2015-12-18

Conto invertido de natal - Parte VI, VII e VIII (final)

(não comece pelo meio: anterior aqui)

VI - O ÚLTIMO NATAL
 Entre o segundo e o último natal, Otnas, Oinotna e Narce
juntaram-se às carrinhas de apoio e foi só
o que passaram a fazer às vésperas,
e o que pensou fazer Airf,
em vez de em casa cultivar a solidão e o
desprezo por todos os que trilham a linha
média das coisas
Então Airf saiu à rua pela primeira vez em três
anos, e dirigiu-se ao bairro sem casa de onde
saíra Narce, e o que viu foi muito estranho,
um grande cartaz que se replicava pelos
lugares onde costumavam comer e dormir
as pessoas sem casa, e dizia assim

"hoje somos príncipes sob telha nPalácio X"

e dizia o nome do palácio,
onde, por acaso, Airf costumava ir a exposições
e conferências e a um ou outro jantar formal
da companhia que a empregava,
e caminhou para lá, abraçando-se a si própria
para afastar o frio
mas não o azedo na boca nem
incurável tristeza

À porta do Palácio X paravam carruagens
e um mordomo encartado anunciava
os títulos e as pessoas que saíam e
entravam para o baile de gala real
como se lia na faixa de vinil gigante
qutapava a fachada,
"I Baile de Gala Real de Natal",
e não dizia em lado nenhum
que era das pessoas sem casa,
mas era; Airf falhava uma
certa sensibilidade, e então
deixou que a raiva tomasse
conta de um lado de si que ela
pensava ser um modelo de altruísmo,
mas não passava de um espelho liminar
onde todos os teóricos vivem, como a
Alice num país sem maravilhas,
onde a música é sempre a menos ouvida
e o livro sempre o menos lido
e as pessoas sempre as menos parecidas
com as outras

Primeiro Airf tentou entrar no Palácio X
e foi vedada pela segurança
Depois Airf dirigiu-se à primeira princesa
e tentou arrancar-lhe a peruca
e foi vedada pelo príncipe,
a saber, um homem obeso,
que ouve tudo o que Airf diz
quando lhes tenta destruir
o sonho, e lhe agarra  o pulso e diz
"Menina,
ainda ontem eu era apenas
um homem obeso 
que ouve tudo o que os outros dizem,tinha apenas uma camisa azul às riscas com os botões
rebentados em baixo e a barriga à mostra
apesar do frio, e cedia sempre refeição
aos que chegavam de novo e dormia
na soleira do Banco Z até o pessoal me
enxotar às sete da manhã, mas, sabe,
nas nossas soleiras não se conversa
sonha-se, e eu,
que me chamo Osso,
deixei-me sonhar e hoje vou de
white tie cortado à medida e trago ao baile
de gala real a princesa Emof, que até ontem 
era só uma mulher magra com uma tristeza
incurável e vários trapos
sofisticados a sorver
a sopa ruidosamente
(mas sabe-lhe bem comer a sopa assim)
e hoje vem formalde brinco de camafeu
clutch

Airf, envergonhada,
deixa-se cair na escadaria e
Emof passa por cima, cobrindo-lhe
o corpo e o rosto com cetim
azul  
 Narce, o mordomo,
aponta para um homem cego
com óculos escuros azuis
marca Ray-Ban,
trajado de gala, nomeadamente
casaca em vermelho veneziano com paramentos
brancos do regimento de infantaria de sua
majestade, mas com um rádio de pilhas
nas mãos, que lhe pergunta
- Há rabanadas no baile?
(certamente, sua senhoria! - e faz-lhe
uma vénia) e o cego 
Zedicul ampara o seu par e dizhoje não há notícias,
mas pela mão traz
a mulher sem dentes e cabelo vermelho
que ganhara uns dentes novos
num patrocinador
e foi à televisão mostrar o antes e o depois
e diz discretamente ao ouvido de Narce
- adoro cabeças de bacalhau
(tê-las-á, Milady, tê-las-á),
e também gosto mais  
da minha saia em patchworkassim alinhavada: um quadrado com um menino sentado à carteira da escola cose-se a um quadrado com dois meninos de pé à porta da escola e este cose-se a um quadrado com um menino sentado à carteira da escola e faz o padrão que se repetiu pelas colchas em certos anos de certas modas,
mas chamo-me Arugrama e hoje sou rainha
e trajo uma estilista conhecida
cujo nome direi a todo o
repórter, vestido longo salmão
com brilhos e pedrarias, luvas e
sapatos de salto alto forrado a tecido
cujo andar treinei com as noivas de
santo antónio, colar de pérolas
sonhei a vida toda com
este colar de pérolas  

e assim por diante entrarão no baile de gala trinta
pares de príncipes e princesas ou reis e rainhas
Airf quis testemunhar a beleza,
mas o mordomo não tinha ordens e
e Otnas achou-a
apagada, mesmo cinzenta,
para abrir a excepção
Oinotna, contudo, não conseguira
convencer Ana a vir e veio ele
à escadaria tomar Airf
e acender-lhe os olhos,
habilidade que tomara
de uma menina de cadeia
no segundo natal
saiu no pasquim de vinte e seis,
porque o baile só terminou depois do
fecho da edição de natal, que no I Baile Real
de Natal se dançou
toda a noite e com propriedade
música de reis
nomeadamente todos os clichés de baile que Airf
teria condenado horas antes, mas era vê-la
evoluindo no soalho imperial do baile real
conduzida por Oinotna ao Danúbio Azul
na verdade, Airf,
estava tão macilenta que
quase não tocava no chão
ou seria elegante, na verdade
não levara vestido apropriado
e era a mais pobre da festa,
e eis que Arugrama e Emof lhe cederam
duas peças de estilo que a cobriram
para sobreviver, depois de Strauss,
à Valsa do Imperador, de Rieu,
que fez todos rir e crescer e no fim
eram mesmo príncipes e princesas,
reis e rainhas,
até Airf,
a quem Oinotna contou que,
pela primeira vez em três anos,
o peito tinha menos dor e não
sentia os círculos das pálpebras
como cursos agudos de sangue
abertos a navalha
   

VII - O ÚLTIMO FIM
Deve o conto abrir, porque é invertido, e não
fechar, como o texto clássico. Abrir como a vida,
que às vezes é como nos contos, fechada e
resolvida, e outras não é;
Nem Osso, nem Emof, nem Zedicul, nem Arugrama,
saíram do bairro sem casa,
mas nas soleiras deles continua a sonhar-se mais
e a conversar menos,
até porque casarão aos pares,
eles com elas,
e os bailes reais do bairro sem casa
se repetirão pelas eras;
Narce, sim, saiu, mas ainda não tem emprego,
tem esperança, e Lós também,
foram morar para o topo
junto ao chão,
porque Aleb lhe explicou
porquê;
Oinotna já não sente culpa por expressar
as emoções positivas, nem obrigação de
cultivar as negativas, mas,
por muito que isso fosse querido,
não podemos mentir no fim deste conto que se abre
ao infinito,
Ana, cujo nome está ao contrário,
abandonou Oinotna e não esteve em mais lado nenhum
deste conto, ou talvez num
só, que já recordamos;
No primeiro Natal, Ana era feliz
com Azeralc, mas no seguinte
começou a devolver Azeralc
à terra, arranhou Oinotna
e não saiu de junto da cama
articulada da enfermaria
o natal todo;
deu muitos beijinhos à menina,
que ainda se riu a ver televisão
e a ver os palhaços e as festas
com confetis e a sentir o mimo
dos homens e mulheres de sorte;
mas, como nem todas as tragédias têm de ser tragédias
o tempo todo, também nem sempre é possível seguir
em frente; Ana não seguiu.
Quando Azeralc lhe disse que estava tão cansada
era  dia de reis, Airf diria que a estrela de belém,
como corpo de crianças sem sorte,
é um insuportável cliché,
mas este conto fechará a transbordar dessa
matéria, a dos homens e das estrelas de que
falou Herberto,
Azeralc estava sentada na cama a receber um mimo
de reis; quando Ana lhe estava a explicar
o que ela podia fazer com uma lanterna
de leds com uma bateria extraordinária
a estrela de belém, no enfiamento da janela
da enfermaria, quase a cegou, porque
acabara de incorporar
Azeralc; quando Ana
olhou para a filha,
viu-a dormir sem sinais de
desfalecimento ou apneia;
quando percebeu a morte,
ela sim, desfaleceu,
e, durante os natais seguintes,
onde tudo para ela foi insuportável e
sem recuperação possível,
Ana
sentiu a culpa de cada minuto que
perdeu de Azeralc, cada momento
ao acordar, cada segundo a mais que
demorou a responder às chamadas
da filha, cada momento que passou
a fumar na varanda dos fumadores
da enfermaria, e isto não era só nos
natais, era sempre;
então morreu Ana
"talvez por delicadeza" ou de
uma incurável tristeza      


 VIII - EXÓRDIO
E este conto de natal é invertido porque acaba com uma
inversão de vida, felicidade e até de tristeza,
no sentido mais profundo das estrelas, cuja substância é a mesma
dos homens e da
própria tristezaque,
como todos os sentimentos maiores,
podem bem estar acima daqueles;
e se não escondemos as crianças sem sorte
é porque elas, ao serem a maior de todas as
perdas, as simbolizam a todas,
todos os que já partiram e voltam à mesa de
natal, ou só voltam para os que não a querem
fazer e sobrevivem a todas as festas com esta

tristeza incurável

não há nada de desumano no incurável,
talvez só na consciência da morte, que é talvez
a mais humana de todas as manifestações; 

Oinotna guardou o arranhão de Ana
como marca de uma eternidade
não física  


A finitude do corpo e a infinitude
do pensamento e do
sentimento. Ou a rotação e a translação.
Sabemos que o nosso corpo acaba. Não sabemos
se o pensamento acaba. Sabemos que o sentimento
pode acabar ou propagar-se entre corpos e mesmo
para lá deles. Sabemos que o pensamento e o sentimento
transcendem a morte. O corpo não. É por isso que tentar
encolher o pensamento e o sentimento no espaço limitado
dos corpos será sempre mal sucedido. O que pensamos e
sentimos, parecendo contido nas nossas paredes,
vai muito para lá delas. O natal é um esforço de consciência
colectiva, todos os corações de um certo mundo
centrados no transtorno do egoísmo travestido
temporariamente de altruísmo. Um travão na rotação,
para que o pai natal cumpra, uma flexão na translação
para que o planeta desalije o peso da ilusão.
Os corpos, que acabam, não são reais. Voltam os mortos
mais queridos e o pensamento vai descendo e subindo
montanhas russas. Há abraços em todas as suas formas.
Alguns inimigos cessam. Os amigos prosseguem,
menos ignorados. Há mais luz, há mais acessórios,
são flagradas todas as manifestações do supérfluo.
Até chegar um momento em que todos mirram
e o mundo dobra reduzindo o espaço entre as casas.
Pairará sobre as mesas de natal, sobre o bacalhau,
sobre o molho fervido, sobre o vinho quente com canela
e açúcar, um só sentimento. Que é um calor raro
ao centro de peitos potencialmente
infinitos. Diz-se bom natal e a estrada segue,
vagarosa, no regresso a cada planeta. 

 P R I N C Í P I O

Personagens e respectivos Actores,
por ordem de entrada em cena:

Mark Kozelek - Mark Kozelek
Dickens - Dickens 
Herberto Helder - Herberto
Oinotna - António
Ana - Ana
Azeralc - Clareza
Ojna - Anjo
James Earl Jones - James Earl Jones
Nat King Cole - Natalie Cole
David Prowse - Darth Vader
Airf - Fria
Shhhhhhhhhh! - Enfermeira
Otnas - Santo
Narce Oizav - Ecrã Vazio
Emof - Fome
Zedicul - Lucidez (Sr)
Arugrama - Amargura
Osso - Osso
Menina dos olhos acesos - Menina dos olhos acesos 
Lós - Sol (menina)
Aleb - Bela  
Alice no país sem maravilhas - Alice 


 PG-M 2015  

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