2016-06-15

Vai passando Hannah

vai passando Hannah com a sua pele impoluta e nívea,
vai parando Hannah, vai parando Hannah,
um carro contendo um rapaz jovem e bonito abranda no zebrado
para a deixar passar

Hannah está aparentemente velha
velha como os corpos que se preparam para estiar

desta vez o rapaz jovem e bonito repara em Hanna
e sucede na sua cabeça uma cena que raiaria o ridículo se se passasse
fora da sua cabeça
desliga o carro
sai do carro
intercepta Hannah a meio do percurso que a levaria
ao outro lado da rua
toma-lhe as mãos para ter a certeza
daquele olhar ancestral
que a contém toda
e todos
desde o princípio dos tempos 

o adjectivo macilenta é muito usado para definir a pele de um velho
mas a pele de Hannah é impoluta e nívea
as rugas não definem ninguém e não definem Hannah
a rendição do olhar e do corpo sim
mas Hannah usa sempre os melhores vestidos para passar
que na primavera são estampados com a primavera
e quando se esquece do perfume é capaz de
fazer todo o caminho de volta só para
passar

Calha Kevin, assim se chama o jovem rapaz que intercepta Hannah
a meio do zebrado,
tomar as mãos dela em frente a um descampado que hoje funciona
como depósito de lixo e outrora
era o jardim dos amores
que rompiam a regra da soleira
e da vista dos pais

e ter sido nesse jardim que Joseph, o amor da vida dela
entre o final da guerra da Coreia
e a véspera do próprio funeral,
quando se despediu da vida com delírios românticos transformando
a desventura da morte no altar de uma vida e Hannah beijou o seu soldado
deitada ao lado dele na cama
como fizera naquela lixeira que fora jardim e dizendo
nunca mais partes para longe de mim sem eu te poder perder
perante o mundo

e foram de si próprios, ali mesmo, no jardim, no mais sublime
desespero atrás de uma faia centenária
que eles cortaram pelos pés para abrir
o aterro

é por isso que quando Hannah vai passando
o zebrado se vê sempre inteira e infinita
e é por isso que sucede na cabeça de Kevin
a cena ridícula

ele toma Hannah pelas mãos e já não há
cinquenta anos a separá-los
e beija-a na boca e os lábios
dela, só ligeiramente mais finos
do que no tempo da faia,
respondem sem pudor

Vai agora passando Hannah
do lado do aterro
e em fundo todas as tempestades
e venturas das mulheres elegantes
vai erguida e agradece
ao rapaz que parou

não segue imediatamente em frente
porque repara que para ele, desta vez,
como acontece quase sempre quando
cruza aquele zebrado, ela não está
transparente

mantém a classe do seu corpo delgado
no vestido estampado
o rímel e o lápis com o exagero certo
da sedução eterna
o perfume intenso, importante
para os abraços e para
passar
como se o corpo impoluto e níveo
se replicasse por todos
os lugares
em que passa Hannah

Vai passando Hannah e Kevin
sorri-lhe e Hannah
hesita
olha para trás, mas a faia
não está lá, Kevin
estica o braço e toma-lhe a mão
e todos os homens e mulheres esticam os braços e tomam as mãos deles
e retomam esta cena dos seus dias
o momento em que pararam e repararam
em Hannah ou em Kevin ou em Joseph
antes de morrer

nem a sedução nem o desejo
têm um tempo ou um corpo
evidente
nem Hannah engana os tempos
ou os corpos evidentes
só passa erguida 
no vestido estampado e
o rímel e o lápis com o exagero certo

vai passando Hannah com a sua pele impoluta e nívea,
vai parando Hannah, vai parando Hannah,
um carro contendo o mundo inteiro abranda no zebrado
para a deixar passar


PG-M 2016
fonte da foto

2 comentários:

Sabores Exclusivos disse...

Absolutamente magnifico. Amei.
Obrigada caro Pedro Guilherme-Moreira.
Bem hajas, pelo (s) dom(ns) que tens e partilhas.
Beijos.
AnaCamp

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigada, Ana