2016-03-30

Idanha Absoluta



Senhor Presidente da Câmara Municipal de todas as Idanhas,

"Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro,
assobiando os nossos louvores",
Eça de Queirós, "Civilização"

Eu vi as cotovias sobrevoar o parque durante mais de vinte anos, mas só hoje
tive esta profunda inveja de elas não dependerem dos homens
para partir ou voltar.
E foi durante mais de vinte anos que eu escondi, sempre que pude,
que desaparecia do mundo aqui, porque aqui é o lugar mais vezes perfeito
de todos os lugares imperfeitos.
Foi só aqui, no parque, encostado às colinas onde tilintam bois e ovelhas
de dia e peroram girinos e pais durante a noite
que o universo se calou e eu ouvi o silêncio absoluto.
Lembro-me bem. Estava no alpendre sem luar e ainda fumava
e a brisa deixou de soprar e já não era hora dos sapos da piscina.
Tudo se calou de momento – aconteceria uma vez mais num lugar remoto do Alentejo
com a planície como quintal e por aqui rasou a perfeição por mais quatro ou cinco vezes. Não que seja preciso.
O silêncio normal está muito bem. Hoje, sentado nas escadas de madeira aprodrecida do bungalow mais alto do parque a fingir que leio “Vida e Destino”,
vejo a cotovia rasar a copa das árvores e as colinas circundantes
e entrar e sair livre do lugar onde os homens se decifram,
esse valor perto da totalidade de cada um, a paz por dentro.

Há vinte anos, uma nota no rodapé de um guia falava da
inauguração de um parque de campismo e juntava fotografia
do que só podia ser mentira, estava a visão da ilha quando se chega,
mas eu resolvi vir ver,
voltar às idanhas da minha infância, sentir-me pequeno em Monsanto,
levar cornadas de bodes em Penha Garcia, jogar futebol no campo de tiro,
brincar no parque infantil de Monfortinho, atirar pedras ao Erges e entender
que as cotovias nunca dependerão de Orbitures ou Câmaras Municipais para vingar.
Para se vingar da contenção. Para impedir que as cinjam. Vim ver as abelhas fazer mel de rosmaninho. Descobrir que a estrada de cegonhas foi, finalmente, asfaltada.
Testar a curva desconhecida do Tejo. O queijo de Malpica como em cem anos de solidão.
O corvo Vicente que, como um cão, se deixou adoptar por Idanha, a velha,
e armazenava a comida nas escadas do adro da igreja.
A amoreira. A cerejeira. O olival. Os brasões de Medelim.
Os bons dias da papelaria da Paulinha. A família do mercado.
A excelência do Helana,
a comida em casa do Moinho, onde o menino - que nos toca - canta em vez de falar.
Esta que eu fiz cenário de um livro que ainda está escondido e estará.
A albufeira para onde a trouxe com aquele barriga redonda de seis meses
e onde jurámos que o traríamos depois de nascer enquanto ela bordava o nome numa babete e os dois com os pés na água a deixar descer mais um fim de tarde completo,
redondo, laranja, a esbater na encosta.
A avenida de faias a descer com a torre da estrela ao alto.
A tutela das fragas de Monsanto. Deixem-me em paz. Espargos, criadilhas, trufas.
Os anos noventa foram gloriosos: preços baixos e a certeza do paraíso
encheram o parque. Os anos dois mil catastróficos. A Orbitur, cuidando
do espaço com mais profissionalismo, trouxe a frieza, subiu os preços,
rompeu fidelidades, fez circular os gerentes quando começavam a conhecer
o objecto, esvaziou aquele que eu nunca tive pejo em chamar
de mais belo recanto de Portugal continental. Deixou-nos sozinhos.
E se eu disser que, mesmo assim, não foi há mais de três anos que
descobri o verdadeiro jardim do Éden, que se acede pelo fundo da rua do Helana,
e acende no carreiro que começa no portão da belga que dá ares de louca
ou de lúcida e é dona daquilo tudo, uma visão esmagadora do topo de um planalto
que parece um pequeno Massada a encher-nos o peito
com a cova da beira bela como em mais lado nenhum,
ainda que de todo o lado seja quase tão perfeita, aqui não é só a melhor
entre os lugares imperfeitos: é mesmo o lugar perfeito.
O parque vai fechar daqui a dias. Nós estamos perdidos.
Sabemos que há casas, turismo, estudantes, canoas, acampamentos de escuteiros,
senhoras do Amortão, mas fechar este parque é deixar que o corpo do lago se curve
pelo seu lado mais digno, é abrir o tampão e deixar
que se esvaiam os sonhos todos.
No fim de tudo, senhor presidente, e como diz Vassili Grossman
no “Vida e Destino”, a verdadeira conversa que poderia ter consigo
não é esta. O que eu precisava de dizer não tem forma de ser dito.
Deste chão jorra um energia poderosa que se mistura a meia altura
na luz do dia e, à noite, no tecto dos céus estrelados. Não tem comparação
com lugar algum do mundo por onde passei.
Há coisas parecidas, nada é assim. Como um super-herói,
aqui li, escrevi, sorri e ri como um doido, aqui me deixei serenar
como um homem.
Seja, Senhor Presidente, esse homem,
porque o melhor político não é bicho que chegue a tanto.
Ou a tão pouco. Não explique nada. Limite-se, por favor,
a contrariar o destino da dignidade de um povo. Dê-nos
um lugar para morrer felizes. E um parque para viver.

Eça abriu. Eça fecha: "Eu e tu e aquele monte
somos moléculas do mesmo todo".

Pedro Guilherme-Moreira, em carta aberta,
29 de Março de 2012

PS: o parque reabriu, a carta ganhou forma de poema e não quer voltar a ser neccessária

2016-03-23

Calcinado, mimado, feliz


 106 escolas depois, mais de 300 alunos em duas sessões só em Ovar, a maior de sempre, já depois de Castelo de Paiva ter batido o recorde com mais de 200, poucos dias antes. Ovar, Júlio Dinis, na última sexta-feira, 18-03-2016, dia em que entravam de férias de Páscoa. Já não me apetece gastar palavras com estes miúdos e professores maravilhosos, não me apetece mimar ninguém, não me apetece ser interlocutor de nada, não me apetece ser um puto afectuoso para quem a amizade, o amor, o desejo e a auto-estima adolescentes são quase uma questão pessoal e falada sem hipocrisia ou pudor, corpo a corpo, cara a cara, voz a voz, silêncio a silêncio, como se tivesse mantido intacta a memória dos códigos; apetece-me apenas expressar a minha gratidão pela forma como sou recebido e estimado e mimado e a quem me recebe e estima e mima, sem nunca mais extrapolar ou fazer render o momento; 
sentirei a ressaca de afectos sozinho, ficarei com as magníficas dedicatórias, mostrarei as imagens do momento - porque eles merecem ser divulgados -, ouvirei todos sem me deixar apaixonar, responderei a cada um de forma enxuta e científica, responderei pronto a cada chamada de professores para aulas surpresa ou sessões especiais, assinarei todos os livros e papelinhos e cadernos, mas regressarei sozinho à minha caverna e ao meu silêncio e à escuridão do destempero e do retempero. Infelizmente cresci, envelheci, calcinado como um quadro negro com gatafunhos de cicatrizes na pele, é uma felicidade imensa encontrar o nosso lugar entre os velhos, o banco de jardim com que sonhei a vida toda, ainda menino, dizendo aos amigos, aos verdadeiros amigos, vida fora, àqueles em cuja bondade acredito - e são poucos, muito poucos - 
encontra-te comigo daqui a trinta ou quarenta anos, data e hora, naquele banco de jardim. Já marquei na Cordoaria e no Príncipe Real, na Lello (sem poder prever que teríamos de pagar, e bem, 3 euros) no topo da escadaria, no jardim botânico de Coimbra, na Piazzetta San Marco (no Chioggia), na Torre dos Clérigos, num jardim parisiense e, claro, no Empire State Building. 
 
Olhar para estas fotos, cara a cara, gesto a gesto, chega para remate da emoção - melhor: da comoção - que cada escola me provoca.Obrigado. 

PG-M 2016
Foto de P. Tomé

2016-03-11

Xico 2016, Ano 4

Senti-te a falta, Maria. Bé para os colegas. A Maria foi a alma dos meus anos todos, e não consigo partir para mais um relato da substância sem me penitenciar. Não me importei como reclamo para mim e para os outros, falhei, na voragem dos dias intensos, um olhar mais dedicado à minha amiga Maria, uma grande professora de português e uma grande mãe. As professoras Rosário e Manela dão o litro, mas a Maria sempre foi a minha alma na Xico. Por isso te senti a falta, mas este, deixa-me que te diga, Maria, foi dos nossos melhores anos. Na Xico 2017 - ano 5, quero-te a ti e à Clara, por favor. Neste novo formato, em que vou acompanhado de delegados da editora, graças a um departamento, o dos "Encontros de Autor", que está a funcionar afinadinho, é mais fácil gerir a ressaca de afectos. Não ir sozinho e não vir sozinho permite uma percepção mais clara das falhas e dos acertos. A Liliana foi a delegada para a Xico. Um tripeiro reconhece outro tripeiro, e a Liliana podia estar calada o tempo todo e eu saberia que ela era uma tripeira. Mas a Liliana é muito mais do que isso. Boa ouvinte, atenta, com um juízo crítico lúcido, profundamente bonita do que na beleza não é visível - mas também do que é -, uma verdadeira companheira de aventura. E as escolas são verdadeiras aventuras. Este ano a professora Rosário estava doentinha e a Manela-bibliotecária tem só dois braços, pelo que a coisa correu mais entre mim e os alunos, mais precisamente as Ineses com nomes bélicos, Guerra e Forte, e a Jéssica com nome de guerreira, Valente, no antes, e, entre muitos que ficaram mais escondidos na sombra ou na luz dos próprios sorrisos (eu vi-vos, acreditem que vos vi, mas não tenho o direito de vos expor; os vossos olhos eram tão vorazes quanto doces, olhavam para mim como se olha para os actores no teatro, com alimento, e eu agradeço-vos isso), a Rita Antunes, o Miguel, o André, a Fabiana, a Francine, a Carolina (sim, tu, que estavas mesmo em frente a mim) e a Ana Luísa.
Depois, no caderno, a assinar dedicatórias que até comoveriam um menir, e assinando quase em coro com o tag #somosTodosPedro (os tags, todos juntos, ali, no caderno, eram poderosos e comoveram-me a sério), Rita Ribeiro ("a tua poesia vale mil sorrisos"), a Glória Fernandes ("ainda há escritores que têm o dom de fazer as palavras valer"), Filipa-Carolina-Ana-Sara-Maria (a visão colectiva da literatura), todo o 11º LH1 (o futuro nas nossas mãos), Márcia-Jéssica-Mónica ("provocas-nos um sorriso verdadeiro e lágrimas de felicidade"), todo o 10º LH4 ("muito obrigado por este grandioso momento"), o arrepio e a comoção da Lara Rodrigues (eu não vos disse que a literatura não era chata?) - que passou a ver a literatura como poderosa, Cátia-Teresa-Vera ("a tua presença é mesmo "awsome" - tão fixe, isto!),  Ângela e Bianca (repetentes em sessões, acham que valeu cada minuto), o longo (adoro quando escrevem muito, como eu) e bonito texto da Inês Martins ("sempre achei que a literatura era apenas algo que aprendíamos na escola e que durava tanto quantos os anos em que estudamos; (...) aprendi esse significado com o Pedro. Literatura é arte, é vida, é alma, é tudo. (...)"), a aluna que mais se emocionou durante toda a sessão e que, por isso, teve direito ao original, a Rita Antunes (não vou sequer transcrever as tuas palavras; eu estive atento; a tua emoção não foi banal, foi gratificante; é isso que procuro com a literatura, Rita. Se não há emoção, eu declaro derrota), a/o anónima/o que reflectiu sobre os filtros e as abertura do peito e da alma e que riscou o nome e deixou só 10LH4, a Débora, que me viu à transparência ("um homem grande com um coração grande; (...) continua a partilhar, muda vidas, uma palavra basta"), a Bárbara Inês ("obrigada pelas palavras, Pedro, obrigada por seres tão genuíno, tão real. E, acima de tudo, obrigada por te preocupares"), e as Ineses, que falam de que o dia as mudou - só pode ser a minha ambição máxima: que seja o dia e a vida. Respondo ao André, que escreveu "Porque é que divides o mundo em gerações? Somos todos seres humanos." - Eu sou o primeiro a dizer para todos me tratarem por tu e a ter amor por gente boa, tenha 10, 15 ou 80 anos, André. A boca da geração é para vos abanar. Ou melhor: para abanar os que estão mais adormecidos. Só isso. Se reparares, André, eu acosso-vos e mimo-vos a todo o tempo. Puxo e empurro. Abano.

Tive oportunidade de publicar esta foto logo a seguir à sessão. Uma referência breve à declaração de amor "És o Deus da literatura", anónima e sob o tag #PedroDeus: não tenho de explicar que me sinto pequenino perante uma frase divinizadora, que não é, obviamente, literal, mas uma espécie de abraço de sangue - a menina ou o menino que escreveram isto querem, apenas, dizer que entenderam nas suas profundezas o que aqui fui dizer e que, como a Liliana caracterizou, e bem, é uma espécie de missão. Nós queremos muitas vezes dizer isto aos nossos ídolos, não porque eles sejam os nossos verdadeiros deuses, mas porque nos flagraram a essência, porque nos vieram dizer ao espaço pequeno e quase insondável (e certamente inefável) que fica, mais do que dentro, por trás do coração e em lugar nenhum do mundo, mas em todos os lugares das pessoas (dentro ou fora do mundo, do passado ao futuro, do tempo todo) o que nós não conseguimos formar entre a língua, os dentes, a  garganta e o nariz, que é o lugar físico das palavras. Porque não há. Não há palavras para a nossa centralina. E então divinizamos. Quase por raiva, divinizamos. Eles, estes meninos e meninas maravilhosos, também são deuses para mim. A Cláudia Baptista perguntou-me de viva voz, no fim da sessão, se eu tenho na vida o drama que trato ficcionalmente. A minha resposta inteira foi longa. Mas comecei por lhe dizer que "sim, tenho perdido pessoas, mas há muitos mais novos do que eu que perderam mais". Mas a pergunta é tremenda. Demorou-lhe aquele tempo habitual para levantar a mão, mas a pergunta é tremenda, Cláudia. No fim, é sempre a mesma coisa: a ressaca de afectos. Mesmo com a Liliana a ajudar. Começo a medir as sessões pelos que ficam depois, vida fora, e vejo crescer. Alguns ficam meus amigos, amigos a valer. Faz este ano cinco anos que estou visível, publicamente, na literatura. A Xico teve a sua 4ª sessão em 104 visitas a escolas. Castelo de Paiva segue-se como a 105. Ovar como a 106, tudo numa semana, como é habitual antes das férias da Páscoa. Os que estiveram nas primeiras sessões estão agora a licenciar-se e, creiam-me, é maravilhoso acompanhar os que ficam por perto. Como eu dizia há uns anos, na Xico, custa-me ter de os deixar. Custa-me muito. Sempre. Mas é sempre uma experiência transcendente. Eu acho que é amor. Apenas isso. O tal sentimento que é sobre-humano.

PG-M 2016
Fotos propriedade da Escola Francisco de Holanda, Guimarães, Portugal