2015-06-29

a roda dos cães expostos


chamo cão ao vizinho, chamo cão ao badalhoco que dorme na nossa entrada todos os dias excepto naqueles em que tenho insónias e venho fumar à porta e lhe prego um pontapé e ele só volta três noites depois, chamo cão ao funcionário azul da décima quarta repartição, chamo cadela à sorte, chamo cães aos voluntários da associação de protecção dos animais que se entrincheiraram num barraco encostado à via rápida porque muitos animais deixam cães-de-férias nas bermas, chamo cão ao "serra" que trouxe por burla de beira de estrada depois de passar e dizer ao meu filho, que não se calava que queria um cão, estás a ver, estúpido?, ali queriam duzentos euros por um canito, aqui pedem vinte,
e a cara do miúdo, um rui da raça dos boxers anões que não deve muito à inteligência do pai,
estás a ouvir o teu pai? percebeste a lição de vida? ali duzentos, aqui vinte!!!!.
e a cara do miúdo já só retinha o brilho do "serra" de focinho negro e cara castanha a olhar para ele,
chamo cães aos tipos que ainda não conseguiram entender a nova forma de circulação das rotundas, mesmo que eu acelere todos os dias, de manhã à ida para o trabalho e à noite à vinda, para chegar perto deles e lhes buzinar no focinho,
chamo cadela à minha sogra e chamava cão ao meu sogro antes de ele quinar,
chamo cães aos ministros,
chamo cães aos deputados,
chamo cão ao meu filho e cadela à minha mulher quando há razões para isso, e há todos os dias,
ganhámos uma viagem em time-sharing mas era um problema para deixar o "serra", não achava correcto deixar o bicho sem comida, apesar da voz média do café ser de que tendo quintal os bichos desenrascam-se, afinal são animais e têm é de caçar, e a verdade é que eu tenho quintal mas não achava bem deixar o bicho sem comida, disse ao rui que íamos levar o "serra" de férias e ele todo contente, a verdade é que, como já adivinharam, o "serra" virou um rafeiro magro e feio e não cresceu, ladrava sem controlo sempre que eu não estava em casa, porque quando eu estava conhecia bem as minhas botas, então ensinei uma lição aos cães da associação e, mal meti na via rápida parei na berma junto ao barraco e atirei o "serra" para o mato, não sei porque é que a mulher criticou, eu fiz as coisas com princípios e não deixei o "serra" em qualquer lado, atirei-o para o mato junto ao barraco e gritei
- agora divirtam-se, cães!
e ri-me mas depois tive de me controlar porque o miúdo percebeu tudo e chorou até ao algarve, quer dizer, não até ao algarve, avisei-o na estação de serviço de salvaterra que se não se calasse apanhava, ele não se calou e em alcácer apanhou mesmo e ficou a choramingar mas isso já não me incomodava, chegámos à praia e enquanto eu discutia com a tipa do time sharing que parece que afinal não era de graça o puto já estava todo contente na poeira do estradão para a praia com o balde e a mãe, porque não tinha mais nada que fazer, a limpar-lhe o ranho e eu a gritar com a tipa, depois de chegar a acordo caminhámos os três quilómetros pelo estradão até à praia, foi um negócio do caraças,
o mal,
o mal é que a partir dessa noite comecei a ter pesadelos que todos os cães que o pessoal deixava nas bermas sabiam o que eu tinha feito e me cercavam a casa,
aquilo incomodou-me tanto que eu já não queria voltar, mas não havia mais dinheiro,
eu fui preso no inverno seguinte por causa desses pesadelos que não paravam e eu fiquei doido de dores de cabeça e falta de descanso e de umas falcatruas com as facturas da oficina, coisas que eu nunca percebi porque toda a gente fazia aquilo e não tive uma única visita da puta da minha mulher e do atrasado do meu filho,
a prisão não me fez bem e eu voltei à droga e ao álcool, a gaja ganhou-me a casa e o filho em tribunal mas fodeu-se que eu não tinha mais para onde ir e escorracei o cão do badalhoco da entrada, a minha própria entrada, caralho!, para dormir lá eu e ela aprender uma lição, vocês não vão acreditar mas os cabrões dos cães da associação que recolhiam bichos das bermas também davam de comer ao cão do vagabundo que lá estava e tiveram o desplante de me vir perguntar se eu queria comida, e eu levantei-me
eu sou o dono desta merda, seus fdps do c!!!!!
eles olharam para mim com medo, mas acontece, tenho de confessar, que eu nunca mais me consegui levantar da minha situação, nunca mais ninguém me deu emprego com cadastro, sabem que eu cheguei a ser preso outra vez por desrespeitar uma ordem de afastamento da minha própria casa, mas quando saí voltei à minha entrada mas como estava tão fraco e já não falava nem me dirigia a eles, a  minha mulher já não meteu outra acção e deixou-me em paz, os subsídios acabaram e o pessoal do café já não me queria lá que eu não me desenrascava a tomar banho em lado nenhum, confesso que os cães da associação me chegaram a deixar sacas com comida na minha porta que os cães verdadeiros me roubavam se eu não estivesse atento, mas quem nunca me ajudou foi a cadela da mulher e o atrasado do filho,
como se eu tivesse culpa,
como se eu tivesse culpa,
dá-se que os cães da associação sabiam de quem era o "serra" e o guardaram para o regresso do atrasado do rui, mas parece que o bicho morreu de desgosto, eu ia lá saber, claro que isso era inventado, mas o puto nunca mais me perdoou,
mas quando souberem onde estou agora mesmo,
quando souberem onde estou sem me conseguir mexer
vão perceber que o puto tem maus fígados, além de atrasado é mau como as cobras, porque já se passaram os anos daquela merda do "serra", e mesmo assim o tipo não esqueceu,
um dia em que eu já não tinha forças nem para abrir os olhos o gajo, sangue do meu sangue, puxou-me para o banco de trás do carro, eu pensava que ele me ia levar ao hospital porque já nem sentia as mãos, mas o cão do rui meteu para a via rápida já passava da uma da manhã e guiou toda a noite e deixou-me aqui no fim do mundo, abandonado como um cão,
eu só sei que é alcácer porque o atrasado do rui me disse, entre dentes, com uma raiva de cão, acho que até espumava de prazer, composto e controlado que até metia medo,
foi em alcácer que perdi a esperança, em alcácer a perderás tu
já não como nada há três noites e três dias e ninguém aparece
eu acho que o cão calculou esta merda ao milímetro
esta noite sonhei com o "serra" a lamber-me as feridas
grandessíssimo filho de


PG-M 2015

2015-06-26

da noite de são joão

vim para longe e esqueci-me do material de apoio
não tenho o apuro analítico nem o esquema
da multidão, só a fome envergonhada e o medo
do dia em que o dinheiro faltou
e pensámos todos juntos
não que os poemas não devem ser fáceis e gráficos
mas que está tudo fodido
tenho as caras radiantes da noite
de são joão, as mãos a empurrar
para um lugar maior
tenho o tempo que sobra

dos gritos

fica o corpo ofegante e o choro suspenso sou forte
sou forte sou forte outra vez um grito
outra vez o silêncio outra vez um grito
outra vez o silêncio

e quando nem eu nem tu nem a multidão
trazemos para o cubículo produtor
a memória descritiva do paraíso
da noite de são joão
e escorre dos tabiques formais uma lama
sólida que é raiva e fica a raiz do mundo
marcada a vermelho na matéria branca
dos olhos
temos esta mania

da poesia



PG-M 2015



2015-06-11

poemadasolidãomoderna


No grande open space, que nunca poderia ser traduzido por espaço aberto, os likes corações e sorrisos gráficos trocados entre ecrãs leitosos pelas portas da madrugada são agora sombras espessas que circulam entre o wc e o lugar e o lugar e a máquina de café ou então nem se movem não se olham não perguntam não se tocam não se cheiram trocam ordens pelo mensageiro interno e enviam mails e ao almoço fotografarão a própria refeição para durante a tarde comerem comentários. Ali ao lado, uma mulher chora com a cabeça garrotada, sem perceber porquê. Ninguém a ouve e se a ouve não a lê. Ninguém a vê e se a vê não a suporta. Andam todos apagados e silenciosos no open space a carregar os dedos e os torsos de lítio para não cegarem perante os amoleds. A mulher que chora suplica apenas o abraço, mas os abraços estão muito vistos para partilhar. Ainda assim uma velha companheira que ela pensava já reformada (não, nunca faltei um dia) aproxima-se e levanta o telemóvel no ar. Fotografam-se abraçadas e com sorrisos inéditos. A mulher que chorara agradece e transita para o wc a pensar que agora até os abraços são frios, como ossos empilhados. Senta-se na sanita e chora outra vez. Salvem os migrantes, lê ela no jornal gratuito. Lembra-se da fotografia de uma Beach na sanita a fotografar-se enquanto o filho pequenito mama como se tirasse um café de cápsula. Liga-se ao wifi e inscreve-se, pela primeira vez, no instagram. Pensa que a seguir terá direito ao seu café de cápsula. Sorri, mas no espelho não aparece sorriso nenhum. Já estava online. Daqui a minutos vai começar tudo de novo. No grande open space, que nunca poderia ser traduzido por espaço aberto, os likes corações e sorrisos gráficos trocados entre ecrãs leitosos a meio da manhã são agora sombras espessas.

PG-M 2015
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AAmizade





Deixem-me lá escrever algumas sentenças sobre a amizade.

Não se pode pedir amizade. Mas pode-se aceitar amizade.

A amizade exige a aprendizagem do silêncio na presença do outro.

No outro amor o bom silêncio é uma consequência de uma espécie de paz, que alguns chamam felicidade.

Toda a amizade é desinteressada, os favores são espontâneos e não têm conta corrente.

A verdadeira amizade não exige presença, muito menos imposição física, mas o amigo real nunca adia uma pulsão de contacto e sabe ler os constrangimentos.

O amigo nunca pesa, a amizade é um objecto leve, quântico.

Os amigos nunca são numerosos, porque saber sê-lo é uma das mais raras virtudes animais. E pode-se ficar muito amigo de alguém num só dia, mais do que de muitos numa vida inteira. Precisamente por uma espécie de osmose ou leitura química dessa virtude.



PG-M 2015
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carta aberta à dona paula pela arte em oncologia

dona paula, nesta carta vou tratar-te por tu, mas sempre por dona paula porque toda a gente na escola de fornos de algodres te conhece por dona paula,
dona paula, tu entregaste-me aquele livro de arte em oncologia e abriste-o na página que tinha um texto teu onde tentaras expressar o teu fim do mundo quando te diagnosticaram carcinoma mamário tipo ductal grau III scharff e bloom
dona paula, eu fotografei o texto e disse que o queria ler com calma e prometi que depois te diria alguma coisa
dona paula, este é o depois
reparei, dona paula, desculpa ter reparado nisso, mas reparei, dona paula, que nada em ti ou em qualquer auxiliar de educação da escola de fornos continha a abdicação da vida que vejo nos olhos cinzentos de muitas auxiliares de escolas urbanas que já desistiram da vida e andam como sombras a limpar a gordura e os papéis amarrotados do mundo
na sessão para os meninos, foste dar para assinar o livro sem ninguém e levaste-o contigo
e à saída trouxeste-me o livro de arte em oncologia e abraçaste-me
o abraço cheirava a um campo de júlias e o teu cabelo doce ao vento com uma figueira no meio do terreno
tenho a dizer, dona paula, que a dor estampada no texto como uma espada japonesa que nos vaza para nos sair o mal todo não supera a dor de te ter lido os olhos e visto cada cena de cada minuto da tua vida e tu a subir, sempre vigorosa, uma escada sem fim com morcegos humanos - cegos como os outros- a bater-te no corpo sem clemência
e o amor, dona paula, o amor tamanho na tua cozinha e nas escadas que esfregaste e nos soalhos que poliste e que, medidos, fazem mil vezes a distância de fornos a fátima
dona paula, parece breve esta solidão, mas eu sei que não é,
e é por ser longa e dolorosa que te dá o tamanho que tens

sempre aí, imperial, mãe, mulher, gigante, forte, doce
 
falámos dos estacionamentos repletos dos serviços de oncologia, das filas nas cantinas dos serviços de oncologia, do texto da sessão que ofereci aos meninos e onde o cancro é uma manta negra tão disforme que nos cobre a todos e faz chorar e tu, dona paula, apareces ao trabalho com esse cabelo de campo de júlias e esse corpo erguido e cheiras aos anjos que mimas no teu texto

não te sentes tantas vezes esse mimo, esse palhaço pobre da vida, dona paula, em frente ao espelho a compor a maquilhagem que parece sempre descomposta?

e não valerá pelos encontros dos que no coração encerram apenas bondade, dona paula?
como tu e eu e aquelas meninas de olhos húmidos que nunca nos querem deixar partir?

não te queria escrever isto tudo, dona paula, queria apenas uma frase, no máximo um parágrafo, que tivesse o teu enorme tamanho, mas cujo corpo sintático se situasse no meu tórax e na tua face e se insinuasse como um abraço, assim, encaixadinho sob tudo e sobretudo, e então pensei que precisava de uma fotografia tua para acompanhar esta carta aberta, uma fotografia tua, mas eu sou mau para caras, dona paula, procurei, procurei no meu arquivo a fotografia que me deste ou pelo menos parecia que tinhas dado, mas não tinha a certeza de nada, dona paula

nenhuma chegava perto da tua beleza

e então pus o teu nome completo no google, o nome com que começas o artigo no livro da arte em oncologia a dizer que estás ali e estás inteira, e apareceu logo a tua fotografia em primeiro lugar

então percebi: não devia ter escrito nada.
apenas:

"depois de fornos e do teu abraço, é assim que te vejo"

e mais nada, dona paula. é assim que te vejo, e, se é assim que te vejo,

eis-te

agora assina-me por trás da fotografia com a tua letra redondinha e conforme bilhete de identidade e por cima do logótipo do fotógrafo mais antigo das beiras que chegou a fazer uns trabalhos em fornos e vem inteira


PG-M 2015
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2015-06-10

Cerejal

para lhes mostrares, na cidade, que lhes pode acontecer o mesmo que a ti e que elas não nascem em sacos hermeticamente fechados e depois pesados nas balanças de precisão nem dos caixotes à beira da estrada.

a dona isabel, à entrada da quinta, tinha cerejas no regaço e estendeu-me um cacho
"leve-as aos seus"
a minha mente urbana leu "cerca de dois euros só neste cacho"
e a dona isabel, apontando para a serra
"e se quiser ir comê-las das árvores há um cerejal bem no topo do monte"
a minha mente urbana leu "tu nunca vais subir ao topo do monte"

a dona isabel era a primeira empregada reformada da quinta, disse, passava os setenta e tinha este gosto, subir sozinha ao monte e colher cerejas perfeitas para as oferecer aos amigos e aos passantes
"sabe o que é isto?" - abriu a mão  com folhas verdes e flores brancas, desfeitas
a minha mente urbana reconheceu a tília, ela pareceu desiludida
"a cidade chega sempre cega, o senhor é de cá perto?"
disse de onde era, da terra dos cegos

depois a dona isabel despediu-se com um aviso
"se subir ao cerejal, pode comer as que quiser, mas não as ponha para sacos"
e reiterou, "pode comer até aqui", traçando o queixo com o braço, "mas não as prenda em sacos"
cheguei ao carro com aquele cacho perfeito
as mentes urbanas dos meus fizeram-nos abrir as bocas em deslumbramento

quis subir ao monte, que em meio século nunca tinha estado num cerejal nem comido cerejas das árvores
o resto ascendeu de imediato à condição de mito.
estava uma brisa quente e o sol oblíquo com o cotovelo no caramulo. as cerejeiras parecem chorões burgueses dando as folhas como costas de mãos e cachos resplandecentes sem qualquer contenção

demorei muito tempo a começar a comê-las
fotografei-as, filmei-as, esta ridícula urgência urbana de estar sempre a suspeitar de que nos estão a oferecer um momento a que nos vamos agarrar quando os nossos pés dividirem o chão com o abismo

depois agarrei as mãos das cerejeiras, os ramos que são uma espécie de dedos anelados de folhas e cerejas na palma
comi cerejas sem limite e pensei que a maior parte do prazer e da consciência está na escassez
a escassez das coisas
a escassez da vida

e não, não fui urbano, não trouxe uma só nas minhas próprias mãos ou o meu próprio saco
ainda andei de mãos dadas com as cerejeiras do cerejal, a brisa rompia o silêncio e o sol oblíquo, enfim, detem-me os clichés e promete-me que não vives muito mais tempo sem procurares e agarrares os dedos de um cerejeira e te unires às cerejas e era veludo vermelho na capa real do alfaiate dos montes

para lhes mostrares, na cidade, que lhes pode acontecer o mesmo que a ti 


PG-M 2015
fotografia do momento

2015-06-06

És tu, mulher lisboeta

Hei-de escrever-te um épico sobre os jardins suspensos de Lisboa
e os maravilhosos subterrâneos do metro onde encontro sempre
as mais bonitas de todas as mulheres do mundo
e as pessoa apinhadas têm uma sonoridade especial ou então as multidões
que esperam no cais quando a composição se demora
do outro lado
esperam focadas na superfície ou perdidas no infinito
se deres uma de Marina Abramovic e as fixares com emoção
vais parecer mais do que um maluco
casos há em que uma tristeza elíptica se torna redonda e, por vezes,
perpendicular à tua, casos esses em que pode ser tudo,
mas já não é tristeza. Entretanto,
voltarei aos jardins suspensos para te escrever o épico.
Terá uma heroína com uma beleza nunca vista
que retirarei do metro ou de uma repartição pública
És tu, mulher lisboeta, ainda mais bonita do que isso.
Isso é Lisboa.
Prometo.
Cross my heart and hope to die.
Entretanto apaixonei-me.


PG-M 2015
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2015-06-01

Bárbara ao mundo

Há um cometa na Madalena que tem a qualidade de estar sempre visível e de ter um brilho constante. Esse brilho constante, dizem, é dos planetas. Também se aceita: afinal a Bárbara é tudo isso: cometa, planeta, universo.

No desporto tendemos a glorificar o sucesso, os títulos, a técnica, as estrelas, mas sabemos, quando estamos sentados nas bancadas de um pavilhão, que o nosso amor, a nossa admiração, nem sempre incide sobre os fortes - as mais das vezes torcemos pelos mais fracos ou pelos mais marcantes. Quando se assiste a um jogo ao vivo, olhamos e lemos o que bem entendemos no espectro do jogo: podemos seguir um só detalhe, um só jogador, um só fiscal de linha, durante o tempo todo. A verdade é que são todos os pormenores, juntos, que dão corpo ao jogo, não apenas os elementos centrais.
Hoje venho falar-vos da excelência que também se lê dessa forma. O nome deste tipo de excelência é conhecido: chama-se humanidade. Há muitos virtuosos que guardam a virtude só para si: a Bárbara estende-a pelo mundo. E destaco-a de um fim-de-semana onde houve vários campeões. Ontem, ao assistir, na nave de Esmoriz, a um jogo de voleibol da fase final de cadetes femininos onde se discutia o quinto lugar, entre a AA São Mamede e o C Atlântico da Madalena, os nossos olhos, num misto de ternura e admiração, seguiram sempre aquela menina número 17, do Atlântico da Madalena, do princípio ao fim do jogo, e estas linhas são uma crónica de celebração dela.
Bárbara ao mundo.
Porque a Bárbara, que fez dezasseis anitos o mês passado, merece um prémio qualquer, que não de latão, e já se faz tarde. Uma homenagem preliminar, se quiserem, antes do tempo todo passar sobre ela. Não será a única. Mas é única. Vemo-la e ouvimo-la desde pequenina progredir naqueles courts de voleibol, nos corredores, nas bancadas, sabemos que é impossível estarmos tristes à beira dela, passam os anos e ela não esmorece. Com o cabelo frisado preso num rabo de cavalo e um sorriso rasgado que leva ao limite em todos os jogos, tão ao limite que por vezes chora de intensidade, a Bárbara, capitã na derrota ou na vitória, corre os pavilhões deste país a abraços. Literalmente a abraços. Colegas de equipa, público, árbitros, adversários, todos já levaram o seu abraço doce que redime. Afinal, esteja em nós a tristeza da derrota ou o entusiasmo da vitória, o abraço da Bárbara é como um nível. Um nível é um instrumento que marca a horizontalidade de uma linha ou superfície, fundando-se na diferente densidade do ar e da água. Quando a bolha está quase a rebentar, o abraço da Bárbara apazigua. Ela toma as dores dos outros, muitas vezes à custa de si própria. E, se o comportamento dela fora do campo é por todos conhecido e apreciado - ainda ontem, sendo uma fase final, pudemos ver a Bárbara correr todas as equipas que estavam no pavilhão, depois de uma derrota, a abraços, alguns bem longos; a Bárbara comove porque nos mostra, afinal, onde está a substância do desporto -, o comportamento dentro do campo não é muito diferente da menina que corre os pavilhões há uns bons anos, com a voz rouca que protesta ou estimula, e é capaz de atravessar várias vezes o court todo a dar ânimo às companheiras, como, em jogo, numa mesma jogada, chega a servir, a ir ao chão salvar bolas perdidas e a atacar com eficácia.
Lembro-me de estar na bancada e, observando a Bárbara, comentar com o meu filho, que tem a honra de jogar no mesmo clube, que era há muito o fã número um daquela menina, daquela força da natureza. Depois do festival que ela nos proporcionou ontem, impus-me tirar-lhe esta fotografia escrita e deixá-la exposta aos anos. A Bárbara nunca vai envelhecer porque tem em si uma certa eternidade. A Bárbara é uma festa.
E corporiza muitos dos sentimentos que a timidez, a reserva, o pudor, não deixam outros tantos demonstrar: a Bárbara é afecto puro, o nosso e o dela. A Bárbara é ímpar.

Ontem, em Esmoriz, se a Bárbara olhasse do campo para a bancada, veria vários rostos comovidos com a sua beleza, que é toda e que é a todo o tempo. O prémio não é de latão, é de ouro: e a metáfora estafada serve-nos para o troféu. Bárbara de ouro.
O nosso troféu é ela própria.
Campeã absoluta em todas as modalidades e de qualquer forma que olhemos para ela.
As nossas lágrimas e os nossos sorrisos foram sempre acolhidos por ela.
Doravante as lágrimas ou o sorriso dela serão sempre acolhidos por nós.
Eis o pedestal que ela merece.
Eis Bárbara ao mundo.


PG-M 2015
foto propriedade de Esmoriz Ginásio Clube