naquele desporto que toda a vida foi nosso, estás parado no ar,
no teu deserto privado
e sem ninguém

mesmo perto do brilho, com o corpo pronto para lutar pelo impossível,
lanças tu a bola ao ar,
baixas o corpo, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado,
na falível percepção da felicidade
mas com memória do mundo


parabéns, meu filho



PG-M 2017
foto do próprio






2017-09-14

Saramaguíada - sai no final de Setembro

Nos "teasers" e nos primeiros anúncios do terceiro livro, a ideia que passámos foi sempre a de lançar no final do Verão de 2017. "Teaser" no dia 14 de Junho, que passará a ser o Diassaramago, porque este livro o cria, e mais não é preciso. Lançamento no dia 15 de Setembro.

Acontece que a pré-venda correu tão bem que superou as previsões de autor e editora, e absorveu toda a primeira remessa do prelo. Aliás, literalmente, "não chegou para as encomendas". Ora, como a nossa palavra é só uma, ou seja, nem pensar em ter o livro nas livrarias antes de estar nas mãos de quem apoiou esta aventura previamente - já chegou a algumas centenas, mas tem de estar na mão de todos eles - a edição foi atrasada, a meu pedido, para o final de Setembro.

Este post celebra a chega do novo animal ao jardim zoológico literário.

A fotografia é do "despacho" de José Luís García Martín, um dos maiores e mais respeitados e reputados intelectuais ibéricos, o Professor Catedrático de Oviedo, Departamento de Filologia, e que vamos ter a honra de receber este fim-de-semana no Festival Literário de Ovar e que é o melhor cartão de visita para o livro. Livro que, é visível na fotografia, chegou ao "despacho" de García já com marcas visíveis de uma viagem atribulada: resta saber se criatividade dos Correios de Portugal ou dos Correos de España. Em Ovar, convidei-o para dizer mal de mim e do livro. Espero também dizer mal dele. Será uma oportunidade única. O meu respeito intelectual por ele não permitirá outra gracinha.

Gratidão para os que apoiaram na pré-venda e pedido de desculpa para esta espera extra de duas semanas para os que o esperam em livraria.

PG-M 2017
fotografia de J.L. García Martín

2017-08-30

O último dia

 A partir de 1 de Setembro rege a lei do preço fixo. 31 de Agosto é o último dia de pré-venda, avisa a editora. Obrigado aos muitos que apoiaram e aos que nas próximas 24h ainda o farão. O livro está no prelo e sai quentinho esta madrugada. Começará a seguir segunda-feira para os que apoiaram esta fase. Nas livrarias estará a partir de 15 de Setembro. Os primeiros lançamentos serão aqui anunciados (e no facebook e no instragram). Loja online aqui.

2017-08-05

Entrevistas 2017 - a primeira

A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança e trabalho’

com 1 comentário
Entrevistas > Pedro Guilherme-Moreira em Escritores online

Pedro, quando é que surgiu a tua vontade de escrever ficção e de publicar?
A resposta a esta vai logo na badana do primeiro livro, “A manhã do mundo”. A professora da 2ª classe pediu-nos para escrever uma fábula e eu transformei-a numa formiga. Era o que me apetecia fazer, mas pensava que estava a ter um atrevimento que seria severamente punido. Eu era bem comportado. Tinha tido dificuldades na primeira classe por excesso de medo. A professora Laura tirou-me o medo todo quando me ensinou a fazer contas de dividir, no primeiro dia, e me deu a nota máxima e elogios por ter feito a loucura de a transformar em formiga. A partir desse dia, achei que tudo era possível. A literatura faz isso. Transforma-nos em gajos perigosos. Mais valia ser medricas.
Onde é que, por norma, encontras a inspiração para escrever as tuas obras?
Temos de distinguir a poesia da prosa e do teatro, para falar só em três géneros. A poesia já lá está, é nossa responsabilidade reduzirmo-nos à mesma formiga da fábula para transportar a poesia e a mostrar ao mundo. Nem sempre o fazemos bem. Quando nos apagamos completamente, mesmo que sejamos o objecto do poema, um ou dois de nós chega lá, de vez em quando – a poesia é talvez o processo biológico mais próximo da inspiração. A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança, trabalho – eu quase só vejo inspiração no primeiro acto, aquele que nos obriga a parar tudo para registarmos a possibilidade de um novo livro. Finalmente, o teatro: nunca tive tanto prazer como quando escrevi para teatro. Estava lá, no palco, e tudo aconteceu ao mesmo tempo nas teclas e no papel. Uma sensação maravilhosa e terrível, ao mesmo tempo. Mas neste gajo perigoso há um denominador comum, seja na literatura, seja num jogo de voleibol: vísceras.
Quais as temáticas mais presentes na tua escrita?
Estava preparado para ser evasivo, como nos ensinou Bukowski, mas na verdade tenho-as: levar-nos para as margens da natureza e da condição humana. Tenho quase um desespero de nos observar lá, onde nenhuma minudência pode importar, de perceber o que realmente importa. Como fiz nas torres gémeas. Descrevi os suicidas e depois tirei-lhes a carne e vesti-me neles, para que sentíssemos o mesmo que todos os três mil mortos. Eu e todos os leitores. No Livro sem ninguém tirei-nos do mundo e li-nos lá. Um livro sem personagens grita gente por todos os lados. Noutros, inéditos, reverti as metamorfoses. No novo, “Saramaguíada (a invenção de Pilar)”, obriguei a ideia de Saramago a fazer as vezes de Quixote e levei-o de barca aos limites da literatura e do próprio amor, que são coisas diferentes, embora aquela contenha este e este não contenha aquela.
Que aspetos destacarias relativamente ao livro que publicas este ano, o terceiro, “Saramaguíada”?
A Pilar chega a Lisboa para conhecer fisicamente o Saramago a 14 de Junho de 1986, estávamos nós a aturar Saltillo e o México 86. É o Diassaramago, que se celebrou ontem. Nesse dia, levámos no corpo de Marrocos, 3-1, um golo do Diamantino. E nós, eu e vocês, não vamos dar descanso à ideia de Saramago, que renasce para isto, como renasce a cada leitura dos seus próprios livros. Mostro a Pilar pré-1986. Achei que devia. A Pilar faz parte da nossa literatura, é uma realidade, não podemos fingir que não, não devemos fingir que não. Não mostro a vida comum deles. Mostro-os depois da morte dele. Cruzo o mundo ideal com o mundo real de uma forma muito prosaica e simples, desde que ninguém se agarre ao tempo. O tempo, sendo tudo, importa pouco para as ideias, que, como sabemos, vão, voltam, são recicladas desde as cavernas – às vezes são relativamente novas, mas nunca são novas, ao contrário dos livros – claro que ainda não se escreveu tudo e os livros são mesmo novos, quando são. As ideias sobrevivem no tempo, mas também apesar do tempo. Assim, levo o Saramago a conhecer o Eça e a Maria Amália Vaz de Carvalho por motivos frívolos, que é o que tantas vezes fazemos no “meio”. Dou-lhe uma missão banal. Obrigo-o a aturar o jovem Pessoa e o seu cão Shadow e a levá-los nessa missão. O jovem Pessoa apaixona-se pela Annabel, do Lolita, do Nabokov, o que se torna um problema, porque Nabokov determinou que Annabel morresse de Tifo em Corfu. O jovem Pessoa sabe disso e quer evitá-lo a todo o custo. Em Corfu, ou numa espécie de Corfu, chamada Ilha dos Jornalistas sem Cabeça (onde reflicto sobre jornalismo e sigo os últimos passos do jornalista mártir brasileiro Vladmir Herzog) Saramago é julgado em público e defendido pelo Padre António Vieira. Encontra-se com O’Neill em Lisboa e com Virginia e Leonard Woolf numa ilha parecida com Amalfi, assim como com muitos outros escritores brasileiros, portugueses, espanhóis. Levo-o à Tormes de Eça comer o célebre arroz de favas. Encontra-se com Voltaire em Paris e com a mãe de Pessoa em Davos, numa volta de Montanha Mágica. E com vários vultos nas barcaças que o levam para aqui e para ali. Enfim, o livro nem é grande (cerca de 320 páginas), mas para mim tem um certo infinito, como aquelas pistas de aeroporto infinitas que querem agora construir, porque são circulares. Ah, e temos uma personagem arrepiante (temos várias, mas esta é principal): a própria Leni Riefenstahl, a cineasta do Hitler.
Quais os momentos mais marcantes no teu percurso enquanto escritor?
Encontrar os editores e os leitores de todas as idades. A emoção de ver um editor de grande qualidade mostrar-nos que a grande merda que fizemos, quando pensávamos (não pensamos todos) em obras maestras, como dizem os espanhóis. A Pedreira, que me deu a mão para lá deste muro alto da edição, apesar de termos feitios e ideias muito diferentes (creio que nos estimamos e respeitamos muitíssimo). A Virgínia do Carmo, pela humildade e pela coragem. E tantos leitores, dos 11 aos 97. As visitas às escolas são um profundo privilégio, apesar de precisarem de uma afinação de egos e métodos pedagógicos. Todo o ensino do português precisa. Não se ensina a ler nem a escrever, que é o fundamental. Exagera-se em grelhas numa “ciência” de máxima subjectividade. Só os grandes professores de português nos salvam.
O que é, para ti, um bom livro? 
Não me meto na definição universal do bom livro, que não existe. Para mim é fácil ver um mau livro, mas aprendi que quem os escreve, se tiver a humildade de os destruir e avançar, pode vir a escrever bem. Quase sempre, os livros mal escritos são escritos por maus leitores. Mas há bons leitores que não conseguem encontrar a voz e a técnica. A pressa em publicar não serve de nada. Mais vale ser injustamente recusado do que auto-publicar sem crivo e a ciência do editor. Isto era um mau livro. Um bom livro, para mim, só para mim, é um livro que me pendura pelos cueiros, que me faz praguejar do quão bom é, que me faz desesperar por não conseguir “resolver” aquela voz, que quero sempre desesperadamente plagiar para aprender a fazer parecido. É, cada vez mais, o livro que me mostra oficina. Ouvi dizer, um destes dias, já não sei quem nem sobre quem, que o bom livro e o bom escritor deixam as costuras à vista. Nem que tenham de as esconder no processo.
E o que faz de um escritor um bom escritor?
Ser simples, não emitir opiniões como sentenças erga omnes e deixar-se de merdas. Lutar pelos livros todos, não só pelos seus. Ser humilde perante o leitor e o editor. Colocar o leitor no topo da pirâmide. Saber parar e questionar. Não atacar publicamente os pares, mas criticá-los e pensá-los muito em privado e olhos nos olhos ou até nas costas, se ele não estiver por ali, desde que tenha a decência de, na primeira oportunidade, dizer na frente o que pensa. Não ser subserviente ao statu quo vazio, mas respeitar os decanos, a sabedoria e a erudição, lutando por uma nova. E, se, no final de tudo, for uma reles pessoa, que se meta em casa ou no escritório e se dedique obcecadamente à literatura, para não magoar mais ninguém e fazer o bem aos vindouros, poupando os contemporâneos. Se for uma reles pessoa, por favor não escreva no facebook.
Para terminar, gostaríamos que nos indicasses os teus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.
Gosto muito de muitos portugueses, mas vou optar por não indicar nenhum. Porque os clássicos não precisam e porque não é por mim que os novos terão mais leitores. Tenho, no entanto, de dizer duas coisas: o Pessoa é omnívoro e deve ser consumido com tento. Contra mim falo, porque o tenho em todo o (novo) livro, embora jovem, criança. E deixem de opinar sobre o feitio da Ana Teresa Pereira como se fosse um ser humano, porque ela também já é um mito. O maior mito britânico português. Portanto, quanto ao restante, Proust – Recherche, tem de ser. Bukowski também, qualquer um. Bachelard e Platão (e este inclui Sócrates, como sabemos, porque Sócrates não escreveu uma linha), idem. Colette, que não é só para gajas (essa era um das parvoíces), Chéri. Qualquer poetisa que não chame a si própria poeta vale a pena, só por isso, embora não deva ser excluída das escolhas só porque usa um adjectivo de género masculino sobre si própria. Os sábios de rua de todas as aldeias do mundo, e que cada vez escutamos menos, com a excepção do Fernando Alves. Insisto na Bíblia, no Dom Quixote, na Karen (os meus são íntimos, digo depois). La arte de quedarse solo, de García Martín. Se isto é um homem, Primo Levi. Já chega. Obrigado!

2017-07-10

Tudo

Foi hoje, sim. Eram umas nove e tal da noite. E não peço mais nada. Não pedi isto hoje, logo hoje, não contava, não esperava, não sabia, mas ele veio ter com o pai. Subitamente percebi que era tudo para mim. Eu tinha pedido uma vitória sobre a Espanha, mas perdemos (nem sei bem se perdemos, se ganhámos uma equipa), mas afinal era isto. E isto é tudo. Não posso pedir mais. Ele já está no trilho de afastamento, e no entanto parece mais próximo do que nunca. É um puto duro, nada mimalho, com um coração profundo. Perceberam que isto é sobre mim? É. Está tudo aqui. Não preciso de mais nada. Foram dos melhores segundos e das melhores prendas da minha vida. Longe, em Bad Blankenburg, na antiga Alemanha de Leste. Eu, que me chega vê-lo de longe, das bancadas, a rebentar de orgulho, esteja ele no banco ou no campo. Não o publico para exibir perfeição ou felicidade. Publico porque é o que quero para mim hoje e acho que mereço.

#myboy
#myday
#volleyball

2017-06-19

Luto, luta

Sabem o que nos dá medo e todos os outros sentimentos que se confundem entre os nossos princípios e o desespero, a raiva, a indignação, a impotência? Pensarmos que podíamos ser nós, ali, naquela ratoeira, nós ou os nossos. Que não conseguiríamos valer a um filho, a um amigo, a um passante. Primeiro eu quis saber exactamente o que se passou e porquê. Já sei. Depois deixei de conseguir falar em público. Já em privado é difícil, quanto mais em público. Desabafei duas ou três coisas cá por casa, mais nada. Mas aqui estou a escrever, agora. Não sei bem o que dizer do barulho que hoje se faz nas redes sociais. Acho que é aflição misturada com solidão. Creio que a maioria de nós teria sido um herói, podendo. Creio também que todos queremos que isso dos heróis não seja tão necessário. Que as pessoas estejam seguras nas suas belas e simples vidas. Lembro-me daquele movimento dos indignados e de como a maioria voltava para as suas vidinhas no dia seguinte, sem fazer nada pelo mundo. De como eram violentos quando lhes diziam: já gritaste, agora faz. Creio profundamente que a nossa posição no mundo é fazer alguma coisa por todos os outros sem gastar energia e tempo a anunciar que se faz. Creio que as responsabilidades públicas, políticas, dos tempos que correm são dois terços de vazio e um terço de boa ou má vontade, de acordo com os casos: tentemos erradicar os dois terços de show off burocrático e mediático e ocupemo-los com calão e força para protegermos o próximo sempre de forma substancial. Puta que pariu os que não ajudam os outros e só querem aparecer. Creio que, para fazer coisas a sério, hoje em dia, coisas que valham a pena para o mundo, me devo afastar, não apenas dos poderes públicos, mas dos poderes fáticos. Há demasiada gente indignada que faz muito barulho e nada mais. No caso específico do maior drama de sempre dos incêndios em Portugal, um dos maiores de sempre no mundo, creio que o meu papel é lutar de forma silenciosa, usando o que estes mortos nos ensinaram. Que a sua vida valha muitos salvamentos. Lutar contra potenciais labirintos que eu conheça nos lugares onde vivo e passo. Nunca mais na vida bloquear pontos de água e pedir mais, se não vir nenhum. Ficar em paz perante os corta-fogos. Estar atento a quem grita pela sua terra e pelas suas matas. E não consigo fazê-lo de outra forma que não assumindo este luto e pensando que estes mortos são os meus mortos, que o seu fim horrível foi o fim dos que eu amo. Escrevo isto para vos explicar que este aperto que sentimos no peito quer dizer isso. E escrevo aqui porque tenho algumas centenas de irmãos que escutam e acolhem estas reflexões, como eu acolho as deles. Escrevo para entender, não para parecer bem. E sinto que entendo melhor. Como escrevia a Toni Morrison de uma das suas personagens em Beloved: a comida dela está cheia de lágrimas. A nossa comida está cheia de lágrimas. Movamos a terra para sermos todos um lugar melhor, aos poucos. A sério. Com as pequenas coisas que não fazem barulho, mas são amor.

PG-M 2017
fonte da foto

2017-06-14

Saramaguíada

 
 Aqui estou, sem cara - porque não é sobre mim, nunca foi, nunca será -, vestindo a camisola que vou suar literariamente no próximo ano (e na próxima vida), ladeado pelas capas dos meus meninos da Dom Quixote (capas do Rui Garrido) e com o novo livro, este vosso "Saramaguíada", a emergir da parede, porque foi um pouco assim que Saramago e Pilar começaram a ser amados (em todos os sentidos, e eu não excluo aqui os que desconfiam do mito - sim, do mito), em grafittis nas paredes de Lisboa - o arranjo gráfico deste teaser é do jovem génio Tomás Lucas, que merece toda a ventura (é separado, é).
E no grande Esse, que é obra do outro génio que estará ao meu lado nesta aventura (aqui é junto), o ilustrador Vasco Gargalo, estão, entre muitos outros, porque esse grande Esse serpenteia por todo o livro (salvo seja), como numa barca infinita, os nossos "grandes", alguns dos quais podem ver logo na capa, como Saramago, Pilar, Charles Robert Anon (o jovem Pessoa), o nosso labrador preto Shadow, Eça de Queirós, Maria Amália Vaz de Carvalho, Dom Quixote, Padre António Vieira, Alexandre O'Neill, Virigina Woolf e marido, Leonard, Voltaire, Salvador Dali, Confúcio, Gogol, Leni Riefenstahl, Robert Johnson (pai do blues do Delta), a própria Paris, para onde todo o livro se dirige, etc, etc.

Hoje, 14 de Junho, é Diassaramago. Faz 31 anos que Saramago e Pilar se encontraram fisicamente pela primeira vez, no Hotel Mundial. Um dia importante. Por ser um dia importante e estar dentro do livro, foi este o dia escolhido para dar a notícia de um novo livro, que não é apenas sobre Saramago e Pilar. Parte deles para toda a literatura. É importante (foi importante) que Saramago seja também personagem, objecto, mito, Quixote. O livro tem como título "Saramaguíada" e subtítulo "A invenção de Pilar".


Uma mensagem clara: sendo eu do norte, mais concretamente nado na freguesia da Sé, no Porto, criado nas Antas, tenho entre os lábios carnudos (este adjectivo ridículo já é um oferenda aos deuses menores) uma quantidade imensa de calão enérgico destinada à perfídia e aos que, não sendo em si pérfidos, a exercem regular e frivolamente. Sendo do norte, soy determinado pelo essencial, não pelo acessório. O meio literário é feito de gente muito boa e, já o disse no post anterior (sobre Bukowski), esses porreiraços, às vezes, são amarrados em grupo como vitelos num Rodeo e, mesmo assim, pensam que são os cowboys, não os vitelos. Vou ter o cuidado de, quando os vir comportarem-se como vitelos, os enlaçar e dominar com o meu calão nortenho, para que ganhem foco, se libertem e sejam mesmo cowboys. Ou índios. E, ainda que falte paciência para os extremos, desde as grandes máquinas de vender livros (que em si não têm mal nenhum, o problema é quando lhes falta temperatura), aos independentezinhos virtuosos com complexo de superioridade, este livro e eu estamos aqui para lutar pela substância e pela simplicidade e até pelo resgate de alguma erudição - não a que se esfrega na cara do interlocutor (essa, na prática, não é erudição), mas a que se ganha com silêncio, observação e humildade.

O resto passará sempre ao lado.
Agora, com vossa licença, comece a aventura. E a ventura. Agradeço-vos desde já todo o apoio de remos, quilha, suporte, abraço, tudo. Que é fundamental.
O livro sai no Verão de 2017. Exactamente quando, fica para outro teaser, daqui a umas semanas. Que até já pode ser o press-release (este, decididamente, não é; este sou eu, os leitores, os pares, os artistas e os editores). Vai ser um volume com qualidade e era mister (leia-se mistér, e não míster), para mim, que fosse profusamente ilustrado, porque há aqui uma nova iconografia que tem de ser interpretada por um  ilustrador da classe do Vasco Gargalo. 
Obrigado.

PG-M 2017
arranjo gráfico de Tomás Lucas
ilustrações centrais de Vasco Gargalo

14 de Junho, Diassaramago

Hoje, 14 de Junho, é Diassaramago. Faz 31 anos que Saramago e Pilar se encontraram fisicamente pela primeira vez no Hotel Mundial, em Lisboa, por volta das quatro da tarde. E este é o dia em que, logo a seguir ao almoço, será dada a notícia de um novo livro. Este grande Esse tem mais ou menos visíveis as personagens principais (ficarão quase todas claras por volta das duas da tarde, para que ideia assente até às quatro) - que são as personagens principais de muitas literaturas - e estará deformado e borratado até depois do almoço. Mas este Esse não é apenas sobre Saramago e Pilar. Parte deles para toda a literatura portuguesa e de toda a literatura portuguesa para a literatura universal. É ambicioso, mas não é pedante. Descarna a ignorância universal destes tempos (nenhum de nós pode saber tudo e muitos de nós ainda acham que só temos de saber até ao século XX, enquanto a maioria age como se só tivesse de conhecer o XXI ou, pior, apenas própria década) e responsabiliza-nos a todos por uma nova erudição. Há que respeitar profundamente os poucos que ainda a têm, mas não podemos continuar a facilitar, mesmo não a tendo, ou tendo-a poucos. Até lá, bom dia. E obrigado por iniciarem comigo esta terceira aventura literária.

2017-06-12

Somos todos (“verdadeiramente”) Bukowski ou como ser cínico e amar

 Eu não podia estar aqui. Não devia estar aqui agora, na "suite presidencial" de um hotel de asco pegado a um mall gigantesco nos arredores de Nova Iorque. Não, não, já perdi a frase. O Bukowski teria dito o lugar exacto, a rua, o beco, e não ia escolher um hampton qualquer, nem pensar em escolher o fio de baba tóxico de um hampton qualquer, ia para o outro lado, para sul, para o meio do barulho e da fealdade, das sobras da américa, onde dissecaria de forma meticulosa o ciclo de vida das lagartas nojentas que penetram a grande maçã até à inconsciência. Aqui, nesta merda de lugar, ainda se fuma e eu estipulo que sou advogado num escritório de advogados em Manhattan que ocupa dois edifícios e tem mais população do que esta parvónia de onde eu não consigo sair desde puto sob o estiolado pretexto das raízes, mais uma mentira urbana que me levará depressa à morte. Estou farto de gastar dinheiro, mas ainda não estou suficientemente farto de o ganhar para os mandar a todos à merda, o que eu já deveria ter feito. Era o meu máximo objectivo ao dobrar os cinquenta – ainda vivo aqui para os mandar a todos à merda antes de me afeiçoar à lapidação da ilha mais desejada e sobrevalorizada do mundo.


Estou a dispersar. Na verdade, só abri este texto para declarar a minha amizade a duas personagens ficcionais que estou a criar para o meu último livro, aquele que vou deixar inacabado, mas ainda não afinei o cinismo para o dizer de uma forma suportável para mim próprio. Se não é para mim próprio, para eles pode ser fatal. São um homem e uma mulher.


Nunca detestei o homem. Só não gostava da personagem que ele tinha composto em público. E é irónico eu dizer isto, porque, no regresso de carro de um festival literário no México, tínhamos mil quilómetros pela frente e não íamos estar calados como no avião entre Nova Iorque e Los Angeles, ele disse-me que a minha personagem pública era má e que eu tinha de fazer alguma coisa para mudar isso. Hoje eu sei que o que ele queria dizer é que eu não era suficientemente cínico e que um ser humano, qualquer ser humano em qualquer ofício, não pode aparecer aos outros como uma pessoa sensível e virtuosa, rodeada de amigos, principalmente de amigas, portanto um incorrigível onanista. O que aconteceu depois foi assombroso. Embora eu tenha a certeza de que, ainda hoje, ele não gosta verdadeiramente de mim, conseguiu que eu gostasse verdadeiramente dele. Passei a observá-lo com honestidade e lealdade, o que não fazia antes. Nunca lhe fiz mal, nunca disse mal dele a ninguém, excepto à minha mulher – mas isso não conta, como sabemos – , mas não queria saber dele. Quando nos informaram da editora que íamos estar juntos no México, e, pior, íamos juntos num avião e num carro e que, provavelmente, até dormiríamos juntos, por contenção de custos e partilha de quartos em hotéis de asco como aquele onde escrevo isto, creio que o desespero e a ansiedade tomou conta de ambos. Para lá ainda foi. Para cá, ele teve de falar. Reflecti sinceramente no que ele me dissera, disse-lhe que ele não tinha razão, mas tinha. Não a tinha toda, mas tinha metade dela, e ter metade da razão é tê-la toda, por não haver, no nosso século, tempo nem condição para conceitos muito claros, muito menos precisos. Eu, por ser suficientemente burro para me achar inteligente, adequei a minha existência pública a metade dos ditames do rapaz. Portanto, a metade da razão. O que é curioso é que ele próprio se encheu, quase até ao desespero, de ser um cínico urbano e declarou aos seus amigos radicais que ia abandonar a seita. Abandonou a seita e abandonou Nova Iorque e foi viver com a mulher para a ilha onde tinha nascido, uma ilha que ninguém conhece em frente ao farol de Montauk, só visível do céu durante dias límpidos de verão, que em Montauk são dois ou nenhum. Aí, a infinita curiosidade dele, que, quando misturada com cinismo, era insegurança descarnada, perdeu cinismo e ganhou paciência e sabedoria. Então ele começou a crescer. E crescer até um ponto em que, mesmo que seja pequeno, como eu, já me parece maior do que os nossos pares. Reconhecido, nunca deixei de lho dizer, passo a passo, o que ia vendo. Hoje ele até consegue ver em si próprio que a forma bem articulada como leva todas as suas intervenções sobre qualquer assunto é insegurança e timidez. Nas entrevistas, quase não lhe fazem perguntas, ou, as que fazem, já foram antecipadas por ele. A questão é que esse discurso articulado vai melhorando cada ano que passa. Se ele é humilde ao ponto de preparar e pensar aquilo que vai dizer e depois chega lá e diz tudo, ao ponto de não conseguir encaixar o humor e as indirectas como antigamente, na altura em que a vida dele era apenas humor e indirectas, tornou-se talvez o primeiro ser humano em que o decesso de humor, sendo uma limitação, não o tornou pior pessoa, pelo contrário. É simples e humilde, deixa as folhas em branco para nelas escreverem. E eu escrevo hoje essa espécie de declaração de amor para lhe dizer o que, sei hoje, ainda lhe falta. Foi claro na última intervenção pública que eu lhe ouvi: falta-lhe voltar a ser ilhéu. No conteúdo, no que mostra vindo de dentro, todo ele é genuíno, ainda que pensado e preparado, mas ainda fala como um novaiorquino afectado de Manhattan. Manhattan perdeu a condição de ilha, porque é a praça do centro do mundo, o mais ligado de todos os territórios. Mas ele é ilhéu. Nasceu e vive numa ilha cuja identidade hoje assume e promove. Perderá, um dia, o tom afectado de Manhattan. Nesse dia, será o mais perfeito de todos os imperfeitos pares. E eu torço por ele. Do fundo do coração onde o deixei chegar, ainda que eu não esteja no dele. Não faz mal. Nós, os falsos cínicos, os que precisam da voz de Bukowski para dizerem as coisas mais bonitas
como as cidades as comem , sempre quisemos o bem dos outros mais do que o nosso.


Já para ela, escrevo porque ela falou da intimidade literária numa entrevista e há no presente – e do presente ninguém fala – ilusões de aproximação e regressão, decisões de erradicação e dispensa de pessoas e grupos e mesmo de vidas inteiras. Escrevo para todas elas, as mulheres da minha vida, e há-as a chegar todos os dias, embora cada vez menos, mas para isso decidi reescrever à luz de Bukowski o meu único livro que é verdadeiramente auto-biográfico – antes disso, vou alinhar em grupos de sevícia a autores ou artistas que voltem a dizer publicamente que todos os livros são auto-biográficos, podemos arrancar-lhes os pêlos do cu a frio, por exemplo, a eles e a todos os assassinos da palavra poetisa: ainda tolerava que chamassem poetas às poetisas nos cem anos que se seguiram às poetisas menores, às meninas dos prostíbulos e dos versinhos, mas nenhuma mulher que escreve poemas decentes precisa já do desplante de lhe negarem – ou de negar a si própria – a palavra feminina para o que ela faz ou diz: apenas poemas. Ainda que um poema lhe possa conceder a vida eterna, não, nunca uma mulher de corpo inteiro será poeta. Para tal, passo a oferecer o rascunho de um poema definitivo que pode substituir a sevícia dos pêlos arrancados a frio. Mais tarde o arrumarei por versinhos:

poeta, assassina, poetisa, e também temos sem vírgulas

não existe uma só poeta mas existe uma só Sophia as poetas (que não existem) chamam-se a si próprias isso (porque a Sophia quis ser poeta e elas querem ser Sophias – mas não são) (ou então querem professar Sophia e ela não quer ser professada) (ou então querem divinizá-la e ela nunca o consentiria) mas não há poeta nenhuma depois de Sophia não há poeta nenhuma depois de Sophia não há poeta nenhuma depois de Sophia e como é óbvio poeta assassina poetisa e também temos com vírgulas os tempos mudaram não sejam ridículas em meio século nem a puta do verbete com dois géneros conseguiram só mania só manias só tiques (poeta nenhuma)

Finalmente, a ela, não à Sophia, mas à mulher a quem hoje dirijo uma espécie de declaração de amor, se a amizade for isso, digo-lhe o seguinte:
Muito antes de teres a coragem de fugir para Paris, muito antes de seres despedida de forma crua em Nova Iorque, onde dois anos antes te tinham dito que serias a obreira de um suplemento literário que seria mítico pelos anos vindouros, eu ouvi-te. Ouvi-te sem programa e sem futuro. Ouvi-te no presente. Nunca te penalizei com o corpo. Nunca te exigi nada, muito menos tu a mim. E sabia que, para um mero café, terias de ter muita coragem. Neste presente não é fácil deixar o conforto das teclas, que podem bastar para se dizerem coisas substanciais, para o desconforto de um espaço com pó e máquinas de moer grão e cheiros, os nossos cheiros, a preocupação de tomar pastilhas para o hálito ou escolher o perfume certo, a esperança de que os nossos defeitos não esmaguem a primeira impressão, sei isso tudo. Mas entre nós aconteceu tudo ao contrário: não houve qualquer intimidade ou ilusão literária. Eu limitei-me ser ostensivo quando assumi que “escritor” era um adjectivo meu desde sempre, que não precisava de autorização dos que se prostituem, verdadeiramente, há décadas, para terem algum domínio sobre o meio literário autista e minúsculo, um meio feito de elementos, que, apanhados a sós e sem lhes ser exigido que vomitem sentenças, até são suportáveis, até escrevem, mas, apanhados em pequenos grupos e previamente amarrados em conjunto como vitelos para Rodeos em que eles pensam que são os cowboys, e não os vitelos, coitados, são insuportáveis e abjetos. E, quando fui ostensivo, ouvi. Ouvi os abismos, as ânsias, pressenti a pessoa valorosa que és e que estava, não perante mim, mas do outro lado da linha, a tentar ser o mais verdadeira que conseguia apenas com teclas, e eu, apesar de acreditar cada vez menos nas teclas, sabia que as tuas teclas eras tu. Cada vez que vejo o teu trabalho, cada vez que te ouço, sinto um orgulho quase paternal, e este orgulho paternal não tem nada de paternalismo, pelo contrário, é uma das virtudes humanas, que há quem chame mais genericamente de empatia, mas é mais do que isso, vai mais longe, é verdadeiramente isento de corpo e, no entanto, embora não haja cobranças entre amigos, pode haver dívidas incobráveis, e a tua única dívida perante mim é física, é um café em que deixamos que o silêncio se habitue à nossa presença, em que tentamos perceber se é possível estarmos calados ao lado um do outro sem dizer absolutamente nada e mesmo assim sermos importantes um para o outro e ser importante continuarmos ali, calados. Pelos anos fora, tomei várias decisões, sendo uma delas deixar que a ilusão da amizade me tomasse e deixar que o seu contrário, exactamente o seu contrário, a ilusão da estranheza, vencesse. O tempo, sempre o tempo, diz-me que venceu a ilusão da amizade, ao ponto de ter passado a ser real. Esse café? Não importa, pode ser às portas da morte de um de nós. Convém apenas que aconteça para que a falta dele não passe a desventura. E tu saibas que, quando penso ou digo que gosto muito de ti, não estou a usar a leveza e a facilidade das teclas e das existências virtuais.

Obrigado, poeta. Obrigada, poetisa. Que provavelmente não são poeta nem poetisa. Mas serão amigos no México, em Nova Iorque, em Paris. Poeta, poeta, é Sophia, e não há poeta nenhuma depois de Sophia.

PG-M 2017

2017-05-21

Leste

 Culpo o vento leste por esta inquietude, por esta sombra putrefacta de desventura, quando a minha única fatalidade é a felicidade.
Quando eu era menino e os dias de leste vinham, eu ajoelhava-me aflito no sofá junto à janela aberta da sala e respirava depressa, para não sufocar.
A minha mãe vinha e dizia Pedrinho como nunca mais ninguém disse e punha-me a mão na testa e dava-me um beijo e dizia
ca
lma.
Perguntava se eu queria uma compressa molhada para a testa e eu abanava a cabeça aflita a dizer que não, mas ela trazia na mesma, como nos trazem sempre as boas mulheres na aflição e na febre.
Estou como nesses dias, aflito, mas o peso do mundo e da minha função nele faz-me parecer calmo. Talvez notem apenas que hoje não falo, logo eu, que falo tanto, que nunca deixei de ser a criança que não se cala com o entusiasmo de estar viva.
Mas estou muito aflito e a culpa é do Leste.
Tenho de ver a minha mãe, porque posso, e continuar a sofrer pelos que não podem. Creio que só hoje entendi as consequências de não ter a mãe no mundo e a sorte de ainda a ter. Sem ela, as aflições tornar-se-iam infinitas. Sou bem capaz de chorar, quando a vir, mas quem observar esse encontro vai dizer
o filho da Mena está sempre a rir-se
e depois fica o mundo a aderir e a regredir, ficam uns a dizer que este sorriso é dor velada ou hipocrisia, outros que não, que sou mesmo um puro, e finalmente outros
simplesmente a amar-me

PG-M 2017

2017-05-13

Já ganhámos

 Nota prévia: este artigo foi escrito na manhã da vitória, mas, sinceramente, não era difícil prevê-la. O mundo inteiro apontava para ela. Junto no final o vídeo da semi-final do Eurofestival, com aquela que, das seis interpretações oficiais (3 domésticas e 3 Eurovisão, incluindo as da vitória) foi a minha preferida;

Sabem o que se usa nas redes sociais? Escrever assim amanhã, quando o Salvador encher as capas de todas as revistas e jornais, não por ser um doente cardíaco bissexual*, mas por ter ganho o Festival da Eurovisão 2017, em Kiev, "eu, no dia da semi-final doméstica, disse logo que este rapaz e esta música eram do outro mundo". Ou seja, é por minha causa que ele vai ganhar. Não é. Mas vai ganhar. Na verdade, já ganhou. E é curioso que a minha admiração tenha deixado de se dirigir ao compatriota e à bandeira portuguesa, que certamente serão uma parte do gozo, da emoção e do orgulho. A minha admiração dirige-se à universalidade e beleza da canção e à universalidade e singularidade (parece contradição, mas não é) do próprio Salvador. Creio, como se rezasse uma prece, no que vou dizer: a Luísa Sobral escreveu uma das melhores canções dos últimos séculos, não da década, não deste século, não deste e do anterior, mas de sempre. Tenho dito que é uma espécie de "Yesterday", mas é muito mais bonita. Não está em causa o mérito da Luísa, mas calhou. A conjugação das estrelas, do tempo, do momento, das redes sociais e a singularidade do intérprete fazem o resto. Também não acho que se devam preocupar com o legítimo direito ao cinismo e à fuga à unanimidade. Deixem-nos, coitados, porque já lhes basta sentirem-se sempre infelizes e não serem capazes de tomar o imenso banho de luz que esta canção dá cada vez que é cantada e não só pelo Salvador - eu já vi todas as sensibilidades rendidas, desde o bêbado de tasco até aos domésticos, dos agricultores às sopranos, mesmo os que, a princípio, aderiram a outras músicas e estranhavam o histrionismo ou a expressividade ou a singularidade do Salvador. Na verdade, essa "diferença" é só a marca do inérprete, é um factor mais na parte menor: a liderança de casas de apostas e a vitória num festival. Mas a canção está acima do Salvador e da Luísa, está já pelo mundo inteiro. A letra, em toda a sua simplicidade, agrega milhares de páginas de filósofos. Esta coisa de o amor ser tão elevado e intenso que chega para os dois e dispensar um deles de o sentir é, afinal, a história de séculos de mulheres, principalmente de mulheres, esses seres superiores. Não admira que tenha sido escrito por uma. Depois da semi-final doméstica, a canção já era trauteada nos carros a caminho do trabalho. Depois de ter ganho o Festival da Canção e ser o legítimo representante de Portugal na Eurovisão, começou a ser cantada, imitada, mimetizada, pela Europa toda, com Espanha
como a principal entusiasta, porque, afinal, com a excepção de "devagarinho" e "pelo", as palavras são quase iguais em castelhano. A orquestração é magnífica e fixa logo dois terços dos ouvintes na abertura. Depois de ter actuado na semi-final da Eurovisão, então, não há limites. A canção é pedida na abertura de bailes de casamento em todo o mundo, é cantada pelos ucranianos em
português - sim, pelos vistos quase todos a querem cantar no original, e, aqui sim, é um serviço maior à nossa língua -, há já várias covers de altíssima qualidade, da Austrália ao Japão, do Japão aos EUA, que mostram que o mérito é da própria canção, e eu tenho a certeza de que a Luísa fez um clássico de todas as eras, que será interpretado por todos os estilos musicais. O próprio Salvador se encarregou de gravar para um amigo uma versão em flamenco. Vi a irmã e o Salvador nos ensaios gerais e há duas coisas curiosas: o Salvador é melhor intérprete do que a irmã para esta versão - esta é a primeira. A segunda é que, mesmo que o Salvador nunca se repita, fruto da sua alma jazzística, a canção sai sempre bem. Portanto, a Luísa fez uma canção à prova de bala. Durante anos queixámo-nos de que nunca ganharíamos isto porque o sistema estava "feito" para ganharem os países com maior emigração - a nossa não é baixa, mas não é a maior. Na verdade, se essa perversão tem alguma verdade, é o único factor que nos pode tirar a vitória hoje. Mas eu creio que ganharemos e que já ganhámos.
Na verdade, é todo o mundo que ganha, porque é uma das melhores canções de sempre que ganha. Encerro com um pequeno apontamento: bonitos os portugueses, aí sim. Em quase todos os comentários que li no youtube às várias covers e produções caseiras estrangeiras deste "Amar pelos dois", há sempre palavras de gratidão de portugueses.
É aí que somos grandes: chamamos os outros para a nossa celebração. E muitos vêm. Mas, na verdade, o que Portugal hoje leva ao palco é o universo. Esta canção já é do universo. Era bonito que trouxesse o troféu que já ganhou e que será falado pelos séculos adeante.

* dado o elevado número de leitores deste post, o que eu já previa em caso de vitória, voltei a experimentar daquelas reacções azedas dos que tresleram o que aqui foi escrito. Eu abro este post a apontar o dedo àqueles para quem este nosso músico, que ficará na história por todo o sempre, foi apenas vida privada. A esses e aos tiques das redes sociais. Não estou a expressar uma opinião ou a estipular um facto. É evidente que não a tendência sexual do Salvador e a vida privada são apenas fait-divers para vender.  Não dele. Não da essência deste momento notável. Muito menos meus.

Nota póstuma: no dia da nossa primeira vitória na Eurovisão o Benfica foi tetracampeão pela primeira vez e o Papa Francisco I visitou Portugal para o centenário das aparições em Fátima. A cobertura televisiva de Fátima foi de grande qualidade. Quanto ao resto, isto foi o que eu escrevi uma hora depois da vitória: "Tenho pena que o Salvador não tenha ganho num ano em que o FCP fosse campeão, para eu mandar à merda certas televisões que anunciam em rodapé, sem tirar as imagens dos Aliados (seriam os Aliados) do ecrã, uma vitória histórica e emocionante de pelo menos três gerações de portugueses que viveram isto ano a ano e fracasso a fracasso, com músicos tão bons ou melhores, e não pensarem que era decesso de poder de encaixe. Não aceito um certo jornalismo e uma certa falta de visão. Eu estava num shopping com as televisões todas a dar a vitória no futebol e nenhuma sintonizada na RTP1, mas quando foi certa a nossa primeira vitória na Eurovisão foi um bruá belíssimo pelos pisos todos. Graças aos telemóveis e às apps que tanto criticamos. Eu sei que este país vai saber celebrar isto, mas tenho pena que não haja coragem nas televisões que não transmitiram o festival para afrontar esta miséria da cultura futebolística por um momento tão belo. Subitamente, como ele próprio disse, ganha o que importa, ganha o que é, não o que parece. Se o FCP tivesse sido campeão, eu queria lá saber. E que diferença faria uma noite de glória da música portuguesa em três semanas de festejos ciclicamente repetidos? Ah, eu sei. É o dinheiro dos anunciantes, os que pagam tudo, mesmo os empregos. Vendamos tudo ao desbarato, pois."

 

PG-M 2017
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