2016-03-23

Calcinado, mimado, feliz


 106 escolas depois, mais de 300 alunos em duas sessões só em Ovar, a maior de sempre, já depois de Castelo de Paiva ter batido o recorde com mais de 200, poucos dias antes. Ovar, Júlio Dinis, na última sexta-feira, 18-03-2016, dia em que entravam de férias de Páscoa. Já não me apetece gastar palavras com estes miúdos e professores maravilhosos, não me apetece mimar ninguém, não me apetece ser interlocutor de nada, não me apetece ser um puto afectuoso para quem a amizade, o amor, o desejo e a auto-estima adolescentes são quase uma questão pessoal e falada sem hipocrisia ou pudor, corpo a corpo, cara a cara, voz a voz, silêncio a silêncio, como se tivesse mantido intacta a memória dos códigos; apetece-me apenas expressar a minha gratidão pela forma como sou recebido e estimado e mimado e a quem me recebe e estima e mima, sem nunca mais extrapolar ou fazer render o momento; 
sentirei a ressaca de afectos sozinho, ficarei com as magníficas dedicatórias, mostrarei as imagens do momento - porque eles merecem ser divulgados -, ouvirei todos sem me deixar apaixonar, responderei a cada um de forma enxuta e científica, responderei pronto a cada chamada de professores para aulas surpresa ou sessões especiais, assinarei todos os livros e papelinhos e cadernos, mas regressarei sozinho à minha caverna e ao meu silêncio e à escuridão do destempero e do retempero. Infelizmente cresci, envelheci, calcinado como um quadro negro com gatafunhos de cicatrizes na pele, é uma felicidade imensa encontrar o nosso lugar entre os velhos, o banco de jardim com que sonhei a vida toda, ainda menino, dizendo aos amigos, aos verdadeiros amigos, vida fora, àqueles em cuja bondade acredito - e são poucos, muito poucos - 
encontra-te comigo daqui a trinta ou quarenta anos, data e hora, naquele banco de jardim. Já marquei na Cordoaria e no Príncipe Real, na Lello (sem poder prever que teríamos de pagar, e bem, 3 euros) no topo da escadaria, no jardim botânico de Coimbra, na Piazzetta San Marco (no Chioggia), na Torre dos Clérigos, num jardim parisiense e, claro, no Empire State Building. 
 
Olhar para estas fotos, cara a cara, gesto a gesto, chega para remate da emoção - melhor: da comoção - que cada escola me provoca.Obrigado. 

PG-M 2016
Foto de P. Tomé

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