2015-10-08

antecâmara


durante anos arrumei o teu pijama no armário e quando sem querer caía uma peça eu apanhava-a e cheirava-a como se te abraçasse e beijasse o lugar do pescoço onde o perfume chega primeiro e o sorriso que lhe sucedia era meio que uma lágrima retida ou um raio de sol oblíquo a entrar no caixilho profundo da janela do quarto, achaque de felicidade e,

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
parecias multidão em volta

durante anos todas as morenas relativamente altas com o cabelo preto volumoso no espaço público me pareciam tu e se por lapso eu colhia das floreiras urbanas o acento almiscarado do teu perfume mais caro ocorria a saudade naquela versão selvagem que se parece com um esmorecimento cardíaco como o que teve a avó júlia que deu o nome às azedas e foi na ambulância com uma tez já de partida e nos fez finalmente decidir comprar o primeiro telemóvel para nunca mais cessar a comunicação
estás bem lembrada que ela não morreu, só quebrou
e depois foi morrendo cada vez mais perto de nós
até um dia de novembro, anos depois,

em que partiu a dormir
precisamente a meio do dia
estava de sol não de morte
depois de recitar a vida toda
nos lábios

durante anos as semanas secas de solidão e o pátio sem os teus cruzamentos a caminho de fazer tudo, só os triângulos de sol na mesma hora do raio oblíquo a entrar no caixilho profundo da janela do quarto, o estendal cheio da roupa que penduraras de manhã antes de ires para o trabalho, eu ou a tua mãe a remover as molas e a empilhar a roupa para a passares a ferro, isso também, a tábua de passar ferro ao alto na arrecadação e o desarrumo das coisas com que sonhavas permanentemente fazer um recanto do paraíso dentro de casa

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
parecias multidão em volta

durante anos voltei dos julgamentos e das palestras de escritor para uma casa sem ti a meio do dia só silêncio e demasiado sol onde podia estar o teu corpo ou o teu cabelo prata e quando me desprendia da toga ou dos livros e começava a abrir os armários da cozinha ou a porta do frigorífico ou a máquina de lavar loiça e te via lá via a forma como puseras tudo com um equilíbrio que te podia descrever como as pestanas dos olhos ou a paz das pálpebras, tudo perfeito menos os pratos na máquina de lavar loiça, nunca soubeste cumprir regras na arrumação da máquina de lavar loiça, se fosses sempre tu a tratar disso fazíamos o dobro das lavagens e ainda assim eu olho para o trato ineficaz da travessa do assado que tem de ser sempre lavada à mão e quase morro daquela saudade que parece um esmorecimento cardíaco ou o fim de tudo

a felicidade tem margens cortantes e derivas perigosas
tem elementos em equilíbrio instável

o pedido de beijos e abraços
e o intervalo que deixam

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
pareces multidão em volta
 

mas nesses épicos dias de solidão aqui tão miseravelmente descritos
o adeus continha o regresso

agora estás aí estendida e fria com excesso de brancura enquanto não fecham a urna e,

ainda assim,
não estando tu junto a mim,
pareces multidão em volta

na antecâmara
nenhum abraço contém já perfume
nenhum adeus contém já regresso
vou ver se morro depressa porque
assim,
não estando tu junto a mim,

nha vida é longa demais
e todo o sol redundante



PG-M 2015 
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