2016-01-27

Alpendorada, Alpendurada, portanto AlpendOurada

Vê-se na foto, que aliás é uma parte muito pequena das três turmas que me devolveram em atenção, escuta e entendimento a minha dedicação. Com efeito, mais uma vez, a foto ia sendo esquecida. Só nos lembramos no momento dos despojos da sessão. Mas veio a tempo. Verdade que os nossos sorrisos, sendo sinceros, são plásticos, e que ao fim de algumas fotos, como disse uma das meninas, com piada, a cara já doesse.

Mas o que se vê na foto é a luz de AlpendOurada. A luz de fora e a luz de dentro. À centésima escola ainda é bom poder replicar e reiterar a evidência: há sempre coisas novas, há sempre coisas diferentes, e, quando denominamos as sessões por eles, pelas maravilhosas pessoas mais jovens que somos levados a contaminar e influenciar, nada pode correr mal, assim haja tempo, mesmo no meio do barulho, de ver os que querem ser vistos e de descobrir os que não querem, pelo menos para os ouvir. E isto também se aplica às professoras que aparecem, cujo nome, por não me lembrar, vou ser condenado a saber - sei que a da ponta era a de português, a Emília, mas a de Matemática, de cócoras, em pose de futebolista (pena não termos aprofundado a utilidade da Matemática na literatura!), não, nem a do meio, que era uma ternura. A menina do centro, e vocês sabem logo qual é a menina do centro, mesmo sem medir com uma régua, foi também a menina do centro na sessão e, por falarmos de uma pessoa de qualidade superior, sabe também, ela própria, que por já ser excepcional aos dezasseis anos, não é melhor do que os outros, os que não são tanto como ela: porque nós somos demasiado complexos para sermos definidos assim, e é esta, sempre, a mensagem que lhes levo.Uma menina que seja má aluna e pouco culta pode ser o pilar, em casa, de uma mãe doente, de quem trata e com quem consome todas as suas forças, provavelmente faz o mesmo a vizinhas e até apoia no lar da vila. E não será esta tão ou mais valorosa do que a menina do centro? É, mas a menina do centro é fenomenal e chama-se Ana Catarina Alves. Aquilo que ela nos deu de novo não é muito comum: a forma como está atenta às etapas da vida e as vai processando em termos práticos e até filosóficos e intelectuais. A visão da morte. Neste passo, custa-me não ser imenso. Verdade que - e ontem foi-me dado o que peço sempre: tempo -, quando tenho tempo, observo a postura corporal e o olhar de quase todos, para perceber se alguém quer dizer ou mostrar alguma coisa que não disse ou mostrou antes, e não diz ou não mostra por falta de coragem ou timidez, que é normal e até recomendável, por ser um exercício de humildade. Por isso, custa-me a ideia de ter partido e que algum menino ou menina não tenha tido coragem de dizer ou mostrar o que há tanto tempo queria dizer ou mostrar. Mas uma coisa que eles me devolveram, ontem, foi a gratidão, e fizeram-no de forma expressa, com as dedicatórias que deixaram escritas ou com a atitude, com o olhar de agradecimento: disseram, de forma expressa, que o que fiz, escrevi e disse, foi importante para eles. Que se sentiram vistos onde eram menos visíveis. Ontem de manhã não houve fugas nem colegas que, para mostrar coragem e rebeldia, questionaram os que colaboraram comigo. Ontem o meu pedido foi totalmente atendido: todos se consideraram parte daquilo, todos se consideraram alvo dos mimos e dos aforismos e dos princípios, mesmo os que não viram o seu nome mencionado. Por isso é que Ana Catarina serve, por exemplo, a qualquer Patrícia ou Paula ou Milene. Que o Zé Lemos pode ser o Henrique, Nuno ou José Pedro ou Leandro ou Marco. Que Diana pode ser Anabela, ou Margarida pode ser Fátima, que Sara pode ser Ana Isabel, que Samuel pode ser Ricardo. Mas os que vieram para junto de mim, os que o fizeram expressamente, dirão se valeu a pena. A Fatinha na orquestra de Berlim a tocar a primeira nota na sua flauta transversal. A Pereirinha e o elogio da insegurança ou da fragilidade. A tia Lúcia a aterrar de helicóptero no H do São João para o primeiro dia como enfermeira. A Rosário e a aprendizagem da imperfeição. A Inês que canta e quase ninguém sabia. A Ana Lopes, o closet e a espessura e o poder das palavras (e da pessoa). A Fátima Ferreira e a visibilidade e força dos invisíveis. A Inês Bouça e o nosso Prémio Nobel duplo. A Inês Sousa e os dentistas e o cinema e a Kika. A Joana Vieira e a veterinária da Common Wealth. A Bebiana do cantinho e as histórias secretas e poderosas. A Mariana Luís, oh, a discretíssima Mariana Luís e a beleza e a subtileza e o tamanho interior. A Elisabete homónima e as férias de Verão com ele dentro. A Mariana Correira Carneiro e o Einaudi e o Forrest Gump e o Johnny Depp e avó "francesa". A Rita Caetano e o abismo do futuro. O Zé Lemos, o Tino de Fandinhães, a sensibilidade, a ambição política e o sono da avó, que passou a ser a avó de todos nós. Depois disto tudo, claro, devíamos colher os tais despojos da sessão todos juntos. Mas não é assim. Abre-se o Douro e o Tâmega e já não há ninguém. E, mesmo que volte, mesmo que fique, eu já estou entre-rios.

PG-M 2016

PS: à sessão da tarde, dos 7ºs anos, e sendo uma estreia, dedico este Post Scriptum, e é deliberadamente um Post Scriptum. Serviu-me de profunda reflexão e far-me-á retirar lições e afinar o modelo. Não que tenha sido inútil. Retenho o olhar daquela professora loira de que não retive o nome e que tinha um grupo fantástico bem juntinho a ela, que veio e partiu sem que tivéssemos tempo de ser elemento uns dos outros. Lembro-me das meninas que sobreviveram ao barulho dos colegas do 7º e que até levaram mais livros do que as três notáveis turmas da parte da manhã (do 11º). Lembro-me do professor e dos entusiasmadíssimos meninos do 5º ano, que apareceram e ficaram de forma ordeira e me cercaram para autógrafos em cartolinas coloridas que contam emoldurar e pendurar no quarto, imaginem a honra. A minha reflexão não vai no sentido de exlcuir os 7ºs anos das sessões, poque são, tipificadamente, impossíveis de controlar. Mas o que é isto, meus senhores? Chegámos à Madeira? Da minha reflexão resulta que só deve estar quem quer, mesmo que seja pequenino. Que eles se apercebam de como a falta de ordem pode ter consequências. Eu gabo-me de conseguir controlar todas as sessões escolares, e, como disse, esta era a centésima escola. Nunca tal tinha acontecido (o barulho e a desordem, porque a sessão até se fez e nem correu mal de todo). Gosto e dou espaço ao burburinho que se segue a questões  que geram debate entre eles: é positivo. O que me custa é a desordem e o desinteresse que impede os que são ordeiros, interessados e querem mesmo estar ali de desfrutar, que foi, aliás, o que aconteceu no final: ficaram os que queriam e desfrutaram. Defendo que, não por castigo, mas por selecção lógica, o sistema seja oportunidade-abdicação. Ou seja, depois de terem sido preparados pelos professores em aula, de pesquisarem e de tomarem contacto com a literatura, a imagem e o curricculum do autor presente, depois de a sessão ter início e eles peceberem o que estamos ali para lhes dar, se ainda assim não for possível penetrar nas epidermes de alguns, que abidquem, que lhes seja dado espaço para sair. Esses poderão ser arrumadores de carros, se for isso que escolherem - aliás, há muitas profissões relevantes e úteis que, não dispensando a cultura, acabam por se conformar com os que a rejeitam a vida toda. Uma coisa deve ficar claro: porque nunca tinha acontecido, não quer dizer que a culpa seja da Escola. Pareceu-me claro que a Escola é boa, tem mesmo muita qualidade. A culpa é minha, só minha. Não acontecerá de novo. Não nas próximas cem. O acidental e o negativo são parte da experiência. Mas nem sequer foi negativo o resultado, bem pelo contrário, como expressei aí em cima. Além da doce e empenhada professora loira e da sua turma e do fantástico professor do quinto ano e dos seus fantásticos meninos, destaco as meninas resistentes, a Marina Monteiro, Sofia Bouça e Maria Vieira . Uma palavra especial para a Alexandra: estás bem a tempo, gostei de ti: tu pensas que estás nas margens, mas és inteligente, estás bem dentro e contas. Eu vi-te bem. Luta por ti, pequenita. Desculpem se esqueci de alguma. Obrigado a todos. - Ah, e a delegada Paula Chaves, a minha estreia com apoio, foi incansável e inexcedível! Obrigado :)

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