2016-12-14

Confissão (tomo IV) impertinente de PaloBlyK - dos vinte aos quarenta e tais


 Dunkin' Donuts. Ali.

Dunkin' Donuts?

Precisamente. Dunkin' Donuts. Na esquina da West 37th com a Broadway. Fazem um café excelente. Talvez o melhor café que uma pessoa pode levar num copo de plástico para uma conversa volante. É servido com a consistência e os espaços certos. Se eu fosse um cientista, talvez o soubesse explicar melhor, mas sou só um padre.

Os espaços certos?

Sim, o espaço entre o topo e a superfície do líquido, o rasgo da tampa. Dura mais tempo quente e é melhor do que os outros quando fica morno e também é melhor do que os outros depois de ficar frio. A minha ideia é seguir na direcção do Hopper porque é um percurso que sabe sempre bem mesmo quando fica longe, quando fica quente, quando fica frio.

Mas não tem de ser. Podemos ir para aquele lado, para a Times Square.

Mas este percurso, na direcção do mito de um quadro de um pintor morto, como todas as direcções de quadros de pintores mortos, que descarnam a complexidade de cada detalhe de cada obra de arte, tem outro sentido.

Podemos ir por onde quiser ou para onde quiser, o confessionário pode estar na rua, tal como a rua está sempre no confessionário. A minha história e a minha confissão terminarão, de qualquer maneira. E eu só quero isso: terminar.

Ah, sim, a confissão até pode terminar, mas a sua história não. Não termina coisa nenhuma, e não é só agora que não termina, não termina nunca, pensei que não se esquecia tão depressa de que falava com um católico, mas este católico diz que é sempre melhor a rua para nos confessarmos, até porque quase dispensa um interlocutor individual.

A rua é o interlocutor colectivo.

Isso. Colectivo e íntimo.

O vendedor de cachorros está curvado sobre a sua banca móvel, na esquina da 37th com a 7th Avenue. Segura-me no café, Solomon? Vou comer qualquer coisa, já não como há muitas horas.

Solomon ficou com os dois cafés na mão e Nova Iorque a passar por trás, o vendedor estava desligado, sonolento, e continuou curvado, mesmo depois de receber o pedido do padre. Um simples, sem nada, por favor. O padre pagou com uma nota maior e deixou o troco. God bless you. O homem endireitou-se e ameaçou sorrir. Não conseguiu, mas a nova postura foi o suficiente para as bochechas receberem uma tira de sol. Apareça na missa das seis. Não costumo ir à missa, senhor padre. Mas venha hoje. Mas nem sequer sou católico. Isso não importa. Não sou católico, senhor padre, repetiu o vendedor de cachorros, por penitência. Será o quê, então?, pensou Solomon. Não sou nada, sou um vendedor de cachorros, essa é a minha fé, respondeu, sem nada lhe ter sido perguntado. Eu sei que não é nada, disse o padre, mas apareça. Apenas porque lhe peço. Só hoje.

Vamos embora, Solomon.

O vendedor ainda se endireitou mais e recebeu o pedido seguinte com espanto. Era uma senhora curvada que queria um cachorro com todos os extras. O homem ficou a ver o padre e Solomon afastarem-se. Depois conseguiu, finalmente, sorrir. Um padre católico de uma paróquia de Manhattan não era, propriamente, um traficante de colchões, nem estes convites eram hábito à esquina de cidades descomunais. O vendedor de cachorros tinha ascendência portuguesa e sabia, porque isso eram coisas que se sabiam no quarteirão, que o padre também tinha. Decidiu que essa tinha sido a razão. Não estava preparado para aceitar outra coisa. Como bondade, por exemplo. Isso deixá-lo-ia desprotegido, e aquele trabalho de esquina não o admitiria. Eram pelo menos cinco corridas por dia atrás de “clientes” com excesso de liberalidade, por assim dizer. Normalmente jovens, mas não só. Seis horas era a hora de recondicionar a banca móvel e vender os últimos cachorros, porque trabalhava apenas nas horas de luz natural. Teria de antecipar o fecho e meter a banca dentro da igreja para assistir à missa. Decidiu que faria isso. Logo se veria que homem era aquele padre.

Sim, sou português. Sou americano, mas sou essencialmente português, até porque o mundo, hoje, é essencialmente americano e eu tenho de afirmar-me como essencialmente português. Quando a minha mãe insistia comigo para eu apagar, o mais que pudesse, os traços da nossa origem, para me diluir no centro do mundo, que é aqui, eu, já crescidinho, dizia-lhe sempre:

Desculpa, mãe, se Nova Iorque é nossa e todo o mundo é Portugal.

Aquele vendedor de cachorros também é português. Não se espante que não tenhamos falado nisso. Apesar das grandes comunidades, dos guetos, das little china, italy, turkey, etc, etc, não costumamos nomear-nos nas grandes cidades. Já foi a Paris?

Não, nunca.

O padre fez uma careta – como é que um advogado rico a viver no centro do mundo nunca tinha ido a Paris, que é o lugar onde as origens remotas desse mundo, desse movimento colectivo para o desperdício e para a excelência, fazem todas todo o sentido? – mas prosseguiu.

Dizem que Paris é a segunda ou terceira maior cidade portuguesa, mas os portugueses não se manifestam tanto uns aos outros como possa pensar. É uma das coisas boas das grandes metrópoles: estar ali é natural, não temos de descarnar o visitante.

Caminharam um bom quilómetro em silêncio, durante o qual o padre português cumprimentou quase todos os sem-abrigo de mão, mais do que de mão, dando o polegar para uma saudação mais cool e íntima. 'Zup? Zup foi o som, ou a pergunta, ou a resposta, que mais se ouviu nesse quilómetro, o padre perguntou a três se já tinham recebido isto ou aquilo, e eles tinham, realmente, recebido isto ou aquilo.

Pelo caminho, por aquele caminho e com aquele caminhante, Solomon começou a perder a vontade de se confessar. Subitamente o mundo em volta tornava a sua vida irrelevante. Afinal ele ia falar dos seus anos de paz e felicidade. Ia falar do mito da fidelidade, ia perguntar o que achava o padre dos seus pensamentos e pulsões, de como amara e continuava a amar todas as mulheres, de como apareceria Penelope e de como o curaria das paixões diárias por todas as mulheres, menos do amor a Ida, e se era possível e perdoável conciliar ambos.

Ia falar das suas tentações e de como nunca as concretizava. Ia perguntar se era possível proteger pelo desejo, mesmo o desejo proibido ou impróprio, ou seja, ser tão puro que, ao identificar o desejo impróprio, se seja capaz de proteger o objecto desse desejo, alertando-o sem o alterar. Alertando-o para a possibilidade de outros menos puros não se conterem e de devassarem o indevassável. Ia falar da masturbação como essencial, já não a dos dias transbordantes da adolescência, mas a do equilíbrio da maturidade e do respeito pelos contratos nupciais.

E sabia que o padre lhe diria que não havia penitência para a lucidez, ainda que avançar tal conclusão lhe parecesse pouco lúcido e um péssimo sinal de conversão do que via ao espelho e sentia como um pecado, um grave pecado: Solomon via ao espelho uma espécie de santo.

Um santo que visitara todos os pensamentos, dos mais negros aos mais claros, um santo que tivera todas as tentações, das mais negras às mais claras, mas que era impoluto e seguia na vida os mais estritos princípios.

Desejara velhas imaginando dar-lhes a cúpula de uma vida sexual, fazendo-as sonhar com ele como se ele, santo, fosse tudo o que uma velha e sexy mulher pudesse querer para selar o seu próprio sexo, desejara lolitas de quinze anos sem lhes desejar a carne ou a natureza virgem e quisera protegê-las por considerar que o seu comportamento e exposição as deixava à mercê dos verdadeiros predadores, que são animais egoístas e primários incapazes de princípios, e acreditava no antigo hábito dos mentores fiáveis que ajudavam as meninas a erguer os muros e as defesas – papel que deveria sempre ser declinado quando fosse percebido desejo e procura de prazer pelo mais velho; vendera a ideia do período de carência dos jovens adultos que se apaixonam por alguém com mais de trinta anos: para testar esse amor, devem afastar-se da vida um do outro até aos vinte e oito anos – dez anos sobre a maioridade – , altura em que o jovem adulto despistará esse sentimento como deslumbramento e confirmará – ou não – o verdadeiro amor; desejara as mulheres dos melhores amigos, desejara as mais fáceis por serem mais fáceis, nunca desejara as mais difíceis porque, ele sim, gostava de ser o mais difícil e nunca. Nunca.

Nunca tocara em ninguém senão em Ida.

Pensara em tocar. Nunca tocara.

A sua confissão era, pois, sobre pensamentos e convicções íntimas, muitas delas imperscrutáveis. A sua confissão era sobre o inconfessável.

No fim da confissão, Solomon falaria dos reencontros com velhas amigas de escola, e de como aos quarenta tudo parece possível e, principalmente em Nova Iorque, nenhum pecado o é intrinsecamente. Tal qual aquele mito de que a infidelidade no estrangeiro não é, verdadeiramente, infidelidade, também levar para cama amigas que ficaram por levar para a cama aos dezoito e dezanove anos por mero desconhecimento das regras e dos equilíbrios sociais e sexuais, não pode ser proibido, bem pelo contrário, deveria ser permitido e até estimulado como medida sanitária dos casamentos e das vidas em geral.

Mas quando um tipo que apenas ao espelho se sente santo vê um verdadeiro santo remontar Nova Iorque como a arcada do mundo, qualquer confissão se torna, se não impossível, inútil, verdadeiramente inútil.

Quando deu por si, estavam já os dois sentados ao balcão com uma cerveja à frente e o padre acabava uma história qualquer sobre aquele lugar e o tal do Hopper:

.. é por isso que há uma polémica entre quem situa o Nighthawks do Hopper na West Village Florist, no 70 da Greenwhich Avenue, e quem diga que é exactamente neste lugar, o antigo Classic do 679 da Greenwhich Street, precisamente Nighthawks, hoje. O próprio Hopper referiu que se situaria na Avenue, mas mais tarde também disse que pode ter sido uma criação da sua cabeça, aumentando o espaço do restaurante para que a solidão urbana fosse flagrante, visível.

Ah, entendo.

Eu acho que foi aqui. Não sente, Solomon?

Sinto, pois.

Mas não sentia. Não o preocupava Hopper nenhum, preocupava-o apenas validar os seus últimos vinte anos com aquela confissão.

Então contou ao padre, ali mesmo, Hopper ou não, perante o espectro dourado das cervejas, tudo aquilo que o tinha atormentado, primeiro a vida inteira, depois o caminho inteiro, e que queria agora ver validado, ou seja

confessou-se.

No final, o padre disse que era o que esperava.

Era o que eu esperava, Solomon, e provavelmente você também:

Não há penitência possível para a normalidade de um homem e de uma vida. O Solomon fala em luz e sombra, mas quem expõe a luz é luminoso, e quem expõe a sombra não a retém em si. O que me confessou é uma vida normal, impoluta, se quer que lhe diga muito perto da santidade, tivesse o meu amigo entregado mais de si e do que não precisa ao mundo, não só bens materiais, mas ideias.

O seu único pecado, Solomon, é nunca ter corrido o risco de defender as suas ideias.

Essa ideia das Lolitas, por exemplo, assumida com coragem, podia realmente proteger muitas delas, porque muitas meninas e meninos sentem-se de tal forma no domínio da estética e da beleza que partem para reinar, para dominar o mundo, antes de serem príncipes ou terem aprendido as regras da corte, querem ser eles próprios uma espécie de predadores, e depois acabam, rapidamente, predados. E o Solomon, melhor do que eu, sabe que os frustrados e os fundamentalistas, pensando que protegem os meninos dos sinais dos predadores – e então passam a suspeitar de tudo e de todos e tornam impossível o colo às crianças –, acabam por lhes tirar armas e de os empurrar para os covis.

Armas e Alma, sussurrou Solomon.

Porque não há dois homens em dez como você, Solomon.

Concluiu a terceira cerveja e perguntou-lhe se queria outra, antes que acabasse a do barril.

Ah, sim, pode ser, mais uma para o caminho, mas a cerveja nunca acaba.

As confissões sim, a cerveja não, mas sem confissões não temos mais pretexto.



Riram. Voltaram a rir. Pediram pelo menos mais duas ou três fresquinhas. O lugar, se não fosse já isso, passaria a mito da sua própria vida, pensou Solomon.

E depois acabou, assim, bruscamente.

Acabou.

Esta confissão acabou.

Será ampliada quando o autor chegar aos 60 e receber informações do que aconteceu a Solomon PaloBlyK quando regressou à Holy Innocents Church, se o padre ainda estava vivo e, na afirmativa, o que lhe confessou.

PG-M 2016

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