2016-12-30

Young and noble champions

(in english in the end) Esta história tenho de contar. Álvaro Gímeno e Guilherme Moreira, os melhores pontuadores absolutos do Torneo Navidad de Voleibol 2016, o Álvaro com quase 4 sets só à sua conta, o Gui com quase 3. Para quem gosta de voleibol, voleibol a sério, e sabe que não é sobre vitória e derrota, mas sobre pequenas histórias particulares e grandes duelos públicos, sabe que assistiu a vários na noite do segundo Espanha-Portugal (3-2). Gostava de destacar dois, entre muitos: o surgimento do Manuel Meirinho. Para um miúdo que veio do zero, como voleibolista, há dois anos, foi notável a garra e o esforço de superação neste jogo - na negra, empatou sozinho o jogo a 3-3, depois do 0-3 inicial (alguns "kill blocks" e picos ao metro, além dos gritos "ronaldianos" que mobilizaram toda a equipa - "siiiiiiiiiiim" e "eu estou aqui").
O outro foi este, entre o jogador fantástico que já é o espanhol Álvaro (mortífero no serviço, potente e inteligente no ataque, eficaz no bloco, enfim, tudo, e que se conserve assim :) ) e o craque aspirante a ser tão bom quanto ele, o cavalheiro de honor :), o meu Gui.

O Álvaro ganhou, mas o mais belo foi a luta, particularmente a forma como o Guilherme se foi artilhando para receber aquele serviços mortíferos. No final, a imagem documenta-o. Não é um cumprimento banal à rede: são sorrisos francos, a sapatadinha carinhosa, o respeito, e, estou certo, um princípio de amizade. Não tenho ilusões: sei bem que a maioria das pessoas, mesmo os amigos, lidam mal com a visibilidade ou com o falível conceito de sucesso, um conceito que sempre detestei. As coisas até podem acontecer e ser mostradas lá em cima, no absoluto, mas estes dois rapazes estiveram onde todos estiveram e esteve o Manel há dois anos: no início, no absoluto zero. E trabalharam muito para chegar aqui - e resistem quando estão lá dentro. É onde estão muitos que podem chegar aqui e mais longe. As conquistas desses também podem e devem ser contadas, desde que não percamos a noção do ridículo. O que aqui lêem é só a festa de um pai orgulhoso. Não acho que isto seja o máximo. É só bonito. Como amante do voleibol, agradeço a estes craques o espectáculo que me ofereceram. E ainda nem 18 anos têm. Ps: alguém identifique o Manel Meirinho aqui, que eu não consigo; mas ele merece ler isto. (já consegui, afinal! :) )
 
This story I have to tell. Álvaro Gímeno and Guilherme Moreira, the best absolute scorers of the Torneo Navidad 2016, Álvaro with almost 4 sets only to his account, Gui with almost 3. For those who like volleyball, volleyball seriously, and know that it is not about victory and defeat, but on small private stories and great public duels, know we watched several on the night of the second Spain-Portugal (3-2). I would like to highlight two, among many: the appearance of Manuel Meirinho. For a kid who came from scratch as a volleyball player two years ago, it was remarkable the claw and the effort of overcoming in this game - in the 5th and final set, he drawed the game alone, recovering from 0-3 to 3-3 (some kill blocks and spikes at one meter and those "ronaldian" war cries that mobilized the all team - "siiiiiiiiim" (yes!) and "eu estou aqui!" (I am here!)).. The other was this, between the fantastic player who the spaniard Álvaro already is (deadly in the service, powerful and intelligent in the attack, effective in the block, anyway, everything, and we ask he is kept like this :)) and the aspiring ace to be so good as he, the gentleman of honor :), my Gui. Álvaro won, but the most beautiful was the fight, particularly the way Guilherme was shining to receive those deadly services. At the end, the image documents it. It is not a banal compliment in the net:
the sincere smiles, the affectionate hand shake, the respect, and, I am sure, a principle of friendship. I have no illusions: I know very well that most people, even our friends, do not deal with the visibility or fallible concept of success, a concept I have always hated. Things may even happen and be shown up there, in the absolute, but these two boys were where everyone was and Manel was two years ago: at first, at zero absolute. And they worked hard to get here - and resist inside the court. It is where many who can get here and further are. Their achievements can and should be counted as long as we do not lose the notion of ridicule. What you read here is just the feast of a proud father. I do not think this is the maximum. It's just beautiful. As a volleyball lover, I thank these players for the amazing performance they offered me. And they are not even 18. Ps: Someone identify Manel Meirinho here, which I can not; But he deserves to read this. (I got it, later :) )

Algumas fotos (some photos):




2016-12-23

O Escafandro, a Cunha, a Makro e Direito 88-93

Não começa assim: um escafandro, uma cunha, uma makro e um direito 88-93 entram num bar. Começa assim: há quase 30 anos. Isso assusta. Assusta consideravelmente qualquer tipo que ainda nem 50 tenha perfeitos. Mas não há volta a dar:
  Há quase 30 anos éramos todos uns putos imberbes e semi-conscientes e a vida entre as 15h e as 18h chamava-se "puta". Não, não é a mesma "puta" de, por exemplo, "puta de vida". "Puta", para nós, queria dizer apenas ócio.  A hora da conversa e do café e da cerveja e do ping-pong e do bilhar e do lanche na B e dos telefonemas para casa antes do jantar (só o Bacalhau ficava meia-hora a dizer "arâ?" - "então?" ou "atão?" em nortense - à namorada) e da minha carta da tiragem das oito, escrita durante a tarde no Mandarim. Essa era a hora do ócio de quase todos os cursos universitários.O nosso foi o célebre curso 88-93, que pariu génios como a Manela Azevedo, dos Clã, que não exerce e é o paradigma desse curso de notáveis. Alma não normativa. O Miguel Guedes, dos Blind Zero, veio logo a seguir, mas esta crónica não é sobre músicos. É sobre os Escafandros. É sobre este grupo de nortenhos que já se conhecia de vista entre o Colégio dos Carvalhos e a Escola de Valadares e que se auto-apelidou de "Os Escafandros"  - não há um motivo, além de soar bem e ser a nossa cara. Na hora do ócio, ou ainda não tinham começado as aulas práticas, ou já tinham e não se ia a elas. Muitos de nós se mantiveram indefectíveis da "puta", quer no bar da Associação (Académica de Coimbra, mas já sem o futebol à mistura: esta, AAC-OAF (Organismo Autónomo de Futebol), também tinha bar, metros acima, a dar para a praça do Papa e para o jardim Botâncio, onde o Pedrosa, clemente e bom amigo, me enfiou um café sem açúcar e exigiu aos caciques da JSD que me fossem levar a casa, que eu estava bem bebido de andar a trabalhar e o Emídio Guerreiro tinha ganho a Associação com a minha ajuda, mas eles não foram, os caciques, e quem me foi levar a casa foi o Pedrosa e mais uns escafandros, como o Paulo Cunha, em subida épica aos Olivais - onde eu morava, pegado ao Torga - que ora não se pode nem deve contar. Note-se que o Pedrosa integrava já uma lista de Independentes que havia de tomar a AAC nos anos vindouros, e era hábito e pândega eu e ele a rirmo-nos dos cartazes que eles faziam e que o Pedrosa me mostrava sempre com afinco e disparando aquele riso de galinheiro a que eu não podia deixar de responder. Por esse facto, eu já havia sido admoestado pelos caciques da JSD. "Agora convives com o inimigo?", perguntava o Tó. Teve uma coisa boa: curei-me da política reles para sempre. Teve outra coisa boa: as meninas de psicologia, que, vestidas de laranja porque eram caloiras e laranja era a cor do curso, foram por nós confundidas com "Emidettes" e ficaram uma boa parte da noite a aturar-nos à porta do bar da Associação, até eu passar das marcas e o Pedrosa me enfiar o café sem açúcar no bar de cima, que o da AAC fechara. Ora, o Pedrosa, rapaz coerente, ainda usa tudo igual: a guedelha e a gabardine que usava no final dos anos oitenta e sempre foi o rapaz mais brilhante de nós todos, menino para ter aprendido grego antigo como auto-didata e criticar fundamentadamente as traduções francesas que confundem "cabelo" com "noite", tinha um irmão de oito anos (deve andar agora pelos trinta e cinco) que arrotava perfeitamente à mesa e, juntamente com o Engenheiro Américo, nos fazia chorar de tanto rir nas mesas de tábuas corridas do bar holandês, ao ponto de o Maria (o holandês dono do bar, casado com a Zé, outra holandesa, e isto é mesmo verdade) nos vir mandar calar, coisa que ele nunca fazia, porque dávamos andamento e ambiente à casa e ele estava sempre concentrado e empenhado em tirar as melhores super-bocks do mundo. Foi nesse bar que nos despedimos, meio chorosos, do Eduardo, quando ele desistiu do curso e foi para a tropa, como ameaçava o Taxeira do bom tempo (um mito coimbrão que morava numa casita no topo do Jardim da Sereia): vais p'á tropa! Nessa noite, ele e o Ricardo de São João rasgaram uma nota qualquer (vinte paus?) ao meio e agora, sempre que se encontram, juntam as duas metades. Tão bonito. Temos também o Botas, que quando se aborrece fica com cara de constipado. O Martins, com uma memória monstruosa e humor por ofício, que comigo passou noites inteiras, à conversa, nas escadas do Teatro Gil Vicente, para onde eu, inadvertidamente, empurrei o Bastos, quando ele me agoirou o futuro: nunca mais terminas o curso. Terminei. E ele patinou de costas. Encontrei-o o ano passado - está melhor moço e menos agoirento -, é padre e teólogo de primeira água no Vaticano, mas ainda não regressou ao grupo. O Paulo Cunha, que era obcecado por loiras e me obrigava a seguir-lhes no encalço pelas ruas de Coimbra (foi assim - embora desse vez perseguíssemos uma morena - que descobrimos o nosso "bar de curso", o Holandês, que tinha a morenaça Paulinha a fritar-nos as batatas) e o Florim a aprender holandês, coisa que, parecendo que tem, não tem nada a ver. Hoje somos todos gajos porreiros e, pouco depois de uns terem terminado  o curso, e outros terem deixado passar o prazo de o terminar, acabando-o honoris causa escafandria, começámos a reunir-nos anualmente numa data improvável: ao almoço de 24 de Dezembro, véspera de Natal.

Este almoço deve estar a fazer (ou já fez, não sei) 20 anos de tradição e nós acreditamos que durará para sempre e que o último a morrer vai almoçar sozinho com as cadeiras dos outros todas disponíveis e ocupadas ao mesmo tempo. Nos últimos 15 anos, o almoço tem sido sempre na célebre Confeitaria Cunha, ali no gaveto Rua Sá da Bandeira - Rua Guedes de Azevedo, em frente à Capela de Fradelos e à vista do Silo Auto, no Porto. Nos últimos anos já ninguém telefona a ninguém. Pura e simplesmente aparecem, sentam-se, comem, conversam e dão-se os ossos ao tradicional aperto da amizade. Havia, contudo, um só acto que queríamos eliminar: a necessidade de alguém ligar para a Cunha a reservar mesa. Ora, o ano passado, graças ao alto patrocínio da Makro (que há muitos anos fornece à Cunha as agendas especiais de restauração), foi-me entregue pela Sandra Paulo (chefona e mulher do terreno na dita Makro) a agenda de que eu seria núncio e portador. Este ano vai acontecer a mesma coisa. Ou seja, por uma vez, em vez de ser o comercial de campo a entregar esta agenda ao cliente Cunha, é o yours truly que a passará a levantar na Makro todos os anos e a entregará ao chefe de sala da Cunha que, como fez o ano passado, marcará imediatamente o almoço do ano seguinte. O ano passado levei a de 2016 e foi inscrito o almoço deste ano, como podem ver na foto junta. Este ano levarei a de 2017. Assim os escafandros só têm de fazer uma coisa: aparecer. E será assim até ao último que de nós morra, o tal que almoçará sozinho (mas nunca desacompanhado) numa mesa de oito. Podia terminar com aquele cliché do "enquanto cá andarmos todos é que é bonito", mas não. De facto, a maioria destas histórias, a nossa e outras parecidas, que se vêm extinguindo com os anos e já quase só existem nas lendas, continuam a ficar à tona como os últimos sinais de humanidade de uma sociedade iluminada por automatismos e máquinas e eficácia e ceo's. Os Escafandros não. Os Escafandros nunca. Os Escafandros são umas bestas, mas aparecem. Deixem-nos estar assim. Obrigado, Sandra Paulo e Makro e Cunha, por não serem automáticos. E até sempre.

PG-M e restantes escafandros 2016

2016-12-17

You cannot love in moderation

Na terra dos vivos a treva
sangra por dentro
o Cohen morreu
e nós por nascer

a luz a entrar pelas falhas

já ouço os sinos da vila
e sobre as margens antigas
estou pronto para esta
luta

atirem a corda escarlate
é tempo de dissolver
o grande baile
de máscaras

não podes amar com prudência
não podes dançar com os ossos
dos mortos

coloca a alma na eira
entre as paredes do rio
suporta as pedras sagradas
nos ombros 

fizemo-las vivas
já não estamos sós

beija o chão
muda de nome

não podes amar com prudência

não é com prudência que
sofres

não é com prudência
que choras

não é com prudência
que colhes a mão
de um filho na tua

ouve ao longe os tambores
os pássaros que falam línguas
esperando o nascer do dia
compõe o rosto
prevê os medos
vê a cidade através 
das lágrimas

a treva evanesce
provida de sol

e nós a voltar a casa
e nós a voltar a casa
e nós a voltar a casa

you cannot love in moderation 
(there's a crack in everything 
 that's where the light gets in)
 

PG-M e Matthew Perryman Jones e Cohen 2016
fonte da foto

Livremente inspirado no arrebatador "The land of the living", de Matthew Perryman Jones, que aqui se traduz e se mostra:
 

2016-12-14

Confissão (tomo IV) impertinente de PaloBlyK - dos vinte aos quarenta e tais


 Dunkin' Donuts. Ali.

Dunkin' Donuts?

Precisamente. Dunkin' Donuts. Na esquina da West 37th com a Broadway. Fazem um café excelente. Talvez o melhor café que uma pessoa pode levar num copo de plástico para uma conversa volante. É servido com a consistência e os espaços certos. Se eu fosse um cientista, talvez o soubesse explicar melhor, mas sou só um padre.

Os espaços certos?

Sim, o espaço entre o topo e a superfície do líquido, o rasgo da tampa. Dura mais tempo quente e é melhor do que os outros quando fica morno e também é melhor do que os outros depois de ficar frio. A minha ideia é seguir na direcção do Hopper porque é um percurso que sabe sempre bem mesmo quando fica longe, quando fica quente, quando fica frio.

Mas não tem de ser. Podemos ir para aquele lado, para a Times Square.

Mas este percurso, na direcção do mito de um quadro de um pintor morto, como todas as direcções de quadros de pintores mortos, que descarnam a complexidade de cada detalhe de cada obra de arte, tem outro sentido.

Podemos ir por onde quiser ou para onde quiser, o confessionário pode estar na rua, tal como a rua está sempre no confessionário. A minha história e a minha confissão terminarão, de qualquer maneira. E eu só quero isso: terminar.

Ah, sim, a confissão até pode terminar, mas a sua história não. Não termina coisa nenhuma, e não é só agora que não termina, não termina nunca, pensei que não se esquecia tão depressa de que falava com um católico, mas este católico diz que é sempre melhor a rua para nos confessarmos, até porque quase dispensa um interlocutor individual.

A rua é o interlocutor colectivo.

Isso. Colectivo e íntimo.

O vendedor de cachorros está curvado sobre a sua banca móvel, na esquina da 37th com a 7th Avenue. Segura-me no café, Solomon? Vou comer qualquer coisa, já não como há muitas horas.

Solomon ficou com os dois cafés na mão e Nova Iorque a passar por trás, o vendedor estava desligado, sonolento, e continuou curvado, mesmo depois de receber o pedido do padre. Um simples, sem nada, por favor. O padre pagou com uma nota maior e deixou o troco. God bless you. O homem endireitou-se e ameaçou sorrir. Não conseguiu, mas a nova postura foi o suficiente para as bochechas receberem uma tira de sol. Apareça na missa das seis. Não costumo ir à missa, senhor padre. Mas venha hoje. Mas nem sequer sou católico. Isso não importa. Não sou católico, senhor padre, repetiu o vendedor de cachorros, por penitência. Será o quê, então?, pensou Solomon. Não sou nada, sou um vendedor de cachorros, essa é a minha fé, respondeu, sem nada lhe ter sido perguntado. Eu sei que não é nada, disse o padre, mas apareça. Apenas porque lhe peço. Só hoje.

Vamos embora, Solomon.

O vendedor ainda se endireitou mais e recebeu o pedido seguinte com espanto. Era uma senhora curvada que queria um cachorro com todos os extras. O homem ficou a ver o padre e Solomon afastarem-se. Depois conseguiu, finalmente, sorrir. Um padre católico de uma paróquia de Manhattan não era, propriamente, um traficante de colchões, nem estes convites eram hábito à esquina de cidades descomunais. O vendedor de cachorros tinha ascendência portuguesa e sabia, porque isso eram coisas que se sabiam no quarteirão, que o padre também tinha. Decidiu que essa tinha sido a razão. Não estava preparado para aceitar outra coisa. Como bondade, por exemplo. Isso deixá-lo-ia desprotegido, e aquele trabalho de esquina não o admitiria. Eram pelo menos cinco corridas por dia atrás de “clientes” com excesso de liberalidade, por assim dizer. Normalmente jovens, mas não só. Seis horas era a hora de recondicionar a banca móvel e vender os últimos cachorros, porque trabalhava apenas nas horas de luz natural. Teria de antecipar o fecho e meter a banca dentro da igreja para assistir à missa. Decidiu que faria isso. Logo se veria que homem era aquele padre.

Sim, sou português. Sou americano, mas sou essencialmente português, até porque o mundo, hoje, é essencialmente americano e eu tenho de afirmar-me como essencialmente português. Quando a minha mãe insistia comigo para eu apagar, o mais que pudesse, os traços da nossa origem, para me diluir no centro do mundo, que é aqui, eu, já crescidinho, dizia-lhe sempre:

Desculpa, mãe, se Nova Iorque é nossa e todo o mundo é Portugal.

Aquele vendedor de cachorros também é português. Não se espante que não tenhamos falado nisso. Apesar das grandes comunidades, dos guetos, das little china, italy, turkey, etc, etc, não costumamos nomear-nos nas grandes cidades. Já foi a Paris?

Não, nunca.

O padre fez uma careta – como é que um advogado rico a viver no centro do mundo nunca tinha ido a Paris, que é o lugar onde as origens remotas desse mundo, desse movimento colectivo para o desperdício e para a excelência, fazem todas todo o sentido? – mas prosseguiu.

Dizem que Paris é a segunda ou terceira maior cidade portuguesa, mas os portugueses não se manifestam tanto uns aos outros como possa pensar. É uma das coisas boas das grandes metrópoles: estar ali é natural, não temos de descarnar o visitante.

Caminharam um bom quilómetro em silêncio, durante o qual o padre português cumprimentou quase todos os sem-abrigo de mão, mais do que de mão, dando o polegar para uma saudação mais cool e íntima. 'Zup? Zup foi o som, ou a pergunta, ou a resposta, que mais se ouviu nesse quilómetro, o padre perguntou a três se já tinham recebido isto ou aquilo, e eles tinham, realmente, recebido isto ou aquilo.

Pelo caminho, por aquele caminho e com aquele caminhante, Solomon começou a perder a vontade de se confessar. Subitamente o mundo em volta tornava a sua vida irrelevante. Afinal ele ia falar dos seus anos de paz e felicidade. Ia falar do mito da fidelidade, ia perguntar o que achava o padre dos seus pensamentos e pulsões, de como amara e continuava a amar todas as mulheres, de como apareceria Penelope e de como o curaria das paixões diárias por todas as mulheres, menos do amor a Ida, e se era possível e perdoável conciliar ambos.

Ia falar das suas tentações e de como nunca as concretizava. Ia perguntar se era possível proteger pelo desejo, mesmo o desejo proibido ou impróprio, ou seja, ser tão puro que, ao identificar o desejo impróprio, se seja capaz de proteger o objecto desse desejo, alertando-o sem o alterar. Alertando-o para a possibilidade de outros menos puros não se conterem e de devassarem o indevassável. Ia falar da masturbação como essencial, já não a dos dias transbordantes da adolescência, mas a do equilíbrio da maturidade e do respeito pelos contratos nupciais.

E sabia que o padre lhe diria que não havia penitência para a lucidez, ainda que avançar tal conclusão lhe parecesse pouco lúcido e um péssimo sinal de conversão do que via ao espelho e sentia como um pecado, um grave pecado: Solomon via ao espelho uma espécie de santo.

Um santo que visitara todos os pensamentos, dos mais negros aos mais claros, um santo que tivera todas as tentações, das mais negras às mais claras, mas que era impoluto e seguia na vida os mais estritos princípios.

Desejara velhas imaginando dar-lhes a cúpula de uma vida sexual, fazendo-as sonhar com ele como se ele, santo, fosse tudo o que uma velha e sexy mulher pudesse querer para selar o seu próprio sexo, desejara lolitas de quinze anos sem lhes desejar a carne ou a natureza virgem e quisera protegê-las por considerar que o seu comportamento e exposição as deixava à mercê dos verdadeiros predadores, que são animais egoístas e primários incapazes de princípios, e acreditava no antigo hábito dos mentores fiáveis que ajudavam as meninas a erguer os muros e as defesas – papel que deveria sempre ser declinado quando fosse percebido desejo e procura de prazer pelo mais velho; vendera a ideia do período de carência dos jovens adultos que se apaixonam por alguém com mais de trinta anos: para testar esse amor, devem afastar-se da vida um do outro até aos vinte e oito anos – dez anos sobre a maioridade – , altura em que o jovem adulto despistará esse sentimento como deslumbramento e confirmará – ou não – o verdadeiro amor; desejara as mulheres dos melhores amigos, desejara as mais fáceis por serem mais fáceis, nunca desejara as mais difíceis porque, ele sim, gostava de ser o mais difícil e nunca. Nunca.

Nunca tocara em ninguém senão em Ida.

Pensara em tocar. Nunca tocara.

A sua confissão era, pois, sobre pensamentos e convicções íntimas, muitas delas imperscrutáveis. A sua confissão era sobre o inconfessável.

No fim da confissão, Solomon falaria dos reencontros com velhas amigas de escola, e de como aos quarenta tudo parece possível e, principalmente em Nova Iorque, nenhum pecado o é intrinsecamente. Tal qual aquele mito de que a infidelidade no estrangeiro não é, verdadeiramente, infidelidade, também levar para cama amigas que ficaram por levar para a cama aos dezoito e dezanove anos por mero desconhecimento das regras e dos equilíbrios sociais e sexuais, não pode ser proibido, bem pelo contrário, deveria ser permitido e até estimulado como medida sanitária dos casamentos e das vidas em geral.

Mas quando um tipo que apenas ao espelho se sente santo vê um verdadeiro santo remontar Nova Iorque como a arcada do mundo, qualquer confissão se torna, se não impossível, inútil, verdadeiramente inútil.

Quando deu por si, estavam já os dois sentados ao balcão com uma cerveja à frente e o padre acabava uma história qualquer sobre aquele lugar e o tal do Hopper:

.. é por isso que há uma polémica entre quem situa o Nighthawks do Hopper na West Village Florist, no 70 da Greenwhich Avenue, e quem diga que é exactamente neste lugar, o antigo Classic do 679 da Greenwhich Street, precisamente Nighthawks, hoje. O próprio Hopper referiu que se situaria na Avenue, mas mais tarde também disse que pode ter sido uma criação da sua cabeça, aumentando o espaço do restaurante para que a solidão urbana fosse flagrante, visível.

Ah, entendo.

Eu acho que foi aqui. Não sente, Solomon?

Sinto, pois.

Mas não sentia. Não o preocupava Hopper nenhum, preocupava-o apenas validar os seus últimos vinte anos com aquela confissão.

Então contou ao padre, ali mesmo, Hopper ou não, perante o espectro dourado das cervejas, tudo aquilo que o tinha atormentado, primeiro a vida inteira, depois o caminho inteiro, e que queria agora ver validado, ou seja

confessou-se.

No final, o padre disse que era o que esperava.

Era o que eu esperava, Solomon, e provavelmente você também:

Não há penitência possível para a normalidade de um homem e de uma vida. O Solomon fala em luz e sombra, mas quem expõe a luz é luminoso, e quem expõe a sombra não a retém em si. O que me confessou é uma vida normal, impoluta, se quer que lhe diga muito perto da santidade, tivesse o meu amigo entregado mais de si e do que não precisa ao mundo, não só bens materiais, mas ideias.

O seu único pecado, Solomon, é nunca ter corrido o risco de defender as suas ideias.

Essa ideia das Lolitas, por exemplo, assumida com coragem, podia realmente proteger muitas delas, porque muitas meninas e meninos sentem-se de tal forma no domínio da estética e da beleza que partem para reinar, para dominar o mundo, antes de serem príncipes ou terem aprendido as regras da corte, querem ser eles próprios uma espécie de predadores, e depois acabam, rapidamente, predados. E o Solomon, melhor do que eu, sabe que os frustrados e os fundamentalistas, pensando que protegem os meninos dos sinais dos predadores – e então passam a suspeitar de tudo e de todos e tornam impossível o colo às crianças –, acabam por lhes tirar armas e de os empurrar para os covis.

Armas e Alma, sussurrou Solomon.

Porque não há dois homens em dez como você, Solomon.

Concluiu a terceira cerveja e perguntou-lhe se queria outra, antes que acabasse a do barril.

Ah, sim, pode ser, mais uma para o caminho, mas a cerveja nunca acaba.

As confissões sim, a cerveja não, mas sem confissões não temos mais pretexto.



Riram. Voltaram a rir. Pediram pelo menos mais duas ou três fresquinhas. O lugar, se não fosse já isso, passaria a mito da sua própria vida, pensou Solomon.

E depois acabou, assim, bruscamente.

Acabou.

Esta confissão acabou.

Será ampliada quando o autor chegar aos 60 e receber informações do que aconteceu a Solomon PaloBlyK quando regressou à Holy Innocents Church, se o padre ainda estava vivo e, na afirmativa, o que lhe confessou.

PG-M 2016

2016-12-13

Moça

Eu vivi há dois mil anos no princípio do mundo e no fundo da encosta de um monte com seis casas e uma escola.
Eu tinha oito anos quando, na casa do meio do monte, nasceu bebé Jesus e o monte e a vida nunca mais repetiram os dias, como até lá, e eu gostava dos dias iguais aos dias e a partir daí a tristeza tomou conta de mim, me deu de comer e de beber e me botava para dormir e me acordava de manhã tapando a manhã com corpo. Eu sei que Jesus foi um acontecimento bonito e é de muita vergonha que falo das pedras, mas eu gostava dos dias iguais aos dias, de não perceber a luz antes da noite e de adivinhar os campos em frente.
A escola ficava no topo do monte e no topo da escola ficava uma figueira que eu subia mas não descia e onde todos os intervalos brincávamos às caçadinhas, excepto quando as moças iam na macaca e os moços diziam que não, porque era jogo com alma de moça. O lencinho também era, mas o lencinho dava a chance de um beijo e todos os moços sempre se venderam pela chance de um beijo.
Eu tinha oito anos e todos os dias descia a encosta com a moça e com a mocinha.
A mocinha não parava de brincar e me fazia rir como os velhos do vinho com lágrimas no tempo, a gente passava na estalagem e ficava espantada com as mãos grossas dos velhos e a felicidade em canecas de barro que entornavam coisas bonitas cor-de-sangue e eles bebiam, desculpa eu falar assim forçado, mas sempre vi as coisas como elas são e não como parecem.
A mocinha se atirava a mim e me batia e os meus ossos a levaram tempo fora para combater a tristeza pelas cidades onde eu fiz este eu que sou hoje e te conta a história simples das moças e dos moços como são, não como parecem.
A outra, a moça, alta como as árvores do caminho, descia toda calada e com os olhos mais doces do monte e talvez de toda a pátria, e eu falo isso não porque os via com olhos de ver, porque eu era pequenino e ainda não tinha livros, mas porque ficou escrito no meio do peito.
Os livros dão vista e armas e antes dos livros, ou um ancião nos chama à estalagem e nos conta o que eles dizem, ou tu és cego e não sabes ver as coisas como são, mas só como parecem.
A moça era só alta como as árvores do caminho e calada como o silêncio e o que me ficou escrito no meio do peito foi para debaixo dos pêlos e do barulho desses dias que deixaram de ser iguais.
Jesus nasceu e um dardo gigante marcou a manjedoura como o centro do mundo e à volta da manjedoura fizeram muros e à volta desses muros mais muros e à volta destes muros mais muros e à volta do muro maior fizeram um ainda maior e as pessoas do monte começaram a ver os estranhos antes dos amigos e as coisas como parecem, não como são.
E todos deixaram de adivinhar os campos em frente.
Desci com elas a encosta umas quinhentas vezes e depois fiquei crescido e disse adeus à mocinha - que ainda vi se afastando no carro de bois do avô e pensei já não a vejo mais e de hoje em deante só a levo nos ossos - e à moça - que já não vi por causa dos pêlos e do barulho, mas sei que levou a minha tristeza com ela.
Passaram dois mil anos e eu tive de fazer um electrocardiograma e então raparam os pêlos do meu peito e eu vi a vida toda a passar pelos olhos doces de uma moça que eu já tinha esquecido há mil novecentos e noventa e nove anos, mais ou menos.
Fui ao topo do monte e subi à figueira da escola e vi, pela primeira vez, os meus caminhos como eles foram, não como pareciam. Vi várias cidades concêntricas e as luzes de natal no centro. Desci para confirmar que o centro das luzes do centro era a manjedoura. Nunca me afastei muito da manjedoura e do monte e, no entanto, voltei mais vezes a sítios distantes do que à minha própria casa.
Entrei no café em frente e pedi um café.
Sentei-me e senti a mocinha nos ossos, já não a moça, e senti a solidão também.
A moça parecia estar nas vidraças e na luz que entrava e então o espanta-espíritos tilintou duas vezes a milésima vez e eu, de mão no peito, reconheci os olhos doces através dos quais me revira todo, e então a moça entrou no café.
Apertámos as mãos e eu pensei que nunca tinha visto uns olhos tão doces nem tanta altura numa pessoa que afinal não era tão alta como as árvores do caminho, era maior ainda.
Falámos das nossas vidas inteiras e de como sem livros ou velhos que os ensinem ou poemas puros que nos mostrem como as coisas são, não como parecem, nos podemos perder uns dos outros quando as cidades ou nós próprios começamos a crescer um crescimento que não é o que é, mas o que parece.
E no fim eu não lhe disse uma coisa banal que queria ter dito e fiquei em silêncio:
- Moça, ver de novo os teus olhos doces a partir do meu peito e ver-me a mim todo a partir deles foi das coisas mais bonitas que me aconteceram na vida.
Eu não disse isso, porque não é literário, como o silêncio.

Mas foi das coisas mais bonitas que me aconteceram na vida de que a moça não fez parte durante, pelo menos, mil novecentos e noventa e nove anos.

Desde aí até morrer, todos os natais, todos os meses, todas as semanas, todos os dias, vou à vida com tempo e sem desculpas, como vamos aos funerais, sempre pelos olhos doces de uma moça.

PG-M 2016
fonte da foto: Autora: Thaynne

2016-12-06

O Padre Freitas está quase morto

O Padre Freitas está quase morto, é só deixar passar a missa de mês e pronto, morreu. Recebi, na volta do correio, dos jornalistas de excelência que interpelei sobre a vergonha que se preparava - o país mediático não ser capaz de combater a rotina instalada e ignorar este grande homem (na verdade, só o PR teve a decência de emitir uma justa nota de condolências) - alguns testemunhos que me comoveram: houve mesmo um que era um genial atestado de lucidez e consciência da camisa de forças. Na própria instituição que o Padre Freitas dirigiu e o acolheu uma vida, o Colégio dos Carvalhos, e exceptuando a memória individual, temo que não se faça o que é devido e comecem a desaparecer as palavras e os murais de homenagem. Há pouco, também eu me comovi ao ler estas palavras no mural do Eduardo Pitta, "A primeira coisa que aprendemos no Facebook é que estamos rodeados de eruditos. O neófito mais
humilde lê Artaud ao pequeno-almoço e sabe de cor a obra completa da Lispector. A maior parte das vezes não conseguem alinhar duas frases mas isso é uma minudência que nunca os preocupará." Não gosto muito de me exlcuir destas inanidades que o Eduardo caracteriza, mas comovo-mo com esta clareza. A mim pode acontecer-me o mesmo, se não estou atento, vigilante e me mantenho em combate. É um problema global. É por isso que, para saber precisamente aquilo pelo que vou lutar, fui à Biblioteca Municipal do Porto ler a que, provavelmente, é a única obra do Padre Freitas que foi dada ao prelo, "A pedagogia do léxico", de que muitos devem ter ouvido falar, mas poucos realmente conhecem. Fiquei assoberbado com a minha ignorância. Vergado a tanta sabedoria. Sendo um livro eminentemente técnico, ele levou-o à prática quando ensinou português. Pelos testemunhos, foi um professor brilhante. Era sempre. Deixo-vos a capa e o índice geral, importante para terem uma ideia do trabalho que este livrinho encerra. Há também outros índices, no final, que só obras de excepção têm, porque nos permitem um acesso mais simples e directo ao conhecimento. A excelência e o génio dão muito trabalho.
 
PG-M 2016

Bem-vindos ao Norte

Bem-vindos ao Norte. No último mês tem estado mais sol, menos frio e quase chuva nenhuma a norte. O contrário a Sul. Até o rei de Espanha reparou nisso. No entanto, todos os serviços noticiosos gritaram alertas amarelos e muita chuva sem nunca excluir o Norte. É sempre assim. É ainda com centralismo e megalomania que nós, nortenhos, temos de lidar, em tantos detalhes imperceptíveis a quem vive em Lisboa que nem vale a pena enumerá-los. O tempo (não o clima) tem temperado isso, e a diferença é que agora se lida aqui, a Norte, com essas manias com complexo de superioridade e caras de gozo típicas desta nossa massa. Faz 20 anos que a Unesco reconheceu uma parte do Porto como património da humanidade, e fê-lo numa altura em que o que um tripeiro mais ouvia de um português do Sul era que "o Porto é muito cinzento e está sempre a chover". Esta última ainda se ouve muito, o que, sendo parcialmente verdade (que chove mais, em média) é uma parvoíce de se dizer de uma cidade temperada do Sul da Europa, como é o Porto, que fica apenas a 300km da outra, o que, à escala do Mundo, tem pouca relevância. Em 2013, por exemplo, choveu mais em Lisboa do que no Porto (fonte: PORDATA). É por isso que quando estoura a chuva na cena do filme francês com o nome da primeira frase deste post, qualquer nortenho se sente redimido. O Porto não mudou há vinte anos. Isso foi político, apenas político, e o Porto, quando mudou, foi pela mão de cada um de nós, sem interferência ou ajuda de nenhum político. Esta é a história extraordinária, não dos últimos 20 anos, mas 7 ou 8, desta cidade sublime onde nasci, e que ainda está por contar, porque as reportagens são sempre de espanto bacoco pelo que hoje existe e nunca vão ao fundo de nós. Dispensam-se paternalismos: desses, os que não estão no centro estão cansados até ao vómito. Humor sim, humor do bom, forte e à bruta, sem cedências nem a piadinha parva do costume. Têm estado dias maravilhosos por aqui, muito sol e até algum calor e não, não choveu - mas, hélas!, quem quer saber disso? Valha-nos o Rei de Espanha. E este não é um post dissidente. É um post do deixem-se de merdas com isso do chove muito e sempre vocês, sempre vocês, sempre vocês, e venham conhecer a nossa luz e as nossas belas sombras.

2016-12-05

Comoedus (ou Joana Pais de Brito)

Joana Pais de Brito. A excelência em comediante lato sensu, que ela não gosta que lhe chamem isso stricto sensu. Ela diz que é apenas actriz, não humorista ou comediante ou imitadora: na verdade, nada de redutor pode ser dito sobre Joana Pais de Brito. Apenas que ela é a maior dos maiores no momento em que escrevo, o ano da graça de 2016. De uma perfeição e percepção assustadoras. O "estado" anterior, sobre o bobo, é para ela. Para o silêncio que ficaria na cidade sem génios como ela. E se acaso ainda a não conhecem, nem se riram nem se espantaram tudo. Pronto, este é o meu poema de hoje. :) Como é vasto o material em que ela se torna o centro, mesmo não sendo essa a intenção inicial, no youtube, vão por lá. Não falha. Ela nunca falha. Digamos que, sendo um ser humano, e por natureza falível, é perfeita, e por natureza deusa.

PG-M 2016
fonte da foto
 PS: apenas alguns exemplos.
Respectivamente, como "chef" Filipa Gomes, como Cristina Ferreira e como Sandra Felgueiras:

A muralha

o bobo construiu uma muralha dentro da muralha e nessa muralha
só ele cabia

ninguém soube

o pequeno edifício era estranho aos do fazer e afronta aos do poder
estes ordenaram que aqueles trespassassem a parede
com lanças afiadas e o bobo morreu
calado

ninguém soube

até que a tristeza cercou a vila e se enfiou nos pátios
que haviam nascido para levar o sol
a vila veio a morrer


mas ninguém sabe
 


PG-M 2011


fonte da foto

2016-11-23

te echo de menos

 te echo de menos

a expressão espanhola para saudade também é bonita.

fiz-te de menos

ontem lembrei-me de como foste dos primeiros a dar-nos uma nova noção de tempo


era um funeral, e havia alegria no ar, e não era só a alegria do reencontro com os homens e mulheres mais importantes da nossa vida, os professores, nem aquele belíssimo pânico de os ver procurar com a memória que alunos éramos

estão tão mais bonitos, os professores.
quando eram os nossos professores, eram velhos por natureza.
agora somos nós os velhos e eles da nossa idade.
bonitos e cuidados, sábios, serenos, sem poder

só conhecimento

a alegria eras tu e o comprimento da tua obra


comentei com o lima​ que nunca tinha visto um funeral tão feliz
estavas a descer à terra e havia gargalhadas
o coveiro a devolver-te à matéria original, que é a mesma que resulta de ti, e abraços entre campas

eu de pé a tomar café e a falar de como a linguagem e o silêncio e o ouvido e a atenção revolucionam o próprio tempo
tu és um dos grandes culpados de, afinal, isto não ser só isto e de
morrer não ser bem morrer

depois ouvi falar de ti, do teu apagamento físico, por quem em nosso nome cuidou de ti e te mimou até ao último minuto
um apagamento físico irrelevante para o mundo, ou só relevante na medida do teu sofrimento: nada para lá do que te doeu importa
não havia choro ou abandono ou pena, as pessoas que contavam o drama da tua doença sorriam, porque, a par de cada perda, havia sempre a tua resiliência, a tua teimosia

talvez seja piedade dizer para não te ir ver, porque estavas pele e osso,
estar deitado dá cabo de nós todos, faz-nos desaparecer fisicamente,
faz-nos assumir a postura da defesa perante a impossibilidade de sermos o que nos ergueu e nos fez evoluir

afinal não parecia ser isso o importante para ti

o alzheimer levou-te as forças, o conhecimento - e é injusto
ter-te cabido uma doença do conhecimento

logo a ti

o alzheimer levou-te tudo, mas não a presença de espírito
nunca desapareceste
foste teimoso até ao fim
ressurgiste muitas vezes
estavas deitado, estavas presente,
não o corpo, já não o corpo,
tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu

já não conseguias comer sólidos, mas comias bem
o que podias comer
comeste sempre bem

e continuavas a combater pela tua fleuma, pelos teus hábitos,
ainda lutavas pelos artigos dos jornais que querias ler, pedias  a coluna do rangel e, quando ta davam, sorrias, sentavas-te, punha-la perante ti e não lias

nestes útlimos tempos, já não lias

só replicavas o prazer de ler
o prazer de pensar
replicavas a busca do conhecimento
o arrebatamento do passo em frente
o trabalho
a graça disse que, mesmo agora, no fim, quando regressamos à aparência
da criança que nunca deixámos de ser,
cada vez que ela aparecia ias a despacho

a graça aparecia à porta e tu
puxavas de uma almofada e escrevias com o dedo


assine aqui, senhor padre,
e ali,
e ali,


e tu assinavas

todos pensamos na própria morte perante a morte dos outros

na verdade, não pensei muito na minha, ontem.
pensei mais na eternidade

o teu quarto ficou cheio de livros e papéis
e quem te amou sabe que está aí
a eternidade

não apenas a tua, toda a eternidade

aí e no que levamos de ti connosco
e passaremos aos nossos
e os nossos passarão aos seus
e os deles aos deles
intimamente


infinitamente

dormiste sempre no nosso colégio, morreste onde dormiste

deitado na almofada

já não o corpo, tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu



PG-M 2016
foto propriedade do Colégio dos Carvalhos

2016-11-12

Rafaela


Não importa onde se encontra Rafaela,
o que faz e de onde veio, importa apenas
a sólida beleza

que se dissolve em nós

em vez dela

no lugar onde os poetas se exaltam
por culpa dela
não há luz
só Rafaela

está nos móveis e no chão
está nos lábios e nos
dedos, nas
máquinas e no
tempo
está nas falhas, está
nas pedras
nos lilases meio abertos
a que cheiram
certas noites

e ela,
legando os seus olhos claros,
ouvirá em explicação que o poema
é sem amor,  o poema
já cá estava
por escrever
copiado de um clarão
por causa dela

dissoluta
absoluta

Rafaela


PG-M 2016
fonte da foto







2016-11-05

Acta de abertura de um livro sobre a imortalidade


António, bisavô: sempre cri que o veneno que tenho no sangue (que há quem chame arte) é culpa tua. Sempre cri que era uma maldição, uma maldição sublime, mas uma maldição. Que nos tortura, porque exige, para bons resultados, o sobre-humano ou a negação do humano. Exige silêncio e minimalismo, como se fôssemos edifícios (diz que somos), tantas vezes geometria e cálculos, mas em nós é carne, é uma torrente descontrolada, um rio a galope fora das margens, olho para as tuas mãos e para as minhas e são iguais, tu davas ou tiravas forma ao nada ou ao tudo, desenhavas, esculpias, modelavas, eu não faço diferente com as palavras, às vezes, quase sempre, tenho de as deixar quietas, os blocos intocados, posso morrer sem nunca mexer em algumas frases. E quando, subitamente, o objecto da arte és tu, toma-me esta obsessão que me leva para perto de um estado que me parece a loucura, essencialmente posso defini-lo como uma solidão intraduzível e no entanto barulhenta, tão barulhenta que posso ser um artefacto pirotécnico em pleno céu de são joão, expludo e ilumino as nossas cidades durante breves segundos e depois caio no douro - às vezes tento ser um balão de papel, posso divagar, subir, mas caio sempre. Caio em chamas, caio sempre em chamas, e depois apago-me. Olho-te profundamente nesses olhos quase frios em que preservas tudo de ti e, claro, vejo-me a mim. Como se estivesse a comer o meu próprio corpo sem a metáfora, bela metáfora, de cristo, embora os teólogos digam que não é metáfora nenhuma. Vai ser assim nos próximos cinco anos, estarei gravemente doente de ti, afinal como tenho estado a vida toda, há sempre um sobressalto quando passo na boavista e fico fixado no leão do alto ou na mãe que morre afogada com o filho nos braços ou na tua campa ou na tua rua ou nas fotografias que guardo. Mas tu seres o objecto das minhas mãos é perverso. A sensação é a de estar sempre a chorar e a cara seca. É uma fraqueza titânica. Uma força transcendente. Componho o teu corpo de volta como uma espécie de frankenstein. Sei que vais falar a qualquer momento, que me vais tentar travar, talvez até devorar, mas os nossos olhares têm sangue e é o mesmo sangue. Estás a ver? Como podem olhos frios ser sanguíneos e explosivos? No fim, vai ser um abraço, um abraço definitivo que provavelmente não mais se desfará, tomamos um copo e rimo-nos deste século doloroso que nos separa - não podias ter morrido - e, então sim, retirar-me-ei para que possas viver o que sobrou. E sobrou muito, tanto que vai desaparecendo para nunca mais ser lembrado. Como se não existisses. Como se não existíssemos. Como se não me doesses e eu não gritasse de dor desde a primeira vez que apontaram a estátua da boavista e me disseram: "foi o teu bisavô que fez" e eu ouvi "aquilo és tu"

2016-10-31

I love Volleyball (and him, of course)


We are animals.
 

We are powerful and rise above what's expected from us. In you all the strength, all the power, all the belief, all the work.


Already born and freed. Between both posts, the most beautiful story a man can handle before he perishes. The screen, with the right tension, it's the symbol of work, balance, the proper height.

The net is the string of life, apparently untouchable, but volatile. And the court is empty, and then you arrive full of light and rise up, with all inscriptions engraved in the body.
 

We are animals. We are powerful and we rise above what's expected from us. 
Somos assim, bichos. Somos poderosos e elevamo-nos acima do que esperam de nós. Em ti toda a força, todo o poder, toda a crença, todo o trabalho. Já nasceste e já te dei carta de alforria. 

 Castêlo da Maia - Sporting de Espinho, seniores, Outubro de 2016, idem para as fotos 2 e 5

Entre os dois postes ficou a história mais bonita que um homem pode suportar antes de sucumbir. A tela, com a tensão certa, é o símbolo do trabalho, do tempero, a altura certa. A rede é o fio da vida: aparentemente intocável, mas volátil.
Itália-Portugal, U18, 15-07-2016, Holanda, idem para as fotos 1 e 3

Fica o court vazio, sombrio, até apareceres num jorro de luz e te ergueres, com tudo inscrito no corpo. Somos assim, bichos. Somos poderosos e elevamo-nos acima do que esperam de nós.



PG-M 2016
fotos de PG-M, excepto a penúltima, que é creditada a Claudio Panciocco, e o grande plano do número 12, de camisola laranja, creditada a André Gouveia. Todas são do atleta Guilherme Moreira, filho do signatário, excepto esta última, da bola como mundo a girar sobre o dedo do Kiko Silva

2016-10-22

finalmente o inverno chegou ao teu cabelo


finalmente o inverno chegou ao teu cabelo

tens outono nas mãos
folhas nos dedos
braços nus cheios de verão
já primavera

sempre foram os teus olhos

PG-M 2016
fonte da foto

às vezes é preciso chorar para dar força aos rios


às vezes é preciso chorar para dar força aos rios
outras calar

para os acalmar


PG-M 2016
fonte da foto

figueira


na altura da minha escola
a tristeza era mais branca
e eu ficava na figueira

a outra figueira do recreio

e tinha saudades
sozinho
o barulho era distante
os ramos erguidos
sem sombra
o recreio aberto
o sol imortal
a bata da mesma cor
da tristeza
eu feliz
e moreno
a olhar

a olhar


PG-M  2016
fonte do desenho

2016-09-12

vem tempestade


os dias já se notam
e sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha
penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest

vem tempestade

corro para dentro do café que ainda não suporta as portas fechadas,
o vento assobiará e entrará de qualquer maneira.
por causa da Herta,
compreendi o silêncio na nuca e como se distingue do que trazes na boca
agora sim, é outono
só é outono quando muda de face e te mostra o inverno e a sombra,
a chuva de manga curta

já te expliquei como na negação da minha velhice me sinto violada por todos os escritores?
nenhum homem entrou em mim assim
nenhuma mulher ficou perto
não esperam nem contemporizam

entram, partem ossos, laminam órgãos, bebem o sangue, secam a água e executam a alma

já entendi que me enterraram para uma empreitada nova
uma fonte em vez de um aterro
já entendi o contrário. ou nunca entendi. nunca soube

os livros
andam lá como tufões. levantam voo no outono,
migram no inverno, regressam na primavera
e no verão estão sob as palmas das mãos

são as últimas flores, as primeiras árvores nuas
ou ao contrário, tudo ao contrário

tudo

matam, ressuscitam, sobem e descem degraus
os dias já se notam
e sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha
penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest

vem tempestade


PG-M 2016
foto idem

2016-08-19

nós, vencedores (epopeia)


posso situar o princípio da glória
nos versos daquele amigável com a noruega
no estádio do dragão no fim de maio

mas isto não é um poema
é uma espécie de choro
impulsivo e desconexo
como o canto de alaúde
dos bardos da irlanda antiga
ou as odes de alexandre  
afonso e nuno matos
na antena um

é talvez,
no princípio e no fim
de tudo, uma simples
canção de amor

cantarei o que vi e ouvi no mundo inteiro sobre uma vitória portuguesa para que os netos
da nação, e mesmos os outros, os que estão antes e depois de Portugal,
os que pensam que estão acima e os que se lamentam abaixo,
tenham acesso ao detalhe das sombras e das luzes que transcendem
a pertença exígua a um jardim, somos em vez disso o pomar
do firmamento, somos isso porque somos a emoção toda e
a emoção toda está no mundo inteiro e talvez
além

serei redundante nas emoções e nas expressões,
não farei literatura, muito menos cultura, 
apesar de nenhuma literatura ser possível
no deslumbramento grave em que peco
desde o dia dez de julho

por isso convém sanear
toda a razão e
escrever
não aspirarei
a génio nenhum, apenas
ao universo

para tal, e por já não governar El Rei e esta crónica ser em nome do universo,
como estipulado supra,
cuidarei de usar linguagem corrente, para que seja entendida até
nos poros da miséria humana, onde a dor é tão profunda
e o abalo do ódio tão intenso,
que só se percebe a palavra golo e só a palavra golo
une

posso situar o princípio da glória naquele amigável com a noruega
no estádio do dragão no fim de maio
ganhámos três a zero sem ronaldo e com um golo do quaresma, outro
do raphael guerreiro
e um último do éder
e chamaram aos que seriam campeões no segundo e terceiro acto do dia dez de julho
versão beta

e eu estive lá fisicamente e depois com alma e depois a alma
saiu do corpo para pairar sobre Paris e depois ficou tomada
de estrelas e voltou para dentro, acredito que,
pelo menos neste caso,
os milhões que ganharam e os milhões que
perderam o fizeram fisicamente

mas eu estava lá quando os cavalos selvagens
cor-de-menta fizeram um círculo no extremo
oriental do dragão, a crina rebelde que é um
poema sem rima para que a substância se propague
líquida pelo corpo dos outros e de todos nós,
a crina do potro renato e o galope errante
do mustang, eu não vos consigo explicar a diferença que senti
no quaresma que é nosso, do porto, há tanto tempo,
a diferença entre a displicência artística naquele último jogo
do fcp com a académica em catorze, talvez o primeiro deste período negro,
e o mergulho mágico e a fusão com a relva daquele animal
imperial
que começou com um golo lírico no dragão e
se ergueu épico como uma espécie de brilho no olhar de todos nós
nos sete a zero da luz

não digam a idade nem contem o passado do quaresma
quando se vê na pose do mustang o ente sem amo que
vai conquistar tudo por nós, nem que seja
mais um metro dentro da cerca
que o tenta domar

(eu já lhe canto os golos)

todas as sílabas de um mustang começam
na europa e culminam no eixo do cigano feito
ceptro, e eu não sei se foi a taça se foi a
descrença e a presunção e o dislate e a
arrogância que sempre fundou os medíocres
e, em contraponto,
os cavalos

é que, pensem bem, a vitória do medíocre
é sempre frívola e passageira e egocêntrica,
é sempre apenas a vitória do medíocre
e a vitória de mais ninguém,
mas a vitória do humilde perdedor que toda a vida e toda a História
fez das derrotas músculo e ora se ergue virtuoso e vigoroso apoiado nas patas de
trás e relincha e depois parte a cerca
não é só a glória do mustang

é a glória do universo

(como estipulado supra)

não, compatrícios de alma
(de alma, não de fronteiras),
não temos de viver à sombra de gigantes,
reis, infantes, navegadores, adamastores ou
ídolos inventados, não temos sequer
de inventar ídolos novos,
mas devemos ao pudor deixar nota de grandeza
devemo-lo
aos que não sabem de Portugal, e portanto 
não sabem que somos capazes e perfeitos
nos detalhes e que o nosso peito
ferve desde a pele
e vence

em carne viva

e, que ainda que o país se apresente mirrado de tudo
e se envergonhe e pedinche aos burocratas pequenos e
aos anões amigos deles,
cada português é maior do que o mundo
e que a cerca que o mustang quebrou
se abriu às estrelas
e é maior
o universo

(como estipulado supra)

mesmo que arda agosto e entre os papéis e as glórias
não se salvem as casas e as florestas,
está na mão firme de cada português
a velocidade e o poder da luz

o golo de quaresma no dragão no fim de maio contra a noruega e,
mais do que o golo, o galope e a raça que fez
de todos nós heróis
foi o fecho de um século de descrença
e o desplante do santos
e a forma bela como compôs a imagem do feio
aos olhos dos outros e dele fez feito


e é tão grande o feito que luz nos olhos dos outros
como os feitos dos outros luziram nos nossos,
alemães, brasileiros, espanhóis, italianos, argentinos, dinamarqueses, checoslovacos,
soviéticos, holandeses,
franceses, gregos,
e todos os outros, para lá do futebol e até do sistema solar, como
a suíça gabriela andersen-schiess, que acabou a maratona
de los angeles em último e quase morta
ascendeu ao olimp


e as nossas lágrimas tomaram finalmente sentido quando
vimos
o nome de Portugal ser gravado na taça,
e todos os vencedores, como ela, luziram - ou deviam ter
luzido - em nós,
porque essa é a essência dos campeões

esse é o universo
(como estipulado supra)    

não quero que pensem que somos absolutos
mas somos

somos absolutos

há, efectivamente, uma reflexão que parte de factos e de um olhar subjectivo sobre eles, mas esta elevação ao eterno é objectiva, matemática, lógica, filosófica, cultural.  
um axioma. uma proposição euclidiana. um teorema. um algoritmo. um erro.

nas contas portuguesas
somos absolutos
e as contas portuguesas

não aspiram a mais nada.
não é importante, é só essencial
há sempre, em todos os lados de todos os tempos,
todo um grupo que se acha mais importante do que os sábios e os cientistas, um grupo que se esforça no limbo – ah, o limbo! – e a radix sobre a qual a palavra pode avançar com mais luz e serenidade, a escola, a universidade, estão esquecidas: 
há uma cúria “leve”, muito enérgica, muito “viva”, que ocupa o espaço todo
mas que novidade vos conto?
cervantes já o mencionava no prólogo do quixote.
querem lê-lo antes de avançarmos?  


foi uma armada humana, não sobre-humana,
a responder com o bastante ao esplendor,
a tornar tremenda a vitória natural
e vice-versa,
tremenda a coragem com que suportou o penálti falhado com a áustria
tremendo o desespero com que não consentiu o aleatório à hungria 
tremenda a resistência à croácia e o mustang
a três do fim
tremenda a resposta ao golo imediato da polónia e a crina do potro
a facturar
tremenda a superioridade e maturidade sobre a gales que perdeu por
deslumbramento interno, como houvéramos na final de lisboa
tremendo o silêncio com que suportámos a pressa francesa e o azar do gignac e
soubemos todos, quando o poste devolveu a bola sem convicção
ao minuto noventa e um,
que podia ser o dia, que podia ser o dia
 
o golo de quaresma no dragão no fim de maio contra a noruega

e um princípio quase igual a um final:
no dragão o raphael guerreiro marcou um livre perfeito apontando ao lugar
onde a aranha faz o ninho
e o éder também, quase-perfeito, logo a seguir,
e o dragão a dizer, afinal o éder e tal,
o andré silva devia ir, mas afinal

o éder e tal

na final foi mais-que-perfeito
porque o guerreiro bateu na trave
e o éder absolut
o éder absoluto

o éder absoluto

o golo de quaresma no dragão no fim de maio contra a noruega, o animal
recebe a bola perto da quina da grande área, balanceia o corpo para a frente e
conduz a bola como se fosse para a linha de fundo,
flecte para trás e anula o defesa norueguês que o acompanha,
aproxima-se da área e em cima da linha exterior pontapeia em arco para o poste mais distante

grande golo.

uns dias depois ainda mais arte e técnica e magia para fazer o mesmo à letónia,
bem dentro da área dá um efeito maior ao arco para que a bola dispare em frente e não passe demasiado perto do guarda-redes e descreva o círculo à esquerda
para dentro da baliza 

grandíssimo golo

o estádio da luz levanta-se e o povo sorri. é nosso. o mustang é nosso. nessa noite faz dúzias de assistências e mais um golo, quase dois. o país em peso sente que ele vai resolver em frança.

na qualificação
tínhamos caído e depois resistido à albânia
que viria a encantar mundo
e resgatar a infância
de biasi  

e apanhámos aqueles que seriam vice-campeões
logo no primeiro jogo
não a frança, a islândia,
só a islândia se pode reclamar como o mito do torneio
para cá de nós 
o golo de nani é natural, o do islandês não,
o do islandês é uma estrofe de uma Edda moderna,
na vitória sobre a inglaterra luziram os olhos do universo (como estipulado supra),
na derrota com a França o mundo era indissociável dos vikings e da celebração com os braços abertos ao ritmo da alma do povo,
ganharam mesmo perdendo,


eis a alma física

e como a levámos 
até ao fim

e da alma física passamos ao movimento, o professor manuel sérgio dizia algo assim, 

no jogo com a áustria,
ainda que a síntese universal diga apenas "penálti falhado por ronaldo",
apareceram os nossos guerreiros para escrever os próprios cantos,
não um sistema de jogo mas uma mente comum
pequenos peões intercambiáveis e indestrutíveis
paciência e resiliência
e o adepto a pressentir
que sofrerá pela vitória,
não pela derrota  

e o santos diz
só volto no dia onze

e o ronaldo afunda microfones, mas
continua o barulho e a dor
da liberdade

e vem a hungria e o fernando alves,
na comoção,
que nele é o mesmo que rádio,
lembra o poeta húngaro attila józsef
"Confiei em mim desde o primeiro momento
 custa muito pouco
 ser dono do vento"
  
e vem o vento
e vem a hungria
e o príncipe ronaldo, que até aí fora sustento e chão na sombra
brilhante dos soldados,
e os braços ao alto e os murros no ar pela irritação,
ficaria oito a oito se durasse três horas,
o que faz um campeão é voltar sempre
como nós voltámos,
e haveria ressaltos infinitos
e golos dos húngaros 
e nós voltaríamos sempre,
como poucos alguma vez fizeram,
mas também houve isto:

farda menta. junho vinte e dois. zero um por gera, aos dezanove. 
aos quarenta e dois assistência de ronaldo
pouco à frente da linha do meio-campo
para a corrida de nani
cinco jogadores húngaros ficam anulados só com o passe
e nani corre dentro da área pelo lado esquerdo do central
remata para o poste mais próximo de király
e marca 

um dois por dzsudzák por ressalto aos quarenta e sete. aos cinquenta
joão mário corre junto à linha e passa para nani
este devolve a joão mário que cruza para a área
ainda antes dela
ronaldo deixa passar a bola e bate com o calcanhar
ao poste mais distante de király
grande golo
aos cinquenta e cinco
dois três outra vez por dzsudzák
outra vez por ressalto
aos sessenta e dois
quaresma marca canto para joão mário
à maneira curta
nani devolve a quaresma, que centra do cume da área
um dos arcos da arte pura
ronaldo eleva-se, juhász nem por isso,
e marca de cabeça

então o engenheiro manda abrandar
e quatro minutos depois do fim o islandês  traustason
marca à áustria
e tira-nos do lado mau,
disseram,

e coloca-nos nos oitavos
com a melhor equipa
depois de nós:

desse jogo a crónica é respeito, primeiro,
e resistência, depois,
respeito não é medo, santos,
a croácia a cercar-nos no prolongamento,
quase marca, lembro-me de que
o vida tentou tantas vezes,
e tinham o modric e o srna e o perisisc, tinham quase tudo,
mas nós tínhamos mais
a três do fim o potro renato conduz a bola pelo centro do terreno
com linhas de passe para o ronaldo e para o nani
nessa altura quaresma passa pelo lado direito do renato e, sempre sem bola,
corre para o centro da área,
o renato mete no nani, à esquerda, que,
da quina da área, do lugar onde o mustang faz os arcos,
passa para o ronaldo, que, à entrada da pequena área,
remata para o centro da baliza

a bola tinha passado à frente do quaresma, que continuava
uma espécie de corrida até ao infinito 

grande defesa do subasic com o pé

a bola sobe ligeiramente, em vez de partir
para o infinito, ou talvez o infinito
fosse ali,

não foi sorte, senhores,
quaresma estava lá porque tinha procurado,
dizem que anda com a cabeça nas estrelas

pois anda

a bola foi direita à cabeça do mustang
e ele empurrou para dentro

e portugal estava em todo o lado
e portugal começou a pensar
no impossível
no infinito

com a polónia lewandowsky, mesmo sem um pé,
encurta os nossos sonhos logo aos dois minutos,
mas aos trinta e três potro renato ergue-se e
galopa para lá da cerca 
de fabianski

estamos nos penaltis mais ou menos a rezar
mais ou menos cientes dos fados
frágeis e raro inquebrantáveis 
vê-se de cá a força. a garra. aquela acidez - não o cinismo, esse é sulfúrico -,
aquela lucidez não pacífica - a que nos leva à guerra e nos faz vibrar. perdemo-nos
do "Old England", dos Waterboys, como nos perdemos de pessoas que nos fazem falta. justificamos sempre com a vida e com o comodismo, com um certo pudor, um certo tento, que isto do amor está gasto e se tornou perigoso
perdemo-nos da música e quando a voltamos a ouvir ficamos outra vez furiosos,
não furiosos como a rocha cinzenta que ocupa a repartição de finanças para sempre, mas furiosos como o mar que bate todos os dias nas escarpas há milénios e pacientemente nos moldou o terreno. é vibrante
constatar que algo está a morrer quando nos sentamos para a transfusão.
por isso esse grande português que disse ao moutinho
no dealbar do grande círculo
"vais tu marcar, tu marcas bem, se perdermos
que se foda" 

cristiano dá três passos atrás, arranca, bate a meia altura para a direita de fabianski, que voa para a esquerda. dois um
lewandowski atira para a esquerda de patrício, que cai para a direita. dois dois
potro sanches bate para o canto superior direito de fabianski, que volta a atirar-se para a esquerda três dois
milik para a direita de patrício, que se atira outra vez para a esquerda. três três
moutinho (tu bates bem), pela terceira vez, para a direita de fabianski,
que pela terceira vez se atira para a esquerda. quatro três
glik para a direita de patrício, que volta a escolher a esquerda. quatro quatro

ronaldo vira-se para trás, esconde-se atrás dos colegas, sofre
mas há uma determinação nova no sangue
e uma estranha leveza no ar

nani escolhe a esquerda de fabianski, que desta vez se atira para a direita. roleta polaca. cinco quatro
e agora o primeiro momento do céu: patrício vai insistir na esquerda novamente, a bola vai baixa, patrício estica-se todo, está paralelo ao chão, todo no ar, e estende o braço, a mão, a luva, e defende o remate de blaszczykowski. a polónia não marca.


amanhã aparecerão crónicas sobre detalhes da vida de blaszczykowski
as crónicas costumam ser sobre as vitórias morais dos portugueses

está tudo no corpo do mustang. desta vez não é só empurrar de cabeça,
é menos do que um arco de arte desde o cume da área,
é só um remate, a escolha de lado e altura, alguma precisão e sorte
e raça
roleta polaca
quaresma e fabianski escolhem o mesmo lado
fabianski toca na bola de raspão
não chega
as redes vibram e o cigano suspende o tempo para pescar
peixes imortais
dilui-se a metáfora do mustang
na poeira cósmica
seis quatro

estamos nos últimos quatro:
nós, gales, frança e alemanha

de gales mediram-se outra vez os comprimentos
de ronaldo e gareth bale
mas deles apenas um abraço
que os tornou indistintos e
infungíveis 
não é sequer costume que os dragões não instiguem
medo, mas iam os cavalos galopando, 
discutiu-se o salto do astro no golo imperial
de cabeça, a assistência a nani,
o primeiro jogo ganho em
noventa minutos
estamos na final de paris

e em Paris Portugal  evolui pelos séculos
em Paris renasce nos cafés ateliês pedra e vidro e grand palais e, fernando, 

nos campos de trigo de silva porto,
nas mãos de barro de alves de sousa
e nas sombras, mais do que na luz 

e Paris (claro) somos nós 
e Paris (negro) também 


a torre eiffel de quinas  
a respiração a cidade e o coliseu perfeitos
os elísios verdes e vermelhos
distintos como nunca
as fan zones o metropolitano as correntes dissonantes
do universo a convergir
na relva
o primeiro acto são os dominadores gauleses
mas nenhuma caravela vacila
ou muda de azimute
no segundo acto 
ronaldo é varrido por payet
e a mariposa pousa no astro e diz-lhe
parte, deixa-os ao destino

e eles erguem-se e nivelam o combate

o terceiro acto é éder
girould tinha saído aos setenta e oito
éder entra aos setenta e nove, sai o potro, e é sobre éder que se reimprime a metáfora dos cavalos
agita, corre, salta, cai, recupera, devolve, fixa,
remata, cabeceia, tira faltas,
cai aparatosamente de cabeça na relva,
levanta-se

portugal passa de dominado a dominador,
gignac roda sobre si, pepe cai,
e ao remate dos noventa e um
patrício faz a mancha
tira o ângulo
a bola bate no poste e passa à frente da baliza
quando chega o fim do tempo
patrício sorri
e no tempo que se soma aos noventa
somos nós outra vez

o árbitro engana-se e marca mão a koscielny,
livre perigoso
quaresma ao lado de guerreiro
quaresma insinua e guerreiro
marca, trave

e por momentos o pensamento português
foi quase

e éder e o moutinho continuavam o combate
sobre a linha lateral 
a bola sobra para moutinho, que,
perseguido por gignac,
passa de primeira,
a bola ressalta e sobe,
moutinho vai disputá-la num trevo
com gignac e griezmann,
sobra para griezmann, que dá vários toques no ar
e dispensa a bola,
que volta a moutinho

moutinho passa para trás,
william carvalho para a frente,
quaresma recebe e devolve a moutinho,
moutinho dá dois passos adeante e passa a
éder             

éder recebe
puxando koscielny pelas costas da camisola
e este éder pelos calções
é um combate corpo a corpo
éder dá um passo com a bola para o interior
adianta-a com outro passo
agora é koscielny que o puxa pelas costas
e éder puxa-o a ele na zona da omoplata
é um combate corpo a corpo
éder olha em frente com uma expressão quase vazia
como se sonhasse
koscielny descola e corre por trás de éder
éder tem matuidi pela frente
quase tropeça e

finalmente

arma o remate
e chuta
suspendemos a posição de éder depois do remate
os braços abertos como em bailado
a perna direita esticada e o corpo inclinado
como um canhão de alma lisa
como eusébio descido sobre ele 
depois do livre de guerreiro, lloris ficara
magoado, andara a coxear pela área
enquanto se combatia junto à linha
lateral
ao ver a ameaça de éder
posicionou-se mais próximo
do poste direito, onde a bola
entraria

a bola bate uma vez no chão,
já na pequena área,
lloris estira-se, mas este povo
já não se cala
a rede vibra

e é golo

minuto cento e nove

éder tem de fugir
joão mário não o apanha
éder arma o colo como se tomasse um filho
nos braços
quaresma vem eufórico da linha de fundo
nani da intermediária
moutinho toca-lhe de raspão
raphael sorri
william tenta placá-lo
o árbitro observa
não vá haver falta  
fonte atira-se e falha
pepe faz muro
os suplentes com o colete respect
(respeito não é medo)
- danilo, andré gomes, rafa -
cercam-no
falta tirar a luva da meia,
éder liberta-se
eliseu persegue-o

griezmann ali no meio,
prostrado

éder cerra os punhos
para o banco