2016-04-09

Verdade. Truth. Mary. Cate. Nós.

Verdade.Truth. O que aqui escreverei não é sobre o que aqui escreverei. É mais amplo, mais meu, mais mundo. Talvez uma redenção. Cate Blanchett novamente deslumbrante. Não é só obrigatório para jornalistas. É para todos os que gostam de viver com verdade, mesmo que a verdade comporte riscos de nos pegarem fogo, de a frustração, os complexos, a vista limitada, nos arrastar para o lodo e nos mudar para sempre, não porque duvidemos de nós próprios, mas porque ficamos cansados e não queremos isso. Queremos paz e silêncio. Não seria um spoiler repetir aqui o momento mais marcante do filme, em termos de conteúdo e mensagem, mas prefiro que vejam e sintam directamente. É aquele em que ela fala da verdade e do barulho, dos factos e da aparência. É isso mesmo. Está bem: nunca gostei muito daquele da mulher de César, não basta ser honesto, temos de o parecer. Mas isso não é verdade, é habilidade. Se fores hábil toda a vida, serás canonizado. Se fores apenas tu, se amares e acolheres e seduzires e fores seduzido e te confessares, mesmo que respeites os teus princípios sagrados, não sairás incólume. Portanto, a vida ensina os verdadeiros a serem hábeis. Mas em que parte é que esse investimento na habilidade não vos soa a falso? A mim soa. Mas é assim mesmo. Hoje, para descredibilizarmos algo ou alguém, basta fazermos barulho. Em público ou em privado. Faça-se barulho e tudo e todos se apagam e pagam o preço que tiverem de pagar por serem inábeis. Com a jornalista cujo livro inspira este filme - e nele é retratada pela Cate -, Mary Mapes, conseguiram. Anularam-na para sempre. Verdade. Truth. Ainda assim redime vê-lo dito assim: basta fazer barulho para destruir a verdade e os verdadeiros, a honestidade e os honestos, o colo, o afecto, a luta, o sexo, o cheiro, a pele, o amor, o presente, o futuro. E até o passado, até o tempo.

PG-M 2016

2 comentários:

Elaine Albuquerque disse...

Vi este filme ontem, acessei o Google para conhecer a jornalista em questão. A melhor foto dela, sorridente, brilho nos olhos...estava em seu blog. Lindo filme, real, doído, e fiquei pensando se o caso Watergate teria o mesmo fim se fosse nos dias de hoje. A verdade não interessa, e o poder do dinheiro está descomunal. E só uma coisa tem mais poder do que o dinheiro...é muiiiiiito dinheiro. Mas fiquei pensando também que Nixon não era milionário, então...Bush é....então.
Melhor cena, magistral, para copiar as palavras dela e colocar com Walpaper no meu PC: quando, ao final da defesa perante a comissão, antes de ir embora, ela fala tão claramente do que pensa, e tão claramente mostra sua alma. Linda, linda, linda!
Penso que ela perdeu...mas também ganhou. Afinal na vida, muitas vezes quando ganhamos, também perdemos. E quando perdemos, também acabamos ganhando.
Abraços
ELAINE

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado e abraço, Elaine