2016-04-11

este atraso da primavera


não me lembro de uma primavera tão atrasada a norte, já fui a sul
e vi-a lá curvada a pedir alimento, porém nas caixas
torácicas das mulheres e dos homens do norte
não está

não é tanto

o frio ou a chuva ou até
a temperatura, mas o
elemento; eu vivo
junto ao mar e pelo menos esse sinal,
de o mar continuar nervoso e agitado mesmo
em dias exultantes,
basta. o sol
não faz o verão,
a chuva não tem no corpo
o inverno e o corpo
não sobrevive sem
outonos

é uma operação matemática basilar dizer
que a primavera é o outono do inverno
e que o verão é o outono da primavera
e que o outono somos
nós
também já sabemos das nossas aulas de álgebra
que o algoritmo do amor perverte as estações

seria forçar o poema dizer que a primavera está atrasada porque toda a gente
vive com máquinas na mão e sob iluminação artificial entre a casa onde o
medo tem pausas e o carro onde transita entre estados de raiva e o trabalho
onde por vezes mirra, porque isso é assim de norte a sul e a primavera
só se atrasou a norte

é verdade que desligar tudo menos os olhos e os pêlos dos braços e
caminhar na rua faz sempre com que a essência do outono que somos
perverta as mesmas estações que o amor, porque o amor e o elemento
são o chão dos homens e das mulheres todas, mesmo dos frios
como invernos polares ou abrasadores como verões
tropicais

(estar no feminino o plural
de homens e mulheres não foi
lapso, mas porque chove a
intenção não apressa a
primavera)

este atraso da primavera, contudo,
mudar-me-á menos como pessoa
do que continuar a ler Sebald

e caminhar nas ruas com
o telemóvel desligado

é mais estranha a sensação de, trinta anos depois,
ter a mesma música como primeira da playlist,
cuja repetição envolvia, não um toque, mas a operação de
fast rewind e play, fast rewind e play, fast rewind e play,

ou voltar a um jogo oficial de voleibol

antes escrevesse um livro sem ninguém
onde em silêncio a escutasse chegar
e dissesse aos homens e mulheres
todas
que estar encerrado num beijo
é o agasalho certo

os lábios ligeiramente secos a mostrar a solidão
as línguas com o tempero da espera
as salivas mornas do adeus do
ano passado e depois os
círculos e semi-círculos
as elipses e as tangentes
dos beijos bem dados
e o tempo, o tempo longo,
o cheiro como as magnólias
a abdicar das folhas

pode já ser verão quando as bocas
descolarem

há abraços, sim, mas nem todos
com a consistência certa

os beijos não mentem
o mar também não
o vento às vezes
Sebald nunca

e a primavera a norte só se atrasa
de vez em quando


PG-M 2016
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