2016-09-12

vem tempestade


os dias já se notam
e sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha
penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest

vem tempestade

corro para dentro do café que ainda não suporta as portas fechadas,
o vento assobiará e entrará de qualquer maneira.
por causa da Herta,
compreendi o silêncio na nuca e como se distingue do que trazes na boca
agora sim, é outono
só é outono quando muda de face e te mostra o inverno e a sombra,
a chuva de manga curta

já te expliquei como na negação da minha velhice me sinto violada por todos os escritores?
nenhum homem entrou em mim assim
nenhuma mulher ficou perto
não esperam nem contemporizam

entram, partem ossos, laminam órgãos, bebem o sangue, secam a água e executam a alma

já entendi que me enterraram para uma empreitada nova
uma fonte em vez de um aterro
já entendi o contrário. ou nunca entendi. nunca soube

os livros
andam lá como tufões. levantam voo no outono,
migram no inverno, regressam na primavera
e no verão estão sob as palmas das mãos

são as últimas flores, as primeiras árvores nuas
ou ao contrário, tudo ao contrário

tudo

matam, ressuscitam, sobem e descem degraus
os dias já se notam
e sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha
penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest

vem tempestade


PG-M 2016
foto idem

2 comentários:

Homem do lixo disse...

Peço desculpa por contacta-lo desta maneira.
Procuro ardentemente e sem sucesso o livro Extinção - Thomas Bernhard.
Como li algumas referencias ao autor no seu blog, lembrei-me de perguntar se tem o livro e em caso de ter se aceitaria, vender trocar ou o que seja.
Obrigado pela atenção
eugeniofonseca83@gmail.com

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Olá, Eugénio. Não tenho o livro que procura, mas não há nada mais estimulante do que uma busca dessas. Boa senda.