2016-12-23

O Escafandro, a Cunha, a Makro e Direito 88-93

Não começa assim: um escafandro, uma cunha, uma makro e um direito 88-93 entram num bar. Começa assim: há quase 30 anos. Isso assusta. Assusta consideravelmente qualquer tipo que ainda nem 50 tenha perfeitos. Mas não há volta a dar:
  Há quase 30 anos éramos todos uns putos imberbes e semi-conscientes e a vida entre as 15h e as 18h chamava-se "puta". Não, não é a mesma "puta" de, por exemplo, "puta de vida". "Puta", para nós, queria dizer apenas ócio.  A hora da conversa e do café e da cerveja e do ping-pong e do bilhar e do lanche na B e dos telefonemas para casa antes do jantar (só o Bacalhau ficava meia-hora a dizer "arâ?" - "então?" ou "atão?" em nortense - à namorada) e da minha carta da tiragem das oito, escrita durante a tarde no Mandarim. Essa era a hora do ócio de quase todos os cursos universitários.O nosso foi o célebre curso 88-93, que pariu génios como a Manela Azevedo, dos Clã, que não exerce e é o paradigma desse curso de notáveis. Alma não normativa. O Miguel Guedes, dos Blind Zero, veio logo a seguir, mas esta crónica não é sobre músicos. É sobre os Escafandros. É sobre este grupo de nortenhos que já se conhecia de vista entre o Colégio dos Carvalhos e a Escola de Valadares e que se auto-apelidou de "Os Escafandros"  - não há um motivo, além de soar bem e ser a nossa cara. Na hora do ócio, ou ainda não tinham começado as aulas práticas, ou já tinham e não se ia a elas. Muitos de nós se mantiveram indefectíveis da "puta", quer no bar da Associação (Académica de Coimbra, mas já sem o futebol à mistura: esta, AAC-OAF (Organismo Autónomo de Futebol), também tinha bar, metros acima, a dar para a praça do Papa e para o jardim Botâncio, onde o Pedrosa, clemente e bom amigo, me enfiou um café sem açúcar e exigiu aos caciques da JSD que me fossem levar a casa, que eu estava bem bebido de andar a trabalhar e o Emídio Guerreiro tinha ganho a Associação com a minha ajuda, mas eles não foram, os caciques, e quem me foi levar a casa foi o Pedrosa e mais uns escafandros, como o Paulo Cunha, em subida épica aos Olivais - onde eu morava, pegado ao Torga - que ora não se pode nem deve contar. Note-se que o Pedrosa integrava já uma lista de Independentes que havia de tomar a AAC nos anos vindouros, e era hábito e pândega eu e ele a rirmo-nos dos cartazes que eles faziam e que o Pedrosa me mostrava sempre com afinco e disparando aquele riso de galinheiro a que eu não podia deixar de responder. Por esse facto, eu já havia sido admoestado pelos caciques da JSD. "Agora convives com o inimigo?", perguntava o Tó. Teve uma coisa boa: curei-me da política reles para sempre. Teve outra coisa boa: as meninas de psicologia, que, vestidas de laranja porque eram caloiras e laranja era a cor do curso, foram por nós confundidas com "Emidettes" e ficaram uma boa parte da noite a aturar-nos à porta do bar da Associação, até eu passar das marcas e o Pedrosa me enfiar o café sem açúcar no bar de cima, que o da AAC fechara. Ora, o Pedrosa, rapaz coerente, ainda usa tudo igual: a guedelha e a gabardine que usava no final dos anos oitenta e sempre foi o rapaz mais brilhante de nós todos, menino para ter aprendido grego antigo como auto-didata e criticar fundamentadamente as traduções francesas que confundem "cabelo" com "noite", tinha um irmão de oito anos (deve andar agora pelos trinta e cinco) que arrotava perfeitamente à mesa e, juntamente com o Engenheiro Américo, nos fazia chorar de tanto rir nas mesas de tábuas corridas do bar holandês, ao ponto de o Maria (o holandês dono do bar, casado com a Zé, outra holandesa, e isto é mesmo verdade) nos vir mandar calar, coisa que ele nunca fazia, porque dávamos andamento e ambiente à casa e ele estava sempre concentrado e empenhado em tirar as melhores super-bocks do mundo. Foi nesse bar que nos despedimos, meio chorosos, do Eduardo, quando ele desistiu do curso e foi para a tropa, como ameaçava o Taxeira do bom tempo (um mito coimbrão que morava numa casita no topo do Jardim da Sereia): vais p'á tropa! Nessa noite, ele e o Ricardo de São João rasgaram uma nota qualquer (vinte paus?) ao meio e agora, sempre que se encontram, juntam as duas metades. Tão bonito. Temos também o Botas, que quando se aborrece fica com cara de constipado. O Martins, com uma memória monstruosa e humor por ofício, que comigo passou noites inteiras, à conversa, nas escadas do Teatro Gil Vicente, para onde eu, inadvertidamente, empurrei o Bastos, quando ele me agoirou o futuro: nunca mais terminas o curso. Terminei. E ele patinou de costas. Encontrei-o o ano passado - está melhor moço e menos agoirento -, é padre e teólogo de primeira água no Vaticano, mas ainda não regressou ao grupo. O Paulo Cunha, que era obcecado por loiras e me obrigava a seguir-lhes no encalço pelas ruas de Coimbra (foi assim - embora desse vez perseguíssemos uma morena - que descobrimos o nosso "bar de curso", o Holandês, que tinha a morenaça Paulinha a fritar-nos as batatas) e o Florim a aprender holandês, coisa que, parecendo que tem, não tem nada a ver. Hoje somos todos gajos porreiros e, pouco depois de uns terem terminado  o curso, e outros terem deixado passar o prazo de o terminar, acabando-o honoris causa escafandria, começámos a reunir-nos anualmente numa data improvável: ao almoço de 24 de Dezembro, véspera de Natal.

Este almoço deve estar a fazer (ou já fez, não sei) 20 anos de tradição e nós acreditamos que durará para sempre e que o último a morrer vai almoçar sozinho com as cadeiras dos outros todas disponíveis e ocupadas ao mesmo tempo. Nos últimos 15 anos, o almoço tem sido sempre na célebre Confeitaria Cunha, ali no gaveto Rua Sá da Bandeira - Rua Guedes de Azevedo, em frente à Capela de Fradelos e à vista do Silo Auto, no Porto. Nos últimos anos já ninguém telefona a ninguém. Pura e simplesmente aparecem, sentam-se, comem, conversam e dão-se os ossos ao tradicional aperto da amizade. Havia, contudo, um só acto que queríamos eliminar: a necessidade de alguém ligar para a Cunha a reservar mesa. Ora, o ano passado, graças ao alto patrocínio da Makro (que há muitos anos fornece à Cunha as agendas especiais de restauração), foi-me entregue pela Sandra Paulo (chefona e mulher do terreno na dita Makro) a agenda de que eu seria núncio e portador. Este ano vai acontecer a mesma coisa. Ou seja, por uma vez, em vez de ser o comercial de campo a entregar esta agenda ao cliente Cunha, é o yours truly que a passará a levantar na Makro todos os anos e a entregará ao chefe de sala da Cunha que, como fez o ano passado, marcará imediatamente o almoço do ano seguinte. O ano passado levei a de 2016 e foi inscrito o almoço deste ano, como podem ver na foto junta. Este ano levarei a de 2017. Assim os escafandros só têm de fazer uma coisa: aparecer. E será assim até ao último que de nós morra, o tal que almoçará sozinho (mas nunca desacompanhado) numa mesa de oito. Podia terminar com aquele cliché do "enquanto cá andarmos todos é que é bonito", mas não. De facto, a maioria destas histórias, a nossa e outras parecidas, que se vêm extinguindo com os anos e já quase só existem nas lendas, continuam a ficar à tona como os últimos sinais de humanidade de uma sociedade iluminada por automatismos e máquinas e eficácia e ceo's. Os Escafandros não. Os Escafandros nunca. Os Escafandros são umas bestas, mas aparecem. Deixem-nos estar assim. Obrigado, Sandra Paulo e Makro e Cunha, por não serem automáticos. E até sempre.

PG-M e restantes escafandros 2016

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