2015-12-18

Conto Invertido de Natal - Partes I, II, III e IV


F I M:

I -  PERORAÇÃO
II - OINOTNA
III - AIRF
IV - O PRIMEIRO FIM
V - O SEGUNDO NATAL
VI - O ÚLTIMO NATAL
VII - O ÚLTIMO FIM
VIII - EXÓRDIO

I - PERORAÇÃO
Este conto de natal começa pelo fim
e em fade in:
o tríptico de notas musicais de um cântico de natal
que não é de natal, mas uma tragédia moderna, chamada
"Ceiling Gazin", de Mark Kozelek, um poema íntimo cantado
a olhar para o tecto, ou melhor, a ler a vida toda
no tectoao contrário deste, que pretende partir do
chão e ter a forma equívoca de um poema,
como a novela de natal de Dickens, que em
certas edições foi impressa e dita em verso - e todo o leitor
olha o texto de forma orgânica e a prosa, se aparenta verso,
parece mais nobre e eloquente. Não terá, contudo, a qualidade
da eternidade
- oh! uma rima espontânea! -,
como tem Dickens, nem personagens-tipo,
porque vivemos tempos de míngua de ideias e de sábios,
porque esquecemos de que o vento sopra da mesma forma em todas as épocas,
e as janelas cheias de neve criam a mesma ilusão em todos os natais
de todos os tempos, mesmo antes de cristo e apesar de
cristo e em qualquer religião,
em que a reunião
e o propósito colectivo temporário do bem são sempre a mesma coisa e o mesmo natal - já dizia Herberto Helder -,
a substância de um homem e de uma estrela,
a mesma.

II - OINOTNA
Assim começa o nosso conto: um pai coloca no topo
de uma árvore artificial
de natal
uma estrela que declara corporizar o próprio filho,
falecido três anos antes numa confortável enfermaria,
rodeado de palhaços e confetis;  neste natal, o pai
tenta provar à sua nova companheira, que ele conheceu
na mesma enfermaria há coisa de uma semana, quando
foi distribuir abraços pênseis e prendas simbólicas aos
enfermeiros e médicos que o ampararam no
martírio; dizíamos, tenta Oinotna, o pai, provar a Ana,
companheira dele e mãe de Azeralc, que a filha dela,
uma menina de sete anos internada no dia de ano novo com
mesma doença do seu filho morto, Ojna,
(reparem como Ana é um nome escrito ao contrário,
como Oinotna, Azeralc e Ojna)
pode vir a ter, num futuro de horror que Ana
antecipa todas as noites, a mesma existência
pacífica que o filho tem hoje dentro de si;
Oinotna e Ana estreitam os corpos
num primeiro momento, mas num segundo
ela arranha-o e empurra-o e morde-o, acusando-o de estar
a matar Azeralc antes do tempo,
mesmo que digam que ela já não tem
tempo. Oinotna reserva o arranhão
como marca de dureza de vida para um terceiro momento.
Já cá voltamos. Agora saimos daqui. De acordo, de acordo,
evitaremos as frases curtas para que o conto seja
clássico e possa ser recitado, depois de devidamente traduzido para inglês e dito pela voz off do James Earl Jones num filme de época, e, se ele houver morrido, que as maravilhas da técnica o desenterrem, como fizeram ao Nat King Cole naquele dueto com a filha ou
como enterraram vivo David Prowse, o actor que fez de
Darth Vader; na verdade, há três anos nem Oinotna nem toda
a família que se reuniu em torno do caixão branco de Ojna no dia de acção de graças, pensariam sequer em celebrar o natal seguinte,
e era isso que Ana se recusava a fazer desde que Azeralc
fora internada no dia de ano novo; é assim com todos os sofredores e desencantados da quadra, todos para quem ela significa apenas dor ou nojo, sejam próprios ou alheios,
mas este conto invertido contempla;


III - AIRF
 À conta de uma pasta crua de sentimentos que incluem
solidão, revolta contra os outros e contra os seus sentimentos
não autênticos, contra o desfasamento entre o declarado
e o feito, Airf tornou-se uma mulher amarga.
Em tempos, entretinha-se a destruir natais,
fosse da empresa, fosse das famílias que a
acolhiam como sua, fosse dos passantes
dos centros comerciais; agora
limita-se a ficar em casa como se não
nevasse lá fora ou não existissem renas
voadoras nem pai natal nem menino
jesus  e os presentes fossem o centro
da ignomínia do mundo; tem, claro,
uma televisão de mais de um metro,
colunas sem fio e iphone de referência
alta, muito alta, e sigla superior, tem
janelas de vidro quádruplo e
aquecimento central, tem
painéis solares e filtros
de água, tem
máquina nespresso e cápsulas
para um ano, tem
cinco metros de pé
direito e está encolhida
sobre si própria em
posição fetal; só já
não chora porque
tudo secou
dentro dela.          


IV - O PRIMEIRO FIM
 Atempo em que Airf recolhia a casa,
três natais atrás, Oinotna cingia
Ojna sobre a cama branca
articulada, estava primeiro sentado
com os pés de fora, depois tirou as botas
e meteu-se na cama com o filho, ele
riu-se; ainda dói? o doutor mandara
parar com a medicação e as injecções
dois dias antes da noite de natal,
e morfina com tento, para que Ojna
entendesse o presente do pai, nada
de sinuoso, tem de ser simples e
bem pontuado e ser percebido, embora um
menino de nove anos que adoece ganhe
a sabedoria que em mundo fomos
desalijando; é
uma lanterna de leds que, se
quiseres, dura uma noite
inteira e de manhã pedes
à enfermeira que a carregue
até escurecer outra vezOjna
iluminou-se e apontou para a concha
da própria mão, fez reflexo no
cateter, deu um abraço ao pai
e puxou-o para debaixo dos
lençóis e riram-se tanto que
a enfermeira passou

shhhhhhhhhhhhhhhhh!
ihihihihihihihih

não foi o pai que chorou
foi ele
estava feliz
não disse nada de eloquente
nem impressionante para uma
criança que sabe que vai
morrer; todos sabemos,
se tivermos sorte e tempo,
mas quanta ironia,
se é precisamente
sorte e tempo
o que faltou a Ojna;
Ojna
pediu ao pai para ir embora
queria dormir
deu-lhe um curto beijo na boca
como fazia desde bebé

Oinotna só aparentemente partiu

quando voltou atrás e espreitou
um tubo de luz corria ao lado
do corpo do filho
na cama articulada
da enfermaria

shhhhhhhhhhhhhhhhh!
ihihihihihihihih

(continua aqui)

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