2016-02-02

Samanta, Rita, Cláudia, Viviana e a literatura como transporte público no tempo (Douro, Oliveira do)

Gosto muito do nome Samanta. E gostei muito da menina que o trouxe. A Samanta tem silêncio. A Samanta tem força. A Samanta arrumou-se na margem, na cadeira mais distante, mas esteve toda a sessão implicada. Essa dignidade, essa profunda dignidade, tem de ter vencimento contra "bullies" e infantes cuja sensatez demorará mais tempo a entrar no corpo. Porque a Samanta tem beleza e vê quem quer. A Ana Rita Vieira e a Diana Pinto apareceram no fim de tudo. Não estiveram na sessão, porque não são das turmas contempladas e porque a aula de Filosofia coincidia com a letra do escritor. Apresentaram requerimento de forma à professora de Filosofia, que indeferiu liminar e fundamentadamente. Tentaram no intervalo e apanharam o auditório vazio, com o escritor ao fundo a assinar livros, acompanhado das duas professoras organizadoras, Isabel, professora-blibliotecária, e Eugénia, professora de português. "Podemos entrar?". "Claro", responde o escritor, e
logo de seguida pede desculpa às professoras pelo atrevimento. "Não se lembra de nós, mas nós lembramo-nos de ti" - diz a Ana Rita. A Diana fala no casaco do FC Porto, e o escritor lembra-se imediatamente, a menina irrequieta e simpática da melhor sessão de sempre das 102 escolas percorridas até ontem: Anes de Cernache, Vilar de Andorinho, terra do bisavô escultor, não teve leitura prévia dos livros mas teve o professor-bilbliotecário Abel, empenhadíssimo, e comprou quase quarenta, e os meninos cercaram o escritor até ás 17h e foi tudo magnífico. Aliás, está descrito aqui: "Os putos de hoje não valem nada";

A Diana e a Rita foram as primeiras, de 102 escolas, a voltar no ano seguinte. E, como a sessão estava no fim e se recolhiam as varas dos foguetes e já tinha tocado para a aula de português do professor Francisco, eu comecei a escrever um pedido de desculpas e uma justificação para o atraso delas, mas o professor Francisco deixara dois livros para serem autografados e as meninas tiveram a ideia de me levarem junto, como surpresa.
A surpresa e a emoção foram absolutas, porque reencontrei muitos dos que tinham estado na tal sessão notável. O professor Francisco falava de Camões e pediu-me para falar da poesia contemporânea. Eu falei da forma como, por ora, me excluo o mais que posso dos incluídos e expliquei porquê. Tive uma nova estrela a comentar o Prémio Pina: a fantástica Cassandra (faz-me sempre lembrar o filme homónimo do Woody Allen). Depois retirei-me, para que ele ficasse com cinco minutos de aula livres para dizer o pior possível de mim. Estávamos todos comovidos. Depois a Viviana Ferreira, que com o olhar me lembrou como foi das que esteve presente até ao fim, finalmente, voltou, e ao voltar surgiram ideias que nunca antes tinham chovido e podem ser maravilhosas para me curar do pânico e das ressacas de afectos que tenho depois de todas as escolas. A Viviana, que tem um desses olhares que dizem tudo: os olhos que gritam e dizem estou aqui, fala comigo, volta comigo, ouve-me, quero dizer coisas.

Antes tínhamos tido uma sessão épica, dominada pelos mais rebeldes e malandros, pelos "manos", pelos gangues barulhentos do humor, que ainda assim tiveram momentos de compreensão e silêncio profundos e que foram (escreveram eles em quatro páginas A4, à mão, que serão agrafadas aos exemplares de autor que circulam nas escolas) fantásticos. Como o Albino, O Ricardo, o Diogo, etc, etc. Fiquei na Escola Secundária de Oliveira do Douro, com duas turmas do 10º ano, entre as 11h e as 17h, com intervalo para um almoço excelente com as professoras. Tinha começado com um café servido pelo Ivo Martins, com o máximo profissionalismo, no Restaurante Biológico da Escola, que será inaugurado por estes dias. Poemas ditos de forma brilhante pelo Gonçalo Soeiro (Eugénio de Andrade), Tiago Ramos, Luís Manuel (Manuel da Fonseca), Hugo Sousa (Ruy Belo), entre outros, alguns meus, que a professora Andrelina incluiu nuns marcadores belíssimos que me foram oferecidos no final.
Também me foi oferecida uma colectânea de poesia, "Poesia V", do Agrupamento de Escolas Gaia Nascente. Como o leitor transversal que me sou, entrei no autocarro da literatura como transporte público no tempo e abri o livro e li os poemas. O primeiro, um poema de uma menina de dez anos chamada Daniela Cardoso, começava assim:

"pintei um sol
 e apareceu um ovo
 desenhei um barco
 e apareceu um arco"

O livro é de 2001. Fui procurá-la e, virtude dos tempos que vivemos, encontrei-a e falei com ela. Já licenciada, não fazia ideia, nem podia, que aquele poema de génio precoce podia tocar tanto um escritor publicado quinze anos depois. Literatura é isto. É isso que lhes digo e comunico. Literatura é isto. Mesmo mortos, eles, os outros, os grandes escritores, mudam-nos a vida, mudam-nos a nós, por dentro. E é um pouco isso que lhes quero levar: uma experiência intensa que não se apague pela vida fora, mesmo sendo um pequeno escritor.

Mesmo sendo obrigado a chamar o "mano" Gonçalo ao palco para lhe perguntar o que achava ele da própria atitude que ia tendo manhã dentro, ele que era naturalmente o melhor e o mais poderoso "dizeur", e tentava afirmar-se na sessão como se estivesse no recreio, não pelo melhor de si. É raro, mas acontece: a maturidade ser destrutiva, em vez de construtiva. E estes jovens homens acabam por entender e perceber e - espero - agradecer, o lado musculado, quando a sessão o exige. O que importa é que ele perceba que eu, os professores e quem lhe dá um lar, se o fazemos, o fazemos por amor.

Curioso o André Silva, a forma como começou quase a ter de se mostrar forte para os "manos", como até recusava dizer um dos poemas por receio do ridículo e depois emergiu como o rapaz valoroso que é. Como os silenciosos colaboradores Joana Caravela (com uma lesão no braço que a impediu de assistir ao início), Ivo Martins, Márcia Reisinho, Luís e os mais activos Cláudia e Hugo. O Hugo estava com uma indisposição e aguentou o que conseguiu. Vê-se que é um rapaz implicado, como a implicação que eu detectei na Samanta. A Cláudia, como eu esperava, continuou activa. Acabei por não ler o texto em que agradecia aos que comunicaram antes, e passo a fazê-lo aqui: 

"uma palavra especial para a Cláudia Santos, Márcia Reisinho e Hugo Sousa. Li-vos a todos e importei-me, mas, como desta vez o plano foi colectivo, não vos trabalhei. Mas li as tuas chamadas do céu, Cláudia, li os teus piqueniques, Márcia Reisinho, li a perspectiva lúcida que tens da tua geração, Hugo Sousa, mas hoje a intervenção foi mais pública, mais geral, os perfis individuais exigem um interesse e uma dedicação muito especiais e uma adesão mais forte de todos. Espero que isso aconteça na próxima visita e espero voltar aqui muitos anos para isso poder acontecer, convosco ou com quem vos suceder."
A educação e a delicadeza, a classe, do João Nuno Ferreira, fizeram-me pensar como é injusto que ele, provavelmente, viva o que eu vivi na primeira classe, no lúgubre (ao tempo) Colégio de Gaia dos padres Leão e Pinto de Sousa, o inferno de não conseguir traduzir para  o mundo o universo interior. Mas tenho a certeza de que isso vai acontecer, que o vais traduzir, João, mais cedo ou mais tarde. Continua com essa paciência. Ficaste-me marcado, profundamente marcado, tu e o João Simão, parecido contigo.

A Diana Batalha foi outro fenómeno, como o André Silva: começou no registo que dela deve conhecer  o mundo, histriónica e assertiva, vistosa na comunicação, e foi-se dobrando sobre ela própria e terminou tão dentro da sessão que impressionava, a atenção, o foco, os olhos. Obrigado, Diana. Especialíssima Diana.

O Rudolfo venezolano foi impressionante na sinceridade. "Gosto de livros, não gosto de escritores". Perguntei-lhe se nem de mim, ele pediu-me para não lhe fazer aquela pergunta e todos nos rimos. São estes momentos que ficam na pele. De alguma forma, pareceu-me um doce impostor, um rebelde no melhor sentido, mas o que ele trouxe ao debate foi muito relevante, porque, realmente, a pessoa de nós, autores, é e será sempre irrelevante, mas, de alguma forma, há uma marca, um estilo, um tempo, um cheiro, uma imagem que comunicamos às gerações contemporâneas e elas às vindouras. Alguma coisa dirão de nós. Eu digo apenas que temos todos a mesma idade no mundo e que somos todos irrelevantes, menos eles, os putos em crescimento, os putos a chegar-se à montra, ao balcão dos pedidos, e, como eu disse ao longo do texto, somos todos Paris, e Paris somos nós, mas não somos Paris por causa da moda do facebook ou dos atentados, somos Paris porque Paris é o mundo e foi feito pelo mundo, não pelos franceses, não apenas pelos franceses. E como Paris tantos outros lugares. Mas Paris, acima de tudo. Que entrou e já não saiu da Escola Secundária de Oliveira do Douro. Mais uma. E lá vou eu com a ressaca de afectos, até a Viviana Ferreira cumprir o seu plano.

PG-M 2016





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