2015-12-18

Conto invertido de natal - Parte V (secção b)

Parte V - (secção a) aqui

vão cear ao aeroporto
não vão de carroapanham
o metro vaziovelhos a ocupar a faixa
de rodagem com uma só muleta 
o aeroporto vazio
vêem banhos de sangue nos ecrãs gigantes e as pessoas
a dizer não temos medo e a vida normal
os olhos da empregada da grande cadeia
de restauração ficam acesos e as pestanas
parecem a difusão das estrelas e da
matéria dos homens, que - diz o Herberto -
é a mesmaa matéria dos homens que a olham e a
a matéria dos homens em geral, então o que temos
para a ceia de natal?
nada de especial, desculpe, nunca vem
ninguém neste dia, e a massa em
trânsito come o que houver

(tal como nós, tal como nós)

A ceia corre bem, é mesmo perfeita e quente,
com a luz certa e um murmúrio de
conversa, silêncio nenhum

quatro hambúrgueres, em vez de bacalhau,
e quatro francesinhas,
em vez de peru
finos, em vez de vinho quente

a menina dos olhos acesos não se calou um
segundo
quando acabam de comer, abraçam-na
todos, um por um,
e o vazio e o silêncio voltam
ao aeroporto
a menina dos olhos acesos
apaga-os   

Narce não chegou a vestir o sobretudo
para cear.
Veste-o agora para mostrar os natais
nas janelas. Continuam a pé
para a zona rica
(eu preferia ver os pobres, não
sei porque é que venho sempre
ver os ricos)
e se este ano mudasses?
olham ambos para Oinotna
o que achas tu?
Oinotna encolhe os ombros de uma
tristeza incurável, como Emof,
tanto me faz

vislumbram no topo os prédios
de vidro
e no vale as casas cinzentas
a deitar fumo
no topo brilham janelas junto ao
chãocomo no vale
(não sei como é que as pessoas compram
casas em rés do chão
que nem elevados são)     
decidem então descer
(neste dia é como se o torso
partisse ao meio, e é quase
insuportável a dor pela falta
de Lós)
a tua filha
(e de Aleb, também a falta
de Aleb)
a tua mulher
(mas Lós é o meu
corpo, Lós sou eu
decalcado)
entram no bairro e as
janelas estão acesas como
os olhos da menina da cadeia
nesta noite todas as casas estão quentes
e há couves com batatas e algum bacalhau
(venham por aqui, o ano passado - ali
está ela de novo - estive a fumar um cigarro
encostado à parede de tijolo uns bons trinta
minutos, e vi tudo, aquela senhora entrou
sem conhecimento, amparada pela filha,
chegada do hospício para passar o natal,
todos diziam não vale a pena mas pode ser que valha,
e valeu, a senhora chegou alienada, sentou-se
em frente às luzes do pinheiro, o cura, que é
primo, deu-lhe a mão e afinal a loucura não era
loucura, era uma tristeza curável que a própria filha
já tinha no rosto, não via uma emoção na cara da mãe
há vinte anos, desde a morte do pai, e vinha de compor
a travessa que dividia sempre com a mãe, excepto nos
natais que ela passou no hospício porque não valia a
pena, duas boas postas de bacalhau, batata, couve galega,
brócolos, tudo mergulhado em muito azeite, e viu a mãe
dar a mão ao primo cura e subitamente o conhecimento
subiu-lhe aos olhos, desceu à boca, a comoção foi tanta
que à filha caiu a travessa, mas ela, em vez de chorar,
riu, riu muito, riram todos, eu também, e o meu natal valeu,
mesmo sem Lós e Aleb, o meu natal valeu.)

viraram à direita            
(por essa rua não queria entrar)
alguma razão especial?
(moram aí os meus sogros)
eu sei bem que moram aqui
os teus sogros
Oinotna liga-se
Narce detém-se
Porque é que ela nunca se divorciou de ti?
Narce arregala os olhos, que ficam em
terror; não, terror não, medo,
não, medo não, entram numa
espécie de purgatório

(separou-se de bens)

separou-se de bens?
(por causa das dívidas)
mas nunca de ti
(não me faças isso)

confessa. tens vindo aqui todos os anos
a ver se os espreitas
em ceia de natal
(não, não, não! é mentira! isso seria o pior,
esperá-los perto e sabê-los longe)
 é verdade, pelo que soube,
passaram alguns natais na américa
(pelo que soubeste por quem?) 

Já nada importa a Oinotna, tem
um sorriso largo, temos todos
um sorriso largo, e Otnas diz
Entendes agora?
Oinotna sorri, Narce puxa
de um cigarro
(não me faças isto) 

entram pela rua dos sogros
postam-se na parede do
outro lado da rua,
em frente à janela acesa,
encostam-se os três à parede
de tijolo, Narce tira uma passa,
solta o fumo, atrás do fumo
vê os tufos dourados de Lós
de costas para eles e de frente
para a árvore de natal e
começa a chorar convulsivamente
(afinal sempre se chora neste conto);
a mulher, Aleb, não o ouve, mas
pressente, e toma a decisão
inconsciente de vir à porta
fumar, também ela, o cigarro
depois da ceia
Narce ouve a voz dela dentro de casa
"Mãe, vou só fumar um cigarrinho
e já ajudo"
dentro da cabeça Narce
quer fugir e esconder-se,
mas o corpo não se mexe

Aleb fecha a porta atrás de si e protege o isqueiro
e dá a primeira passa a olhar para nada
com um sorriso suave que inclui
uma tristeza incurável

passa a menina dos olhos acesos com eles apagados
a caminho de casa
reconhece Narce e acende-os e Narce,
apesar do pânico, responde
- Então por aqui?
(é verdade, por aqui)
Aleb não está a tomar sentido mas reage ao timbre de
Narce e a sua atenção
desce à rua
- Eu já despeguei e vou para casa cear.
a menina da cadeia prossegue
mas deixa os olhos todos
acesos
Aleb perscruta Oinotna com educação
acha-o tão triste como ela, talvez mais,
Narce está no meio e Aleb
não chega a Otnas,
porque no meio da rua, perante si,
se junta tudo o que reservara nos últimos
natais:
o passado, o som do choro convulsivo e
o timbre de Narce, o desespero e
a vontade, a raiva e aqueles olhos
pelos quais se apaixonara fazia
muito tempo       

"oh, meu deus, não é possível!"

(não tive culpa, não fui eu que quis vir,
foi uma cilada de amigos, desculpa)
ainda diz que não se chora neste conto;
Aleb atravessou a rua e não fez juízos,
abraçou-o e ficaram a soluçar
e as mãos subiram às bocas
as lágrimas aos olhos
de Otnas e Oinotna

Oinotna e Otnas, a dupla invencível!

"Ela não te pode ver assim, não compreenderia"
(falas da barba?)
"sim. espera aqui. não saias daí, ouviste?"
Otnas levantou a camisola grossa
tinha uma tshirt com uma gilette
desenhada; riram ou fungaram,
não se sabe bem
"Mãe, tens uma máquina de cortar cabelo?"
com gestos vigorosos voltou pouco depois
"entra por aqui, vai direitinho ao wc"

e durante um quarto de hora, sem saber porquê,
Oinotna deixou que a imagem do filho
dentro de uma caixa lhe invadisse a
felicidade que sentia, como se a culpa,
a grande culpa, não consentisse nenhuma
luz dentro da sombra eterna, nem os cheiros
do natal, Otnas abraçou-o e obrigou-o a
fumar, é um conto fora de moda, e passados
uns minutos veio Aleb à soleira entregar
duas canecas de barro de vinho quente
com canela e uma rodela de limão
"esperem só um bocadinho, já entram,
está bem?"
Não é preciso, não é preciso.
E ficaram ali a fumar e a beber vinho quente
e a ver Narce chegar à sala, e a menina,
de quem só viam os olhos e o cabelo,
teria uns seis anos agora,
a olhar muito espantada para o pai
e os sogros a chorar
(e não se chorava neste conto)
ouviram qualquer coisa como
"Lembras-te do pai nas fotografias?"
Lós, inerte, foi tomada nos braços
por Narce, que, quando tomou de
si a alma, se voltou para fora e
agradeceu com o olhar

que a menina da cadeira acendera            
    

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