2016-07-05

Falta-me o ar (Filho)

Filho, acho que é a primeira vez que fazes anos, 17, e não te tenho comigo. Escrevo-te em público porque eu podia ser reduzido a nada e existiria em ti. O meu mundo és tu, esgota-se em ti, não é nada sem ti, é tudo contigo. Deixa-me ser assim mais uns anos, até deixares a nossa casa e seres a tua. A tua mãe, ao meu lado, sente o mesmo. O resto vem a seguir, mas com o resto podemos morrer. Espero morrer com o resto e tu ficares para sempre e então todo eu ficar. A vida voltou a ser dura nos últimos dias, mas perante a notícia de ti nada dói. É a primeira vez que passo a meia-noite do teu dia e tu não estás aqui, é a primeira vez que nasce o teu dia e tu não estás aqui. É uma preparação para o futuro. Por isso é que eu já sei o que quero de prenda de anos, eu que os faço dentro de poucos dias. Se não te for insuportável, quando voltares a fazer anos, sempre que voltares a fazer anos, dá-me um abraço às primeiras horas do dia. Estou em crer que cura tudo. Assim talvez não sinta este embargo no peito nem abismos nos passos, como se o corpo evoluísse sem membros ou não evoluísse de todo. É uma sensação de afogamento. Falta-me o ar. Por isso esse abraço, para ficar à tona. Para respirar e seguir em frente. É tudo o que te peço, se estiveres perto. Podes até dizer à menina, ou então não digas, à meia noite de cada 5 de Julho, olha, vou ali à porta abraçar o meu pai; mas ele ligou-te?; não, mas vou ali à porta abraçar o meu pai, demora só uns segundos, ele está velho e chato, mas nestes dias fica em silêncio, dá-me o abraço e vai-se embora e depois é um dia normal e começa tudo de novo. Se puder ser, meu filho. Se puder ser. É uma sensação de afogamento, este amor. O amor que sempre foi maior do que os homens onde mora.

PG-M 2016
Foto de Paulo Almeida

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