2016-06-07

Muguruza

 Muguruza. Nova rainha de Roland Garros. Bateu a eterna Serena na final, há pouco. Desde que esta campeã espanhola bonita e elegante perdeu a final de Wimbledon, no ano passado, que a sua base de fãs alargou. Eu incluí-me logo entre eles, abandonando a minha favorita até ali, Kerber, que acabou por ganhar o Open da Austrália. Ah, talvez seja para vocês uma surpresa eu ser doido por ténis. Há poucas coisas que me dão mais prazer do que ver um jogo de ténis com os excelentes comentadores portugueses da Eurosport, e olhem que não é por haver identidade com o meu voleibol (são desportos muitíssimo diferentes, quase como a água do vinho - o futebol acaba por ter mais identidade com o voleibol do que o ténis) ou por saber jogar, porque não sei (joguei algum ténis de mesa, que também é muito diferente do ténis). Já gostava de ténis quando li o ensaio do Foster Wallace sobre o Federer, mas a partir daí passei a ver cada jogador como uma personagem romanesca. Muguruza, nascida na Venezuela, tem algo de branca-de-neve e rainha má ao mesmo tempo. É uma miúda, tem 22 anos, mas observar os atletas de excepção, mesmo os muito novos, traz sempre lições. É meu costume demitir-me de fã depois da glória dos meus ídolos, mas é muito cedo para debandar deste. Certo, o deslumbramento e o excesso de atenção depois de Wimbledon afundou-a por alguns meses e parecia que estávamos a perder aquela pancada violenta e assertiva para a linha de fundo, aquela raça espanhola, aquele sorriso permanente que não é um sorriso, mas uma cara de poker, e a forma como dedilha e acaricia a raquete gisando o próximo ponto ou controlando os momentos de euforia e decepção da mesma forma. E hoje, ao vencer o seu primeiro "major", Muguruza também começou o percurso da humildade. Foi claro, para quem quis ver, que ela só aceitou que tinha ganho quando já não havia hipótese de o sonho ruir ou os deuses confirmarem que tinha sido tudo mentira. Caiu no chão de costas muito depois de o árbitro confirmar que o último desenho, um grande arco, que fez passar sobre Serena como se lhe devotasse essa catedral, tinha caído dentro. Serena chorou como uma menina pequenina, falando em francês - que bonito foi ver isto em quem já ganhou tudo e agora só colecciona recordes - e a menina Muguruza aguentou a comoção como uma senhora. Que ela e a sua raça latina fiquem no topo por muito tempo. Porque Serena, essa, aterrará sempre de pé.

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