2015-11-08

As camélias não têm noite nem domingo

tenho sempre dúvidas sobre a lonjura e a utilidade de um texto
sobre chamar-lhe poema, narrativa ou canivete multifunções,
por exemplo a japoneira ontem à noite à chegada a casa
eu na rampa empedrada a atravessar o jardim do esteves
onde nunca reparo em nada quando é noite
só nos predicados do dia que passou
nos medos pelo dia que há-de vir
e na garagem
habituei-me a estacionar a carrinha de traseira sem pensar
em estacionar a carrinha
ontem vinha de uma derrota de voleibol
a ouvir aquela música da nancy sinatra
sobre sermos pequenos e brincarmos aos tiros
bang bang he shot me down
ban bang I hit the ground
não há derrota no abraço aos vencedores
nem vergonha se no istmo
das fauces encontras
lágrimas

todos sabemos que aquela música nunca foi de brincar

e que todos irão morrer a cada escuta
bang bang my baby shot me down

pois ontem no jardim pela noite
como creio que em todos os jardins de novembro
estavam camélias brancas na japoneira
e mesmo num domingo como hoje
com o sol em sangue e as veias iluminadas
e os corpos hialinos a transitar na areia
e felicidades sombrias sob jornais grossos

toda a camélia branca
é dia e não tem noite
nem domingo

e tu não estás nua
tu és
nua
e o sexo é madrugada
porque sexo com amor é um cliché estafado e purpurino
como um cadáver e é mais que sabido que todo o amor
de uma vida se concentra no leito das pálpebras

não sei que te amo pela intersecção dos ventres
sei que te amo quando,
morta ou viva,
tens os olhos fechados

e é por isso que a fosforescência das camélias
no jardim do esteves
dos telhados derribados da noite
dos torsos prostrados
das pleuras consumidas
por excesso de bondade

é apenas um estado de mundo
ou o inverno em flor


PG-M 2015
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