2015-05-29

Too good to be true

Hoje há muita gente de ressaca em Fornos de Algodres.
Hoje eu estou com uma ressaca emocional das valentes por causa de Fornos de Algodres.
Esteve um dia magnífico, a viagem desde o Porto correu bem e eu cheguei uns vinte minutos antes da hora prevista. Ao passar pelo Tribunal de Fornos, decidi parar. Eu fui a Fornos como escritor, mas, como sou advogado, a minha ideia era procurar a sala dos advogados, tomar um café e saber como vivia o tribunal esta nova reforma. Pois. Não há tribunal, este foi um dos deixou de existir (um rápido aparte, porque a crónica não é sobre tribunais: uma colega juíza em Viseu contou-me uma história de resistência e cidadania que não foi noticiada a nível nacional, e é muito recente: quando o Tribunal Judicial de Viseu mudou de instalações, não há muito tempo, os funcionários do Tribunal de Trabalho de Viseu, em más instalações há muitos anos, mudaram o tribunal todo, de noite, em segredo e em protesto, para o edifício desocupado, a que a Câmara ia dar outro destino, e a verdade é que acabaram por ficar lá).

No edifício do Tribunal de Fornos de Algodres funcionam os serviços de registos e notariado. A Débora, uma das alunas que colaborou comigo na preparação da sessão, tinha-me dito que a mãe trabalhava lá. Entrei de mansinho, tirei a pinta da mãe da Débora e perguntei-lhe se era mesmo. Era. Quando cheguei à escola já levava que contar. No fim do dia, contudo, as emoções eram tantas que um só corpo não as consegue conter a todas. Daí as ressacas sucessivas. É por isso que eu costumo dizer que o amor é sobre-humano, voga numa dimensão paralela e vai descendo sobre nós.

A ideia era, ao arrepio de todas as desconfianças, burocracias e bloqueios mentais e sociais, cumprir um sonho que há muito eu próprio alimentava e que ia cumprindo, parcialmente, pelas escolas: construir uma narrativa que incluísse toda a assistência. Não pura ficção, mas apoiada em factos e características dos alunos que iam assistir à sessão. Pedi dois representantes por turma, e eram três turmas, do 10º, 11º e do 12º. Com eles trabalhei durante uma semana de forma a ter material de trabalho para escrever a intervenção. Numa iniciativa assim, como é fácil de perceber, há muita coisa a vencer. O mundo aberto de notícias e a histeria instalada impede-nos de dar colo sem correr riscos de sermos mal interpretados, seja onde for. E durante esta semana eu senti esse medo, essa desconfiança, que chegava de várias formas e em vários silêncios e resistências e é naturalíssima, num país de egoísmos e predadores primários. A meio da semana de trabalho, quase todos os pais já tinham ido pesquisar quem era o escritor (por isso é que a mãe da Débora me reconheceu de imediato) que estava a preparar uma intervenção com os seus próprios filhos, ainda por cima num contexto mais conservador do interior português, e o facto de terem encontrado entrevistas televisivas e alguma projecção mediática aquando da saída dos dois livros ainda piorou as coisas:

 o que quer um escritor do meu filho ou da minha filha quando ninguém se interessa por nada?

Too good to be true.
Foi essa deliciosa ideia, essa deliciosa dúvida, o "demasiado bom para ser verdade", que se colou a todo este projecto. E ontem, à saída de Fornos, a boa incredulidade mantinha-se em todos nós. É tudo demasiado bom para ser verdade. Os meninos e as meninas, entre 15 e 19 anos, tiveram de embarcar com entusiasmo e acreditar que era pelo bem. Eu próprio me podia maçar com a mais leve sombra de suspeita sobre a bondade das minhas intenções, mas já há muito percebi que, contra a histeria, é marchar, marchar. Marchar sem olhar para trás até, realmente, os ter enroscados no nosso colo e já nada mais importar e todos, dos professores aos pais e aos próprios alunos, perceberem que, às vezes, os milagres descem à terra. Uma amiga, comentando apenas o resumo e o princípio da sessão de Fornos, aventou que me poderia chamar de santo, mas já sabia que eu ia dizer que santos eram todos menos eu. Até porque a beleza e o entusiasmo, muitas vezes, também é estético, de cheiros, de olhares, não apenas de intenções e pedagogia puras. Mas eu respondi à minha amiga Carla, na brincadeira, que ontem me senti tocado pela santidade. Caramba! Caramba!

Ontem, durante a sessão, algumas pessoas choraram, eu estive lá perto.
Eu tinha consciência de que, ao tocar na substância desta ou daquele pessoa, em geral (os medos de todos, as aspirações universais) ou particular (as saudades de um ente querido, de um amigo, a solidão, a incompreensão, os sonhos), podia haver comoção. E houve. Como o auditório era plano, fiz como tenho feito nestes casos: empurro a mesa para trás e encosto-me à dita, meio sentado, meio de pé, para que todos me vejam. Quando percebi que havia meninas a chorar, nos dois casos em que isso aconteceu (e ambas são personagens fortes), pousei as folhas e fui dar-lhes um beijo. Pedi desculpa. Não é minha intenção ultrapassar estes limites. Mas também sei que pode ser o melhor dos sinais. E houve muitas, muitas, muitas e francas gargalhadas. Vou aprendendo o ofício do cómico, e de como é difícil. Há umas que resultam sempre, outras que raramente resultam, outras que resultam num dia ou num lugar, mas não noutro dia ou noutro lugar.

O maior conforto foi, confesso, poder olhá-los a todos nos olhos e ter à minha frente, de pé, professoras e directores, e, sentadas na primeira fila, as sete meninas que comigo colaboraram directamente, todas elas maravilhosas, mas de que destaquei a própria Débora, que superou todas as minhas expectativas, leu os dois livros e um conjunto de poemas durante essa semana, e leu-os bem, tão bem que me desconcertou profundamente: pensei como é possível uma menina de quinze anos alcançar uma compreensão tão profunda da literatura no meio de obrigações e testes e aulas e saraus, etc. E hoje outro pensamento me assombrava: se não acontecessem estes contactos, vários mundos continuavam sem se tocar. A semana passada não conhecia uma Débora nem uma mãe da Débora. Nem a Laura que veio falar comigo depois da sessão sobre teatro e me fez descobri que há uma comunidade vibrante que promove a cultura na aldeia de Carapito, Aguiar da Beira. Nem a Mariana, ó Mariana dos olhos amendoados, que, no final da sessão, esteve vários minutos muito direita com aquele olhar puro a fixar-me, olhos muito abertos, como se me estivesse a fazer todos os exames da maldade e da bondade: eu autografei-lhe o livro, mas esqueci-me de lhe dar um beijo, e eu tinha imposto a mim próprio que abraçaria todos os que quisessem ser abraçados. Então chamei-a de volta para isso e ela voltou a ficar ali, em frente a mim, certamente com as conclusões do diagnóstico. Nem a incrível Vera, que tem qualquer coisa que se projecta da sua figura que, ela sim, nos faz querer aspirar à santidade. Nem a belíssima Babá, de cuja beleza ninguém me avisou em tempo e depois a gente fica meio aparvalhada a trocá-la de nome com a Faby, que, ela também alta e bonita, leu com uma força quase imprópria (isto é um elogio) o final do meu poema "Caixa com mulher dentro", foda-se para esta merda a tua mãe/ é sempre a mesma coisa adormece/ a ver a novela e um gajo que se lixe/ e um gajo se lixe,/ meu amor" (houve leitura colectiva, sim, levantava-se um e dizia um verso, levanta-se outro e dizia outro, e foi tão bonito). Nem a Lety, que é maravilhosa e está proibida de duvidar. Nem a voz profunda da Sandra nem o sorriso da Ritinha. Nem a força do Cabeças (que presença, rapaz!), nem a delicadeza do homem dos músculos, o António. Nem a entrega das professoras Isabel e Fernanda, a simpatia do director António (e a classe da Dona Amélia, uma auxiliar que me levou o Livro sem Ninguém!), nem a forma como aquele abraço final da Dona Paula, outra auxiliar que parece um anjo, me comoveu (e um dia falarei dela melhor, porque em Fornos havia a dor da perda oncológica em todo o lado, nela, na Isabel, e em mim - porque eu era para lá ter ido com o Luís). Nem a resistência à dúvida da Alexa, que a superou. Nem o colo da professora Anabela. Nem a integral e completa Ana Raquel, que é já uma mulher encantadora (ela desconfiava que era mais crescida do que pensava, agora tem a certeza). Nem a doce Diana. Nem a agridoce Mia, que parece frágil e forte ao mesmo tempo, doce e ácida, com um humor delirante e inteligente, mas também violento, mas que me encheu todos os poros com uma personalidade relevantíssima que tem em si todas as possibilidades de grandeza: a Mia tem naquele olhar curioso, luminoso, uma dor certa. Não sei se uma dúvida sobre si própria, mas ela entende-se pela própria natureza - da Mia uma só certeza: todo o mimo será pouco. É, pois, a mimalhinha-mor.  O que eu mais ouvi no fim foi "gostei de ti" (para os que me fazem a vontade do tratamento por tu, que rompe tantas barreiras) ou "gostei de si". A professora Fernanda até mo disse na cara, coisa rara: "Gosto de ti, Pedro." E hoje eram as saudades, a ressaca, que passa facilmente os montes e vales que separam o Porto de Fornos. Então e eu? Então e eu, caramba? Ainda por cima, nada do que eu deixei acima exclui qualquer outro que não vai mencionado nesta crónica, nem podia (seria deselegante, por exemplo, dizer que por lá têm a professora de educação física mais bonita do mundo...ups...já disse). Simplesmente não é possível. E, de cada vez que eu fosse pescar à minha memória de ontem, seriam outros os nomes aqui. Porque eu olhei todos nos olhos, até um nome que omiti por lapso, mas estará na versão final, o do Bruno Bush (mais um da família Bush, próximo presidente americano na segunda metade do século XXI?).

É por isso que houve lágrimas, outra vez, nos abraços finais.
O amor é sobre-humano e desce sobre os corpos, vai lá dentro, enche-nos até nos deixar a explodir e depois parte, ficamos zonzos, sozinhos, sem abraços. Não é possível o abraço permanente, esse é o problema.

Tenho de interromper aqui.
Percebi que tenho muito mais a dizer e não cabe aqui.
Aliás, há uma intimidade que nasce deste dia maravilhoso que não cabe em lado nenhum, muitas vezes nem dentro de nós.

E não há colo tamanho.

PG-M 2015

2015-05-23

Os putos de hoje não valem nada

 O difícil é explicar a uma criança, ou jovem adulto, cujos olhos brilham no lugar para onde se retirou para ninguém reparar nele que - por momentos - é o centro do mundo. Porque esta é a explicação do curso do afluente da vida onde, muitas vezes, todos os corpos parecem flutuar sem ela (vida), simplesmente em direcção à foz: os dias são uma sucessão de quedas para o centro e embate para as margens. Somos o centro do nosso mundo de manhã e, à tarde, postamo-nos tristes nas margens para que ninguém repare em nós, porque nos dá um acesso agudo de realismo e percebemos que não somos nada. E, sendo essa consciência condição de lucidez, é importante explicar a quem ainda não teve a sorte de algum amadurecimento que não, que é mentira, que não és irrelevante, e que o que os velhos muito velhos de todas as idades dizem nos cafés antes de irem aos correios receber o subsídio de inutilidade,

"os putos de hoje não valem nada"

é mentira.

"estão sempre a olhar para os telemóveis ou para os computadores"

até acontecer que tu os tocas e eles levantam a cabeça.

Até acontecer que tu lhes tocas e eles levantam a cabeça.

Até acontecer que tu lhes tocas e eles levantam a cabeça.


Um bom amigo que já me morreu ensinou-me a sabedoria de, na vida pública, nunca usar superlativos com pessoas ou instituições, para que todos se sintam estimados por nós. É uma sabedoria válida para nos cultivarmos a nós próprios. Mas, e se, por um momento, só de quando em vez, cultivarmos os outros? E se falarmos de nomes, sem que isso signifique apoucar os omitidos? Eu aqui vou falar de alguns nomes, mas é um facto que, nos meus olhos e no meu peito, ficaram muitas imagens intensas, até alguns abraços, que não vou, não posso, nomear.

Há uma razão para ter demorado a escrever esta crónica.
O arrebatamento é um sinal de influência do divino nos corpos. E aqui o divino talvez não seja dos deuses, talvez seja o amor, o mesmo que venho identificando como tendo uma natureza sobre-humana. Entrei na escola Anes de Cernache, em Vilar de Andorinho, terra do meu bisavô escultor, pouco antes das dez da manhã. Estavam previstos noventa minutos para a sessão de apresentação do escritor à comunidade escolar. Noventa minutos é hora e meia. Mas eu só saí da escola às cinco da tarde. O último rapaz a deixar-me foi o Xano, futebolista, que nem sequer lê muito nem é grande barra a português. No entanto, eu sei que, vida fora, ele vai hesitar quando passar por livros e vai parar quando passar pelos meus. Está explicado, em dez segundos, o meu objectivo máximo na missão que me impus quando me deram o privilégio de ir às escolas cair no colo de pessoas que têm todas as possibilidades em aberto e por isso ainda não foram devorados pelo cinismo. 
E depois a professora Isabel teve uma ideia perfeita. Quando eu me calei, no fim da intervenção, ela passou uma folha branca por aluno e todos me dedicaram umas palavras. As folhas estavam furadas e foram arquivadas todas juntas numa capa artesanal previamente trabalhada pela turma de artes e pelo professor Manuel Tavares, que aliás fizeram um trabalho belíssimo e inédito em torno de uma fotografia do meu bisavô escultor, sob iluminação da professora Ana Paula. E, pela primeira vez no final de uma sessão, a professora Dora teve de conter a vontade de alguns terem o seu exemplar do livro assinado na minha presença porque havia muitos outros que já não estavam ali, tinham deixado um post-it com a razão de ciência. Curiosamente, todos voltaram depois do almoço, quando souberam que eu ia ficar à espera deles. Venderam-se neste escola perto de quarenta livros, no conjunto, quando raramente passam da dezena. E, afinal, eram três nonos anos. O professor Abel Cruz tem uma dedicação excepcional aos livros e à biblioteca, o professor Paulo, que fotografou, uma dedicação excepcional às crianças.
 Depois ficaram os escritos, difíceis de suportar.
Porque os putos de hoje, não só valem muito, como têm um potencial adormecido que, quando estimulado, nos oferece respostas que nos deixam gagos. O fenómeno mais comum nas escolas onde me dão tempo é dialogar com elementos excepcionais que depois explicam que têm más notas. Não é surpresa. A escola está asfixiada por burocratas e depende da excelência de alguns, alunos e professores. Tem um modelo esgotado e não, o modelo revolucionário não é o que protege os meninos e tem medo que a avaliação os traumatize. Qualquer criança a quem sejam dados instrumentos, espaço e alento, funciona. E, entre estas, algumas que riscam o seu percurso escolar com rebeldia e revolta, são génios que escorrem entre as mãos de professores que, muitas vezes, sabem do potencial deles e nada podem fazer, agrilhoados como estão.

O Vítor Felix, 14 anos, escreveu-me assim e emocionou-me:
"Da primeira vez que te vi, achei que ia ser como os outros autores, uma apresentação rápida e sem muito interesse, mas não, cada vez que falavas colocavas um sorriso no rosto que abria os meus olhos e a minha imaginação. Fizeste-me pensar na vida e nos livros. Quando tu explicaste as minhas dúvidas, deste-me grandes exemplos da tua vida, e foi aí que eu disse: "Vou trabalhar, vou conseguir ser feliz".

Não procuro mais nada, Vítor.

Quase todos agradeceram coisas simples como olhar para eles, ouvir e sorrir.
WTF????
Estamos mesmo reféns de paranóias?
Nos EUA, desde cedo, mas principalmente ao nível universitário, o aluno é verdadeiramente acolhido como um par. Eu acredito, profundamente, que se tratarmos todos como pares, não só potenciamos tudo de bom neles, como nós próprios aprendemos. Aprendemos muito. E depois: os abraços e os mimos não ocupam espaço. E até aquilo que torna muitos paranóicos, a tensão sexual, as paixonetas, o encantamento e o arrebatamento descontrolado, funciona dentro da maior normalidade se a proximidade se construir olhos nos olhos, com verdade e sem subterfúgios. Os afectos são facilmente descodificáveis quando verbalizados e não oprimidos. Todos eles são o centro do nosso mundo, também, só não são o único centro e eles sabem disso. Aliás, sabem-no bem demais, e é por isso que se colocam, quase sempre voluntariamente, à margem.

Não vou citar o conteúdo de todos, porque muito dele é tão elogioso que me ficaria mal.
Mas quero aqui deixar registado quem se dirigiu pessoalmente a mim, por escrito, e me tocou:
A Ana Pinto (a sabedoria é tua), a Diana Barbieri (quanto empenho e dedicação), a Rafaela Anjos (o que eu quiser? está bem), a Ana Ramos (vou relfectir de volta o que escreveste), o Pedro Lima (a obrigação encantada), a Catarina Gonçalves (obrigado eu), a Inês Moreira (o ponto de vista novo e, está bem, eu digo aqui que és a melhor filha do mundo!), o João Ferreira (a beleza), anónimo (eu leio, ao princípio, porque não consigo ordenar as ideias espontaneamente e estou mais nervoso do que vocês), a Inês Sousa (espero que a tormenta tenha partido), a Catarina Silva (a melhor voz e a melhor conversa são as tuas), o Tomás Gonçalves (um leitor conquistado), a Natacha Pinto (a nova vontade de ler), a Viviana Silva ("as palavras são a base do mundo"), o Ricardo Leitão (se eu sou importante na tua carreira, tu és na minha), a Joana Lima (a curiosa), anónimo (honra minha), a Diana Patrícia (FCP forever: eu também estarei aqui sempre, eu também tenho os meus inexplicáveis), anónimo (nova leitora), Ana
 Rita (o fenómeno do tu), o Rui Martins (a linguagem altamente difícil, mas natural), a Rita Gonçalves (leitora dos dois livros, que bom!), Isabel Aragão (nome de rainha, mensagem de princesa), mais sete anónimos (a adoração da manhã), a Filipa Moreira Carvalho (o negativo e o postivo: da próxima leio os excertos eu; claro que gostei de te conhecer), a Inês Serra (também me cativaste), a Renata Pinto (e a dedicatória à mana, que acabou por ser dela própria), Leonardo Soares (o maior escritor, já se sabe, com esta barriga - obrigado por veres a dedicação), o Fábio Tavares (cativante também tu e, sim, lê os livros), o Bruno Sousa (que usa intelectual como elogio de uma forma originalíssima, e diz "foi a primeira vez que estive com um escritor deste calibre" - que vaidade, Bruno!)  anónimo (a primeira vez que ouve um escritor que descreve tão bem tudo à sua volta), o Alexandre Ferreira (pede-me para ter confiança em mim próprio; acho que este é o Xano, o peixe do Wallace), o Pedro Silva (sobre a maneira de expressão), o Tiago Santos (a percepção), a Vanessa Carvalho (a experiência bonita), a Maria Beatriz Silva (a lição de
vida), a Andreia Pereira (as palavras inspiradoras e o homem simpático e divertido), o Vasco (Blue eyes), a Bruna Campos e a Andreia (e a expressão clara da leitura), a apresentação da Ana Rita (adorei a apresentação, e sim, um abraço e um beijo, como pediste), o Cristiano Hipólito (leitor e a oportunidade melhor), a Diana Teixeira, as Professoras Maria José Soares, Maria Carlos e Maria João, o professor de design Rui Santos e o Manuel Vieira (obrigado por lerem o livro), o Tiago Cunha das estrelas, a Inês Matos (pelo silêncio empenhado).

Os putos de hoje são estratosféricos e lindos.

Não procuro mais nada. Não é preciso mais nada.


PG-M 2015
fotos de Paulo Almeida

2015-05-15

9 da manhã

 
às nove da manhã estou atrás
do balcão de madeira mais
propriamente um tipo raro
de castanho muito mais
escuro do que aquilo
a que o senhor está
habituado e vai
começar o meu
último dia de
cinquenta
anos de
casa

o patrão vendeu a loja aos chineses

deixei o carro num lugar de ninguém
como é costume desde que eles
instalaram os parquímetros
mas não pintaram o
rectângulo final
tomei café no
vitorino que
eu já venho
comido de
casa

vendo
tabaco e harmónicas
o patrão usa um casaco
de lã de inverno ou de verão
e tem um cofre negro no escritório
mas leva sempre o apuro embrulhado para
casa

vendo
bem já ninguém
compra tabaco em lojas
rigorosas com coisas relevantes
penduradas nas paredes e expositores
do melhor vidro e poesia nos guarda-pós que
o patrão substitui meticulosamente todos os dias
por outros novos mais cuidados do que os fatos que
ele guarda no armário para se mudar antes de regressar a
casa

vendo
bem já ninguém
quer harmónicas,
já ninguém quer harmónicas na
rua
já ninguém quer harmónicas em
casa

estou com a lagrimita quando
o patrão fecha a casa pela
última vez amanhã
as trancas vão ser mudadas, o balcão,
o imenso e majestoso balcão,
vai ser desmantelado
e a vitrina forrada
a mandarim
ficou um acordeão
esquecido no alto
do armário
maior
ai meu deus, senhor caius,
disse eu a olhar por mim
abaixo, não tirei
o guarda-pó
é para si, antónio,
deixe estar

cortámos pela travessa da rua chã, como sempre

quer boleia?
não, senhor caius,
deixe estar
ele entrou na 4L
a carreira chegou logo e
ainda virou à esquerda para o tabuleiro de cima
da ponte dom luís, ainda passou para gaia
ainda se cruzou com tróleis
 
lá em baixo, no cais da estiva,
a ribeira descoseu os vultos
dos caixotes
e todos gritaram alto vai-te foder e todos
riram abraçados e entraram
nas tascas e nas
casas
nos varadins estreitos as mulheres preencheram
a falha do estendal com camisas brancas
puseram a mão na ilharga e umas
também se riram e outras
choraram

ai o tacho ao lume

ao longe a arrábida soprava
a noite para a foz e
a afurada ouvia
o amanhã
às nove da manhã
se me forem ver
procurem devagar
e com cuidado o meu
lugar em casa

voltarei eternamente
sou de cá tenho
harmónica
não tenho 
mais nada 
o acordeão ficou
esquecido no alto
do armário
maior



PG.M 2015
fonte da foto

8 da manhã


às oito da manhã sobre o rosto
a lâmina e dentro dela a
espuma e na figura o
medo e no jorro
o tempo
e um minuto
depois o sulco e nem
segundos depois o
sangue e na vizinha
toca nirvana

come as you are

e eu vou


PG-M 2015
fonte da foto - de Getty Imagens, Kurt Cobain

2015-05-10

Atlântico campeão nacional de voleibol

 E aí está. Há três anos campeão da 3ª, há dois campeão da 2ª, há poucas horas o nosso Atlântico da Madalena sagrou-se campeão nacional da 1ª divisão. Só com portugueses. Num jogo épico, em que esteve a ganhar por 2-0 e teve oito match points no terceiro set, permitindo a redução do outro grande finalista, o Castêlo da Maia, com um 35-33 (!!!) - grande jogo do Castêlo - e depois de se deixar empatar a 2, o Atlântico venceu a negra por 15-13, levando o pavilhão do Castêlo (repleto de gaienses) ao rubro. 
Parabéns também ao Benfica, que venceu nos Açores e inaugurou um novo título máximo, campeão de elite. É uma página histórica para Gaia. Ficam abaixo, em vídeo, os momentos finais do jogo do título.

2015-05-09

letra kitsch para música insigne por escrever que pode vir a ter como título nunca me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

 Deixa-me um cartaz na estação de são bento a dizer que ainda me amas e procura o meu corpo entre os trapos e os cartões e as garrafas que o carro do lixo recolheu às quatro da manhã do vidrão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me andar pelos cantos da cidade com o resto da verdade e fome e sede e saudade perdido nas veredas do progresso e na delícia gratuita do índice médio de sucesso e felicidade e qualquer modo social de agressão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me encontrar o teu olhar no reflexo de uma loja quando eu estiver diluído no granito que dá consistência às moradas dos que vivem por cima dentro das portas sem fome e deixa-te ficar a analisar os itens que consideras adequados para aquisição no próximo pretexto ou ocasião,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um abraço dos nossos filhos na soleira onde eu dormir quando eu já não puder vir por ter sido removido de ambulância paras as macas dos corredores do santo antónio em urgência humanitária e diz-lhes que há muitos poemas que explicam o fracasso do pai no projecto da nação,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um sinal de memória no foyer do crematório do cemitério do prado do repouso ou entre os altares abandonados dos outros mortos decentes dos jardins do além e canta baixinho aquela nossa canção remendada a cuspe com os restos que tens no coração e no meridiano de todos os amores que vivemos à vista de um instante de paixão mas

nunca, nunca, nunca

me deixes morrer de tristeza nas noites de verão 


cantada por PG-M (2015)

2015-05-04

as mãos


olha as mãos distintas da mãe
segurando a travessa a caminho
da mesa
olha a tristeza

subindo pelos fumos do jantar
olha as minhas próprias mãos roçando a toalha de linho
junto ao joelho da prima e olha para ti depois de tudo
fraco para evitar que da revoada ou da bruma
volte a descer o desgosto
o pai tinha uma mãos bonitas que nas costas e nas falanges
tinham pelinhos curtos que à morte foram brancos
e ainda cingimos quentes porque nós,

já velhos, esperámos no quarto o fim
como em meninos a alvorada

um de cada lado do pai de mão dada pela alameda dos plátanos
que no verão era a infinita lonjura
da ventura
e na primavera o trilho infausto dos amores
no outono as folhas de pontas caídas
no inverno as próprias mãos do pai
mais do que os casacos e os chapéus
e os galhos suplicantes
até nos encostarmos à cerca de cimento caiada a branco
da estação
e quando os comboios passavam
o pai nos puxar para ele e as mãos
nos guardarem


perpetuamente


como matéria negra onde
explodem supernovas
e bailam trajes de luzes
pelas eras

terás mornas as mãos dos que amaste
entre as tuas e os laços dos dedos

atados para sempre
olha as mãos dela apertando os livros
ao peito e a travessia

contigo, olha as mãos
a velar o sorriso, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e as mãos enfim
entre as tuas ou em concha
sob os frutos
olha as mãos dele sem saber onde ficar
na vertigem do cruzamento
com ela, olha as mãos

nas algibeiras, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e os nós
sobre os teus no curso
dos afluentes

olha as mãos dos bebés a dar-te
virtude
olha as mãos das crianças a dar-te
guarida
olha as mãos dos amigos e
os braços que em partes
da vida são inteiros

amparos

olha a piedade
das mãos dos maestros
em todos os aplausos
que abriste
olha as mãos dos médicos
a erguerem tabiques

entre os medos

olha as mãos dos professores
no giz que alumia
o quadro negro
olha as mãos que pungem

as teclas e erguem as forcas
dos números, de como é devassa
a hierarquia
olha as mãos no gatilho
das pistolas com os canos apontados
às bocas
olha as mãos nos microfones
dos que falam sem voz
de como é deus

o nada

olha as mãos dos músicos a pedir
esmola

olhas as mãos dos escritores
na ocultação exacta
do inútil
olhas as mãos dos pintores
no cosmos do traço
exordial
olha as mãos dos escultores
na evidência da
amputação


olha as mãos que formaram violinos
do arame farpado e descansam
com perdão e lágrimas
nos dedos
desfeitos os punhos que combatem a memória olha as mãos
sinaleiras sobre as mãos sinaleiras


olha outra vez a piedade
das mãos sobre o teu rosto
olha as mãos dos padeiros sobre a fome


olha as mãos de tribunos sobre o

brio, olha a espada nas mãos
de magistrados e padres
nas mãos de profetas
olha filósofos em silêncio e mãos
no ar e o riso troante
nos campos finitos e no mar
olha as mãos dos pescadores
olha as mãos dos poetas a chorar
olha as mãos de polícias

a abjugar e a arder
como as mãos de bombeiros
olha as mãos dos carpinteiros na

saciedade e as de troia
em todos, todos!, os cavalos
olha as mãos dos sapateiros
nos caminhos por fazer
olha as mãos na água por beber
olha as mãos na terra por comer
olha as mãos da avó
a pelar as castanhas cozidas
e as mãos do avô nas malgas
de vinho e nas conchas
de sopa

olha os abraços à porta das aldeias
olha a piedade do vento

nas mãos da turba e a solidão
das mãos do mundo inteiro
nas mais longas auroras e agora
olha as mãos da mãe a ceder ao inverno, lassas
da forma que deram aos colos, doridas
da leveza que ofereceram às
almas
e aos solos
olha as mãos do pai
como galhos suplicantes
o pai na alameda dos plátanos de chapéu e
casaco, por fim



PG-M 2015
fonte da foto

2015-05-01

notas sobre a grande audiência, ídolos, whiplash e rosselini


O lado bom da grande audiência. Sou lentíssimo a arrumar a cozinha, gosto de intercalar a tarefa com a televisão, porque há dias em que só a vejo a esta hora. Vejo o sempre excelente jornal do Pedro Mourinho, salto a meio do Marcelo e depois, de costas e entre pratos, se os suportar, os programas que se seguem em ambos os canais. Curioso o que hoje me fez mudar de canal, já depois do palhaço Raminhos. A dose de lamechice da Cristina e do júri no pós-dança da Cuca foi tão exagerada e artificial, que eu, telespectador burro, como eles pensam, percebi logo que alguma coisa se passava no outro canal. Estreia do Ídolos, pois. Tenho de agradecer a este programa o serviço que prestou a uma canção que eu amava sozinho desde 2008, quando alguém se candidatou com ela ao Ídolos de 2012 e fez dela um sucesso nacional. Apesar de o sucesso de uma música ter tendência afastar alguns melómanos, o "Anda comigo ver os aviões" é uma bela letra kitsch e, para mim, a mais bonita canção que se escreveu nos anos 00. Mérito do agora mediático Miguel Araújo, um letrista e músico genial, que já tem municiado, por exemplo, o Zambujo (que também a cantou). Portanto, o Ídolos faz esse serviço público. Nesta fase de castings nortenhos (o nosso sotaque é o mais bonito do mundo), farto-me de chorar a ver aquilo. A brutalidade "whiplash" já vai incorporada em alguns concorrentes, e isso é bom. É evidente que por lá passam bons músicos, mas também é evidente, e outra discussão, que muitos dos que lá vão querem um sonho rápido, não propriamente trabalho, - mas não se pode censurar isso a pessoas tão jovens. O Abrunhosa nunca passaria, o Camané nem pensar, o Bob Dylan seria gozado, o Leonard Cohen mandado embora de fininho, a Madonna era corrida com insultos, só para citar alguns. Na volta do comando, vi dançar na 4 um casal de jovens com trissomia 21, ela tinha um sorriso tão bonito que comovia. Voltei a chorar. Fico sempre sem chão com o afecto sem filtros. Achamos que é muito cool, muito in, socializar à estalada, e estas pessoas, com que também me cruzo por razões profissionais, fazem-nos sentir ridículos com o amor incondicional por todos, mesmo pelos que conhecem mal. E estou de coração cheio tendo engrossado as audiências, que sou capaz de abandonar para vos vir contar isto e, agora, ler. À tarde vi Roma, cidade aberta, do Rosselini (bendito ciclo) e voltei a chorar - a cena não podia ser mais simples, mas o óculo do Rosselini sabe muito: o padrasto aconchega o enteado, um menino de uns seis anitos, que ele não sabia ter sido cúmplice, nessa noite, com o grupo de crianças de que fazia parte lá no prédio, e cujo líder era o Romoletto, de um atentado com uma bomba artesanal aos nazis que ocupavam Roma, e pede-lhe para contar o que se passa, o menino diz que não pode, que é segredo, o padrasto conforma-se, se é segredo, guarda-o, e, como amanhã o padrasto se casa com a mãe (Ana Maganani), o menino pergunta:

- A partir de amanhã posso chamar-te pai?
 - Se quiseres.
 - Sim, quero.
 E diz o menino:
 - Te voglio tanto, tanto, bene.
 E abraça-o, sob a macro de Rosselini.

  Não há nada de transcendente em nada disto, nem eu estou particularmente fragilizado, mas a vida - não necessariamente a felicidade ou a tristeza - é assim mesmo. E isto faz-me pensar. O que é magnânimo, afinal? A nota densa, complexa, do Whiplash, do Ulysses ou da Recherche ou os aviões do Mendes na voz transparente de um miúdo ou o abraço do pequeno enteado no desarmante preto e branco do Rosselini? Eu acho que é tudo, se não se limitar a passar, como a garota de Ipanema, ou mesmo ela, se regressar a nós. Boa noite e boa semana. 

PG-M 2015
fonte da foto


Euronews



Euronews: não sei se foi por isso que o Guterres escolheu este canal para dizer que não é candidato a candidato, mas aproveito para dizer que o canal é para mim, há muito, um modelo de qualidade, e na última hora fiz um apanhado para poder dizer que ouvi, sempre interessado e com um razoável nível de profundidade e rigor, notícias sobre política, religião, economia, tecnologia e desporto, e em cada área informativa nem sempre domina o óbvio. O desporto é disso exemplo. Aliás, não houve futebol nesta hora, mas esgrima e pólo aquático, entre outros, sem perda de interesse. Já sei que não percebo nada disto, mas, como espectador, sei o que é a mediocridade. Estar sempre a repetir os mesmos temas e falar cem vezes de cada um não é qualidade. Muitas vezes espanto-me como deixam de dar notícias que até são vendáveis como bons momentos televisivo. Claro que isto acontece porque, na lobística que serve de funil, às vezes de forma evidente, às vezes de forma indolor, tal não é admitido. É preciso dar minutos ao mais visto e se for mesmo mais visto é repetir e repetir e repetir. A Euronews, aliás como eu já percebi também com o El País, chega a dar-me notícias sobre Portugal de forma mais esclarecedora e com mais qualidade e objectividade do que qualquer tasco de notícias da pátria. Era isto.

PG-M 2015
fonte da foto

Esse abraço foi surpreendente

 Título:
Vimos é de vir e de ver, vir no cortejo, ver o céu impossível, assim, ah sim

Corpo:
Ensina-me. O silêncio é baixinho? Conheces? Já viste onde trabalha? Não é na secção quatro da repartição sete da rua chã? Não é o único do jardim interior que usa casaca lisa sem condecorações? Ensina-me. Ensina-me a escrevê-lo. Abro parêntesis. Espaço. Fecho parêntesis. Já está. Oh, então canta-me qualquer coisa, estou tão cansado, não quero falar mais. Vimos no cortejo dos carros pretos e o céu tão claro que é impossível. A tua canção são gemidos em duas oitavas, não percebo nada, mesmo nada, mas continua, a música é mesmo assim, porque me haveria de emocionar o teu volapuque? A verdade é que emociona. Então sorrimos. Não preciso que me ensines isto. Já sei ler. Sei ler, ainda que os sorrisos sejam textos raros. Há poucos nas nossas idas e voltas e idas e voltas e idas e voltas. Com efeito, aparece um por semana, e aparece sempre assim, à sexta-feira. Ah, sim, peço perdão, adeus, bom fim-de-semana. Esse abraço foi surpreendente. Ensina-me. Tens cinco minutos?

PG-M 2015 
fotografia do Porto (Pasteleira)

voltou

voltou.
voltou esta coisa que me regista numa faixa acima ou abaixo da vida e do mundo que escorre regular, peço o dobro dos cafés e bebo-os e pago-os feliz, imagino que por fora os meus olhos sejam uma espécie de vidro com espirais, não é loucura, isto não é loucura, é um labirinto sem paredes, um parque aquático seco no meu corpo tubular e as pessoas a fluir por dentro aos gritos e às gargalhadas e eu vejo em cada esgar o sentimento enciclopédico de todos os imperadores e de quem os serviu e de quem nunca os serviria, como diria o Fernando, uma criança a ler as horas desde o gato, um menino a render-se a uma máquina fotográfica, um velho a nascer, já vos deixo em paz, mas a verdade é que já nada mais me serve, serve-me isto e isto não é sempre assim
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PG-M 2015

Selfie


É curioso como olho para este lugar, cada vez mais, como um lugar vago, com a cara da solidão, apesar de tanta gente, como se visse desfilar uma multidão parda e silenciosa e conseguisse ouvir algumas conversas de circunstância - queríamos que fosse aquele permanente almoço barulhento entre amigos, em que tudo o que dói fica suspenso - ou o jantar alaranjado com fumos de forno e um tinto denso em que nos levantamos para ir buscar um copo e ouvimos uma gargalhada a puxar outras e o ar corpulento, como o vinho, e não pode ser sempre assim, vimos por aqui bem intencionados para que alguma coisa nos mova, ou apenas para deixar imagens maiores do que nós e assim completar a ilusão do nosso tamanho, preocupa-me, preocupa-me não valer a quem ainda não aprendeu que a vida tem de ser um esforço permanente de levar o sangue ao ponto de ebulição, mesmo em plena tristeza, podes estar sereno perante uma paisagem arrebatadora, em silêncio, e profundamente triste, como aqui, de olhar vazio para o ecrã azul e branco, mas o sangue tem de passar espesso e em alta tensão, sempre, não é um programa de saúde, não é sequer um abraço, há momentos tão desventurados que queremos é que nos deixem, que não nos toquem, que não nos falem, vai a multidão parda e tu podes agarrar num braço, sair dela, sentares-te a tomar um café e uma conversa de disparates levantar a película aderente dos nossos dias e sem querer estamos a consumi-los, a comê-los como deve ser, e até o trabalho, um bom dia de tensão, pode salvar-nos da incomensurável tristeza, aflição, ansiedade, medo de falhar, estamos aqui no centro de um multidão parda e podemos, sem demagogia ou lamechice, dar o grito de várias formas, e a infinita dolência, como a infinita alienação, são duas gémeas a percorrer os corredores do hotel e o melhor que tiramos daí são vários Jack Nicholsons que espreitam a todas as portas sem querer, realmente, saber. Se formos capazes de manter o sangue em ebulição, pousar o telemóvel, desligar o pc, abrir a boca e ouvir, fazer barulho e calar, nada do que é bom é contínuo, nada do que é mau é contínuo. Está gente fosforescente a sair da multidão parda e a encher as margens, há um rumorejo que cresce, já ninguém promete cafés ou jantares, já ninguém adia para depois da morte, já todos seguiram o bom exemplo dos velórios e funerais, onde homenageamos o outro, não a nós, onde cuidamos dos que os cuidaram, não de nós, onde não nos fotografamos, onde descobrimos um tempo impossível, em vez de nos ocuparmos a afastar todos para longe, e agora eles, os fosforescentes, falam, eles falam todos uns com os outros. Que raiva, dizem. Olha, dizem. Ouve, dizem. Caramba. Caramba.

PG-M 2015

Ana de Amsterdam e Thomas Bernhard

 Outro dia, em plena leitura cúmplice, ia escrever "como é bonita Ana de Amsterdam".
E depois de Thomas Bernhard senti-me enganado.

Aqui por casa todos se riam quando eu dizia que nunca tinha lido ninguém tão inconveviente, bruto e insensível para a sensibilidade média das cidades e do mundo como o Thomas, e no entanto algo de luminoso sai de cada linha, a textura das frases é fresca e redentora, e não é exactamente o que vi dito dele na imprensa, com os graus superlativos e comparativos do costume, como se o tempo já tivesse acabado ("Herberto cortou o século XX em dois", vejam bem, e nem sequer foi incluído nos quinze anos que adentrou o XXI). Do Bernhard há passagens perfeitamente loucas, que foram apenas o exercício desse direito, de ser louco. Ana tem um timbre quente, às vezes fervente, mesmo quando diz que está triste. Se Thomas tivesse dito mal do Porto como, por exemplo, de Salzburgo, eu ia sorrir e aproveitar a oportunidade para evoluir. Mas Thomas está morto e esse diálogo faz-se de outra forma - quando vivo, poucos entre os visados aproveitaram a oportunidade para evoluir, pelo contrário, cerraram as fileiras da mediocridade. Já Ana está viva, bem viva, e é desconcertante e estimulante. É um teste de hipocrisia que se podia comprar nas farmácias como os testes de gravidez. E uma verdadeira páscoa. 

PG-M 2015

O adeus do mestre, mesmo que não seja


As asas do vento, do mestre Myazaki, que ele próprio anuncia como a sua última obra, não é bem um filme, ou não é apenas um filme, é um momento. Realmente vê-se o mestre a dizer adeus a toda a hora, em cada traço, na música que escolheu, pelo génio de Hisaishi, na forma como os próprios sons das máquinas são humanos (não é a primeira vez, mas é a mais intensa). Também não é o melhor filme dele, porque não é um filme, é um comovente e longo adeus. Até acho que ele vai fazer mais, mas já será o começo de outra coisa qualquer. Podiam é ter demorado menos de dois anos a estrear. É impossível não ficar comovido com esta inscrição do adeus na pele. Ao menos a alegria de o irmão de armas, Isao Takahata, o tal autor do melhor filme de sempre (mesmo entre os não animados: O Túmulo dos Pirilampos), ter um novo poema à porta dos nossos cinemas: depois da Mononoke, a princesa Kaguya.

PG-M 2015

o poeta a dar à pata para um verão interior



O poeta a dar à pata para um verão interior. Estranha hoje a sensação de pedalar, realmente pedalar, na hora do almoço, a ouvir o próprio Herberto a dizer os seus poemas. Creio que já posso falar de Herberto. Quando o povo o fez seu, à morte, quando o descobriu mesmo fingindo sempre tê-lo conhecido (não há logro moderno mais belo do que esse), e encheu os murais de colagens, os pequenos-animais-donos de um Herberto inventado, exclusivo e marginal, correram, desvairados, furibundos, os quatro cantos da própria jaula, e alguns escolheram um silêncio sujo. Eu só quero dar testemunho de coisa incrível que hoje me aconteceu, ouvindo-o. Normalmente o que ouço em exercício físico é para me distrair do sofrimento muscular e respiratório, e o efeito é desligar uma certa auto-consciência, ou seja, foco-me mais no que ouço e menos no que faço ou vejo. Mas hoje, com os poemas de Herberto ditos pelo próprio, tudo o que me rodeava ficou mais nítido, as cores e as sombras mais carregadas, e mesmo na paragem, quando tiro os fones e recebo a imagem da ponte Dom Luís e da largueza daquela curva do Douro, ali em Gaia, junto ao estaleiro dos rabelos, de frente, e me sinto privilegiado por ser daqui, tudo foi diferente, as palavras cósmicas do Herberto ligaram-me a carne e a respiração ao detalhe do mundo. Eu chamo-lhe lucidez, mas nunca o esperei da poesia desta forma. Físico, como um beijo líquido com as línguas a evoluir até à incandescência ou um abraço de braços e pernas de dois corpos nus, o meu e o do mundo inteiro

PG-M 2015