2016-12-13

Moça

Eu vivi há dois mil anos no princípio do mundo e no fundo da encosta de um monte com seis casas e uma escola.
Eu tinha oito anos quando, na casa do meio do monte, nasceu bebé Jesus e o monte e a vida nunca mais repetiram os dias, como até lá, e eu gostava dos dias iguais aos dias e a partir daí a tristeza tomou conta de mim, me deu de comer e de beber e me botava para dormir e me acordava de manhã tapando a manhã com corpo. Eu sei que Jesus foi um acontecimento bonito e é de muita vergonha que falo das pedras, mas eu gostava dos dias iguais aos dias, de não perceber a luz antes da noite e de adivinhar os campos em frente.
A escola ficava no topo do monte e no topo da escola ficava uma figueira que eu subia mas não descia e onde todos os intervalos brincávamos às caçadinhas, excepto quando as moças iam na macaca e os moços diziam que não, porque era jogo com alma de moça. O lencinho também era, mas o lencinho dava a chance de um beijo e todos os moços sempre se venderam pela chance de um beijo.
Eu tinha oito anos e todos os dias descia a encosta com a moça e com a mocinha.
A mocinha não parava de brincar e me fazia rir como os velhos do vinho com lágrimas no tempo, a gente passava na estalagem e ficava espantada com as mãos grossas dos velhos e a felicidade em canecas de barro que entornavam coisas bonitas cor-de-sangue e eles bebiam, desculpa eu falar assim forçado, mas sempre vi as coisas como elas são e não como parecem.
A mocinha se atirava a mim e me batia e os meus ossos a levaram tempo fora para combater a tristeza pelas cidades onde eu fiz este eu que sou hoje e te conta a história simples das moças e dos moços como são, não como parecem.
A outra, a moça, alta como as árvores do caminho, descia toda calada e com os olhos mais doces do monte e talvez de toda a pátria, e eu falo isso não porque os via com olhos de ver, porque eu era pequenino e ainda não tinha livros, mas porque ficou escrito no meio do peito.
Os livros dão vista e armas e antes dos livros, ou um ancião nos chama à estalagem e nos conta o que eles dizem, ou tu és cego e não sabes ver as coisas como são, mas só como parecem.
A moça era só alta como as árvores do caminho e calada como o silêncio e o que me ficou escrito no meio do peito foi para debaixo dos pêlos e do barulho desses dias que deixaram de ser iguais.
Jesus nasceu e um dardo gigante marcou a manjedoura como o centro do mundo e à volta da manjedoura fizeram muros e à volta desses muros mais muros e à volta destes muros mais muros e à volta do muro maior fizeram um ainda maior e as pessoas do monte começaram a ver os estranhos antes dos amigos e as coisas como parecem, não como são.
E todos deixaram de adivinhar os campos em frente.
Desci com elas a encosta umas quinhentas vezes e depois fiquei crescido e disse adeus à mocinha - que ainda vi se afastando no carro de bois do avô e pensei já não a vejo mais e de hoje em deante só a levo nos ossos - e à moça - que já não vi por causa dos pêlos e do barulho, mas sei que levou a minha tristeza com ela.
Passaram dois mil anos e eu tive de fazer um electrocardiograma e então raparam os pêlos do meu peito e eu vi a vida toda a passar pelos olhos doces de uma moça que eu já tinha esquecido há mil novecentos e noventa e nove anos, mais ou menos.
Fui ao topo do monte e subi à figueira da escola e vi, pela primeira vez, os meus caminhos como eles foram, não como pareciam. Vi várias cidades concêntricas e as luzes de natal no centro. Desci para confirmar que o centro das luzes do centro era a manjedoura. Nunca me afastei muito da manjedoura e do monte e, no entanto, voltei mais vezes a sítios distantes do que à minha própria casa.
Entrei no café em frente e pedi um café.
Sentei-me e senti a mocinha nos ossos, já não a moça, e senti a solidão também.
A moça parecia estar nas vidraças e na luz que entrava e então o espanta-espíritos tilintou duas vezes a milésima vez e eu, de mão no peito, reconheci os olhos doces através dos quais me revira todo, e então a moça entrou no café.
Apertámos as mãos e eu pensei que nunca tinha visto uns olhos tão doces nem tanta altura numa pessoa que afinal não era tão alta como as árvores do caminho, era maior ainda.
Falámos das nossas vidas inteiras e de como sem livros ou velhos que os ensinem ou poemas puros que nos mostrem como as coisas são, não como parecem, nos podemos perder uns dos outros quando as cidades ou nós próprios começamos a crescer um crescimento que não é o que é, mas o que parece.
E no fim eu não lhe disse uma coisa banal que queria ter dito e fiquei em silêncio:
- Moça, ver de novo os teus olhos doces a partir do meu peito e ver-me a mim todo a partir deles foi das coisas mais bonitas que me aconteceram na vida.
Eu não disse isso, porque não é literário, como o silêncio.

Mas foi das coisas mais bonitas que me aconteceram na vida de que a moça não fez parte durante, pelo menos, mil novecentos e noventa e nove anos.

Desde aí até morrer, todos os natais, todos os meses, todas as semanas, todos os dias, vou à vida com tempo e sem desculpas, como vamos aos funerais, sempre pelos olhos doces de uma moça.

PG-M 2016
fonte da foto: Autora: Thaynne

Sem comentários: