2016-06-17

(Não é o Voleibol, nem somos nós) São os trapos


No meio da literatura, o que é melhor do que ela: Voleibol, claro. Para uma equipa quase de geração espontânea, chegar ao pódio na Taça Masters AVP não esteve nada mal. Mas, acima de tudo, foi uma experiência incrível de regresso à competição oficial e federada, quando à maioria de nós, eu incluído, isso nunca passaria pela cabeça; creio que nem sempre jogámos voleibol do reumático e houve excelentes jogos(lembro o CAM-Ginásio de Santo Tirso), embora o público não seja o forte neste escalão tardio; é por isso que merece um destaque especial o Desportivo da Aves, que foi a equipa que conseguiu arrastar mais público consigo, quer em casa, quer fora. Quanto ao CAM (Clube Atlântico da Madalena) e aos meus companheiros de aventura, valeu cada ponto. Obrigado pelas várias ressurreições e viva o voleibol! Para o ano há mais, que até aos 90 ainda falta. 

PS: para provar que ainda se fazem coisas inovadoras nos Masters, no primeiro jogo, com o ALA, fiz mais de uma dezena de serviços seguidos (recuperámos dos 13-19 para os 24-19, coisa que nunca houvera feito enquanto mancebo. Ora toma, PG-M, e depois queixa-te da anca! :)Anexa-se prova de avistamento do superman - o número 3, claro :)

2016-06-15

Braço Armado

Talvez o meu regresso à fotografia amadora a fingir que é a sério, mas sem levar a coisa muito a sério, sendo que este é o primeiro dia do resto dessa vida, depois de abandonar essas lides lá pelo princípio do milénio, quando ainda fotografava analógico. O meu álbum público de fotografias (têm de ser meus seguidores) pode ser seguido no Flickr em PG-M Photo (há outros álbuns).

 Braço Armado

 
 Americana


Íntimo Carcereiro

Vai passando Hannah

vai passando Hannah com a sua pele impoluta e nívea,
vai parando Hannah, vai parando Hannah,
um carro contendo um rapaz jovem e bonito abranda no zebrado
para a deixar passar

Hannah está aparentemente velha
velha como os corpos que se preparam para estiar

desta vez o rapaz jovem e bonito repara em Hanna
e sucede na sua cabeça uma cena que raiaria o ridículo se se passasse
fora da sua cabeça
desliga o carro
sai do carro
intercepta Hannah a meio do percurso que a levaria
ao outro lado da rua
toma-lhe as mãos para ter a certeza
daquele olhar ancestral
que a contém toda
e todos
desde o princípio dos tempos 

o adjectivo macilenta é muito usado para definir a pele de um velho
mas a pele de Hannah é impoluta e nívea
as rugas não definem ninguém e não definem Hannah
a rendição do olhar e do corpo sim
mas Hannah usa sempre os melhores vestidos para passar
que na primavera são estampados com a primavera
e quando se esquece do perfume é capaz de
fazer todo o caminho de volta só para
passar

Calha Kevin, assim se chama o jovem rapaz que intercepta Hannah
a meio do zebrado,
tomar as mãos dela em frente a um descampado que hoje funciona
como depósito de lixo e outrora
era o jardim dos amores
que rompiam a regra da soleira
e da vista dos pais

e ter sido nesse jardim que Joseph, o amor da vida dela
entre o final da guerra da Coreia
e a véspera do próprio funeral,
quando se despediu da vida com delírios românticos transformando
a desventura da morte no altar de uma vida e Hannah beijou o seu soldado
deitada ao lado dele na cama
como fizera naquela lixeira que fora jardim e dizendo
nunca mais partes para longe de mim sem eu te poder perder
perante o mundo

e foram de si próprios, ali mesmo, no jardim, no mais sublime
desespero atrás de uma faia centenária
que eles cortaram pelos pés para abrir
o aterro

é por isso que quando Hannah vai passando
o zebrado se vê sempre inteira e infinita
e é por isso que sucede na cabeça de Kevin
a cena ridícula

ele toma Hannah pelas mãos e já não há
cinquenta anos a separá-los
e beija-a na boca e os lábios
dela, só ligeiramente mais finos
do que no tempo da faia,
respondem sem pudor

Vai agora passando Hannah
do lado do aterro
e em fundo todas as tempestades
e venturas das mulheres elegantes
vai erguida e agradece
ao rapaz que parou

não segue imediatamente em frente
porque repara que para ele, desta vez,
como acontece quase sempre quando
cruza aquele zebrado, ela não está
transparente

mantém a classe do seu corpo delgado
no vestido estampado
o rímel e o lápis com o exagero certo
da sedução eterna
o perfume intenso, importante
para os abraços e para
passar
como se o corpo impoluto e níveo
se replicasse por todos
os lugares
em que passa Hannah

Vai passando Hannah e Kevin
sorri-lhe e Hannah
hesita
olha para trás, mas a faia
não está lá, Kevin
estica o braço e toma-lhe a mão
e todos os homens e mulheres esticam os braços e tomam as mãos deles
e retomam esta cena dos seus dias
o momento em que pararam e repararam
em Hannah ou em Kevin ou em Joseph
antes de morrer

nem a sedução nem o desejo
têm um tempo ou um corpo
evidente
nem Hannah engana os tempos
ou os corpos evidentes
só passa erguida 
no vestido estampado e
o rímel e o lápis com o exagero certo

vai passando Hannah com a sua pele impoluta e nívea,
vai parando Hannah, vai parando Hannah,
um carro contendo o mundo inteiro abranda no zebrado
para a deixar passar


PG-M 2016
fonte da foto

2016-06-13

Os meninos e o livro do dia

há momentos do caraças. Provavelmente, quando o Carlos Nuno Granja escreveu no mural que um dos detalhes mais saborosos do sábado dele na Feira do Livro de Lisboa foi o facto de ouvir e ver que "A manhã do mundo" foi livro do dia, não sabia que me estava a activar uma multiplicidade de sentimentos (todos intensos); reflecti muito na alegria que senti por saber disso; não posso esconder que o facto "Feira do Livro de Lisboa" me traz sentimentos dissonantes que convergem num só sentimento consonante de gratidão aos leitores e aos pares; mas quando a FLL começa, todos os anos, vai para quatro anos, eu lembro-me da aflição em que andei para que ela não acabasse no Porto; lembro-me da chamada do rapaz Luís Miguel Rocha para nos unirmos a norte e levarmos à praça dos momentos mais bonitos das nossas vidas e das vidas dos leitores que lá estiveram na primeira semana, ainda sem imprensa e mediatismo; lembro-me quando o menino Luís me escreveu para fazermos um vídeo do Happy na FLL com os leitores e com os pares e depois, pianinho, às primeiras horas do dia, foi morrer; lembro-me de quando era um leitor pequenino que, pela mão do meu pai, percorria o parque com os olhos a brilhar e ficara apaixonado pelos escritores atrás de mesas, sozinhos, à espera dos leitores por ofício e honra; lembro-me de ter desejado estar sozinho atrás de uma mesa dessas e de ter cumprido esse sonho precisamente na penúltima feira do livro da Apel no Porto; pensei em colocar aqui a notícia de que "A manhã do mundo" tinha sido livro do dia no sábado, e isso quer dizer que o nome do livro foi propagado pelos altifalantes do parque através de uma voz bonita e que esteve em destaque nos pavilhões da minha editora; provavelmente já aconteceu outras vezes, mas esta foi a primeira em que soube, por aquele que é hoje um dos meus maiores amigos e que, nesse dia bonito do protesto dos escritores no Porto, se aproximou de mim com os olhos a brilhar tanto como os meus brilhavam pela mão do meu pai, e me pediu um autógrafo com uma humildade desconcertante; hoje é o responsável pela programação do festival literário mais livre e independente do país, o de Ovar (FLO); pensei vir dizer, com alegria de menino, precisamente, que o meu querido livro, um filho, como sabem, que eu adoro e cujas memórias em projecto me comovem sempre que o vejo, tinha voltado à vida ao sol de Lisboa, no último sábado; como se vê, porque hoje é segunda-feira, não o escrevi. Pensei noutras coisas, pensei em continuar sossegadinho e calado no meu canto, se me entendem; mas, caramba, como provinciano que sou, a emoção voltou hoje, logo pela manhã, e eu pensei que há tantas coisas nesta partilha que podem fazer bem aos outros - como estas pequenas memórias do menino Luís, que nos falta -, que não tenho direito de as guardar só para mim. E, no improvável acaso de a expressão da emoção me fazer bem só a mim, aqueles que me amam, mesmo com estranheza, vão sentir esse orgulho e esse arrepio por mim. Bom dia. A começar assim, só pode ser uma grande semana.

2016-06-07

Muguruza

 Muguruza. Nova rainha de Roland Garros. Bateu a eterna Serena na final, há pouco. Desde que esta campeã espanhola bonita e elegante perdeu a final de Wimbledon, no ano passado, que a sua base de fãs alargou. Eu incluí-me logo entre eles, abandonando a minha favorita até ali, Kerber, que acabou por ganhar o Open da Austrália. Ah, talvez seja para vocês uma surpresa eu ser doido por ténis. Há poucas coisas que me dão mais prazer do que ver um jogo de ténis com os excelentes comentadores portugueses da Eurosport, e olhem que não é por haver identidade com o meu voleibol (são desportos muitíssimo diferentes, quase como a água do vinho - o futebol acaba por ter mais identidade com o voleibol do que o ténis) ou por saber jogar, porque não sei (joguei algum ténis de mesa, que também é muito diferente do ténis). Já gostava de ténis quando li o ensaio do Foster Wallace sobre o Federer, mas a partir daí passei a ver cada jogador como uma personagem romanesca. Muguruza, nascida na Venezuela, tem algo de branca-de-neve e rainha má ao mesmo tempo. É uma miúda, tem 22 anos, mas observar os atletas de excepção, mesmo os muito novos, traz sempre lições. É meu costume demitir-me de fã depois da glória dos meus ídolos, mas é muito cedo para debandar deste. Certo, o deslumbramento e o excesso de atenção depois de Wimbledon afundou-a por alguns meses e parecia que estávamos a perder aquela pancada violenta e assertiva para a linha de fundo, aquela raça espanhola, aquele sorriso permanente que não é um sorriso, mas uma cara de poker, e a forma como dedilha e acaricia a raquete gisando o próximo ponto ou controlando os momentos de euforia e decepção da mesma forma. E hoje, ao vencer o seu primeiro "major", Muguruza também começou o percurso da humildade. Foi claro, para quem quis ver, que ela só aceitou que tinha ganho quando já não havia hipótese de o sonho ruir ou os deuses confirmarem que tinha sido tudo mentira. Caiu no chão de costas muito depois de o árbitro confirmar que o último desenho, um grande arco, que fez passar sobre Serena como se lhe devotasse essa catedral, tinha caído dentro. Serena chorou como uma menina pequenina, falando em francês - que bonito foi ver isto em quem já ganhou tudo e agora só colecciona recordes - e a menina Muguruza aguentou a comoção como uma senhora. Que ela e a sua raça latina fiquem no topo por muito tempo. Porque Serena, essa, aterrará sempre de pé.