2015-12-18

O conto invertido de Natal - parte V - secção a

(Partes I a IV aqui)  - não comece pelo meio

V - O SEGUNDO NATAL
 Na antevéspera do natal seguinte fazia um ano que Ojna
morrera na cama articulada da enfermaria.
Não foi o primeiro natal de Oinotna.
Meteu férias a vinte e dois e, como Airf,
fechou a porta de casa com as três voltas da
chave, desligou o telefone e o telemóvel e
tudo o que comeu ou bebeu foi o espaço
vazio de Ojna, que beijou na boca como
fazia desde bebé, sobre os foguetões 
desenhados no edredon

eu gosto muito deste edredon, pa

mas, provavelmente,
é demasiado infantil para a tua idade,
adivinhou o pai
Ojna socou o pai, que
encaixou, caindo inanimado
no foguetão maior,
onde agora estava

o espaço vazio,
o único lugar onde havia
vida no ano seguinte

Passou outro ano e o pai fez o mesmo,
mas o astuto Otnas,
amigo das horas todas,
conseguiu convencer a empregada doméstica a emprestar-lhe
a chave que desatou as três voltas e o tirou do espaço

Oinotna e Otnas, a dupla invencível!

o posso, amigo, não posso, desculpa.
Não desculpo e vais sair à minha frente. Não vamos ver
coisas bonitas, vamos ao segundo nível
das ruas, para lá dos pobres da sopa, vamos
aos que desistem, aos que morrem de frio e
de fome e de solidão, os clichés que os
cómodos usam para justificar a
abdicação, vamos ao olho
do inferno e depois, só depois,
deixo-te livre.
Era então a véspera do segundo natal depois
do fim do mundo de
Oinotna.  
Oinotna e Otnas, a dupla invencível!

Olha o cliché dos pobres da sopa.
Olha o cliché das carrinhas de apoio.
Olha aqui o cliché dos corpos que
passam a noite de natal debaixo
de cartões.
Este nem uma fogueira tem
por perto, só cartões e frio
na mesma 
Como é que te chamas?
(gemido)
Amigo, como é que te
(deixe-me em paz)
Tenho sopa quente e comida
(deixe-me em paz)
já jantaste?
(deixe-me em paz)
não te vou deixar em paz
(quer apanhar?)
não tenho medo de ti
(deixe-me em paz!)
vá, deixa-o em paz, Otnas.
(deixe-me em paz, já disse!)
olá, Narce.
(silêncio)
(deixe-me em paz)
olá, Narce.
Como Narce? Narce Oizav?
O pivô de televisão?
Ele mesmo.
(deixem-me em paz!)
Narce Oizav abandonou a fama vazia
para ser assessor de um político
e o político caiu em desgraça,
foi contratado por uma agência de
comunicação que fez as apostas
erradas, depois por um consultor
de bolsa onde, finalmente,
exerceu a licenciatura, mas
fez as apostas erradas,
isso eu sei, estive lá,
no mesmo open space
que engoliu os empregos,
tentou voltar à estação de
televisão,
mas nem sequer passou
a segurança,
os amigos também não -
- ficaram a acenar-lhe
da parte de dentro
dos torniquetes
quando ceava a fama
vazia, pediu sempre
para trabalhar na noite
de natal, porque não
suportava a casa
de quinhentos metros
quadrados, fora
logradouro,
e, vê bem, Oinotna, trouxe-te ao Narce
para nenhum conforto,
mas porque a vida ainda lhe conseguiu
tirar um filho como a ti e a muitos,
infelizmente muitos, cada vez mais

pode ser que abrande um dia,
pode ser que abrande um dia,
este não é o dia

e o Narce sumiu para dentro,
nas ruas da cidade que o
cultivou e exaltou e 
examinou;
há dois anos, quando Ojna
morreu, Narce
desapareceu do planeta
para este lugar,
e só as carrinhas de apoio
que o olham nos olhos e sob
os cartões a barba, sabem que
ainda existe;
deixou mulher em
pânico e filha pequenina
(foram embora)
sim, foram embora
emigraram para a américa

Oinotna ficou como a estátua da noite

Narce sentou-se, Otna deixou a mão
para ser apertada, Narce baixou
a cabeça e não chorou,
ninguém chora neste conto
invertido de natal;                  

Eu sei que costumas ir ver os natais nas janelas,
Narce
(sim - a voz sumida - mas muito mais tarde)
levas-nos?
(silêncio)

Oinotna, como a estátua da noite,
afinal está a chorar,
caramba,
afinal está a chorar

(levo)
(mas muito mais tarde)
trouxe um casaco para poderes ir jantar
connosco
(mas as calças não estão capazes)
é um sobretudo

Oinotna volta-se para Narce:
Desculpa perguntar. O teu menino...
(podes perguntar)
Oinotna estende-lhe a mão.
Narce baixa a cabeça.
Que idade tinha?
(nove)
Oinotna olha para Otnas.
Otnas estende-lhe a chave da empregada:
devolve-lha e agradece,
por favor.

Narce levanta-se.
(visto o sobretudo mais tarde,
venham comigo)
Passam junto à fogueira, a ceia é farta, as
pessoas sem casa exclamam
Olha o famoso! Saíste da toca, este ano?
Não nos apresentas os amigos? 

Narce aponta
para uma mulher magra com uma tristeza
incurável e vários trapos
sofisticados a sorver
a sopa ruidosamente
- aquela é a Emof, deu-me cobertores
na primeira noite
Emof diz:
- sabe-me bem comer a sopa assim

Narce aponta para um homem cego
que ouve um rádio
e come uma rabanada
tem uns óculos escuros azuis
marca Ray-Ban
- aquele é Zedicul, deu-me o primeiro
abraço quando cheguei
a esta comunidade que
reserva as melhores soleiras
deste quarteirão;
Zedicul diz:
hoje não há notícias

Narce aponta para uma mulher sem dentes
e cabelo vermelho
que chupa uma cabeça de
bacalhau
tem uma saia em patchwork
assim alinhavada: um quadrado com um menino sentado à carteira da escola cose-se a um quadrado com dois meninos de pé à porta da escola e este cose-se a um quadrado com um menino sentado à carteira da escola e faz o padrão que se repetiu pelas colchas em certos anos de certas modas. 
- aquela é Arugrama, deu-me o primeiro
alento, disse
isto é o princípio, não o fim
Arugrama diz
- adoro cabeças de bacalhau

Narce aponta para um homem obeso
que ouve tudo o que Narce diz quando
apresenta os outros
tem uma camisa azul às riscas com os botões
rebentados em baixo e a barriga à mostra
apesar do frio
- este (não aquele, porque este olha para
nós) é o Osso, que, se repararem,
é um nome escrito ao contrário
como Ana e todos os outros até
aqui, e, quando cheguei,
cedeu-me a sua única refeição
do dia.
Osso diz
nas nossas soleiras não se conversa,
sonha-se  

     
(secção b da Parte V aqui)  

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