2016-06-13

Os meninos e o livro do dia

há momentos do caraças. Provavelmente, quando o Carlos Nuno Granja escreveu no mural que um dos detalhes mais saborosos do sábado dele na Feira do Livro de Lisboa foi o facto de ouvir e ver que "A manhã do mundo" foi livro do dia, não sabia que me estava a activar uma multiplicidade de sentimentos (todos intensos); reflecti muito na alegria que senti por saber disso; não posso esconder que o facto "Feira do Livro de Lisboa" me traz sentimentos dissonantes que convergem num só sentimento consonante de gratidão aos leitores e aos pares; mas quando a FLL começa, todos os anos, vai para quatro anos, eu lembro-me da aflição em que andei para que ela não acabasse no Porto; lembro-me da chamada do rapaz Luís Miguel Rocha para nos unirmos a norte e levarmos à praça dos momentos mais bonitos das nossas vidas e das vidas dos leitores que lá estiveram na primeira semana, ainda sem imprensa e mediatismo; lembro-me quando o menino Luís me escreveu para fazermos um vídeo do Happy na FLL com os leitores e com os pares e depois, pianinho, às primeiras horas do dia, foi morrer; lembro-me de quando era um leitor pequenino que, pela mão do meu pai, percorria o parque com os olhos a brilhar e ficara apaixonado pelos escritores atrás de mesas, sozinhos, à espera dos leitores por ofício e honra; lembro-me de ter desejado estar sozinho atrás de uma mesa dessas e de ter cumprido esse sonho precisamente na penúltima feira do livro da Apel no Porto; pensei em colocar aqui a notícia de que "A manhã do mundo" tinha sido livro do dia no sábado, e isso quer dizer que o nome do livro foi propagado pelos altifalantes do parque através de uma voz bonita e que esteve em destaque nos pavilhões da minha editora; provavelmente já aconteceu outras vezes, mas esta foi a primeira em que soube, por aquele que é hoje um dos meus maiores amigos e que, nesse dia bonito do protesto dos escritores no Porto, se aproximou de mim com os olhos a brilhar tanto como os meus brilhavam pela mão do meu pai, e me pediu um autógrafo com uma humildade desconcertante; hoje é o responsável pela programação do festival literário mais livre e independente do país, o de Ovar (FLO); pensei vir dizer, com alegria de menino, precisamente, que o meu querido livro, um filho, como sabem, que eu adoro e cujas memórias em projecto me comovem sempre que o vejo, tinha voltado à vida ao sol de Lisboa, no último sábado; como se vê, porque hoje é segunda-feira, não o escrevi. Pensei noutras coisas, pensei em continuar sossegadinho e calado no meu canto, se me entendem; mas, caramba, como provinciano que sou, a emoção voltou hoje, logo pela manhã, e eu pensei que há tantas coisas nesta partilha que podem fazer bem aos outros - como estas pequenas memórias do menino Luís, que nos falta -, que não tenho direito de as guardar só para mim. E, no improvável acaso de a expressão da emoção me fazer bem só a mim, aqueles que me amam, mesmo com estranheza, vão sentir esse orgulho e esse arrepio por mim. Bom dia. A começar assim, só pode ser uma grande semana.

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