2016-04-10

Frey e a memória daquele verão

Não é que me importe que a morte do Glenn Frey - não apenas o guitarrista dos Eagles, como vi por aí dito e escrito, mas um dos génios de um grupo genial, como são os Eagles - tenha ocorrido quase à sombra do silêncio, até porque não condeno o barulho que hoje se faz quando um grande - como David Bowie - morre. É assim mesmo, estamos no tempo em que todos nos podemos expressar e ser visíveis publicamente e, desde que não pensemos que o que dizemos é mais importante do que diz o vizinho do lado, desde que não disputemos o nosso protagonismo nem sejamos frívolos, acho muito bem que os grande se celebrem, forte e feio, à partida, já que raramente o são à chegada. Mas, dizia, não me importo que a morte do Glenn Frey tenha ocorrido quase em silêncio. Sou egoísta. Parece quase íntimo. Pois se o cultivo assim mesmo há tantos anos, porque haveria de morrer em histeria? Entre as muitas composições brilhantes de que foi autor, instrumentista e vocalista nos Eagles, devem achar estranho que anexe a esta celebração uma música menor, como Sexy Girl. Eu até concordo que é uma música sem uma qualidade supimpa, mas acontece que, se eu tivesse de me despedir do Glenn Frey, esta seria a banda sonora. Lembro-me perfeitamente: Corria o ano de 1985, eu estava na sala grande da casa dos meus pais, onde tínhamos uma aparelhagem de qualidade que eu estava proibido de utilizar, mas que utilizava todos os dias, desde que o meu pai não estivesse em casa. Às 14h, hora em que o Adelino Gonçalves arrancava com o power play da "Discoteca", na Rádio Comercial, eu estava sempre a postos com os dedos no pause do leitor de cassetes. Quando o Adelino se calava, soltava o botão e gravava. Eram cassetes e cassetes assim, com "misturas" quase psicadélicas. Imaginem então um dia de Verão na casa da praia de Francelos, a janela da sala aberta para o ar quente da rua onde, a cerca de cem metros, víamos deliciados passar as raparigas com as saídas de praia e as seiras com tolhas, cremes e lanches. Nesse preciso momento, as primas da Rua da Alegria, três belíssimas mulheres - uma com quase um metro e oitenta, uma com isso, outra com mais do que isso - acenam da rua e o Adelino Gonçalves fala da carreira a solo do Glenn Frey e da grande música do verão que naquele dia tinha a sua estreia na Comercial: e arranca o Sexy Girl. Não sei porque é que sempre a liguei mais à Cristina, que das três primas era a do meio. Talvez porque no meio esteja a virtude. E à notícia da morte do Glenn Frey, foi, claro, o sexy girl que ouvi na minha cabeça. She moved in next door to me, and she showed me the world. Então até já, Glenn. Para nos vingarmos, não está mal cultivar o irmão de Eagles, Don Henley, que lançou em 2015 um grandíssimo álbum: ouçam o "No, Thank You" e digam-me alguma coisa. Até lá, you are all sexy girls.
PG-M 2016

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