2015-10-01

A sala com sentimentos



Quando nenhum suicida rompeu o círculo vicioso, o governo mandou o exército avançar por aquela rua da cidade cujo equilíbrio fora, até agora, perfeito. É verdade que os passantes habituais nunca haviam reparado que algo de singular crescera num dos endereços e que só Frigga, a acompanhante de luxo que usava o quarto no hotel em frente e cujas costas nuas redimiam, muitas vezes, o sofrimento dos trabalhadores que a viam, se sentira ela própria redimida com a visão da liberdade. Mas fora a única - e isso revelar-se-á importante na sua salvação.

A infantaria já tinha uma linha de vista para o segundo andar do edifício espelhado da multinacional que, dentro da multinacional, ficara conhecido pela sala com sentimentos, porque todo o segundo andar trabalhava pelo sistema de espaço aberto e nele restaram, como de costume, os mais inteligentes e criativos, mas, ao contrário do costume, nenhum dos ordeiros disciplinados se suicidou e a sala atingiu um insuportável nível de pressurização e quem se levantou foram os criativos com sentimentos e visão, o que rompeu a ordem das coisas, porque os criativos com sentimentos e visão estavam para trabalhar e não para contestar a ordem estabelecida até um dos ordeiros, deixado como uma espécie de resto matemático deliberado nas salas de trabalho, rebentar e recorrer ao suicídio ou ao massacre de todos os seus colegas criativos e livres pensadores que, normalmente, o olhavam num tom cinzento, astigmático e sem profusão, quando entre si eram claros, nítidos, profusos e carnais.

Pois neste ciclo não houve círculo vicioso.
O ciclo fechou-se com a conversão do resto ordeiro em colega criativo e a sala ficou, não a rebentar de tensão e desespero, como as chefias estavam habituadas, mas de sentido e liberdade.

A tensão e o desespero haviam de chegar, sim, às chefias, que aproveitariam o sistema fechado de favores para acorrer a esta emergência laboral e pedir a intervenção do exército para controlar a sala com sentimentos - argumentando que o sistema em vigor desde a revolução industrial já estava suficientemente impregnado de empregadores que pugnavam por que os seus fossem os melhores lugares para trabalhar, devaneios que só a compra por "irmãos" mais velhos e experientes no sistema resolvia, obviamente com custos para o tecido social e o perigo da invasão por um reino com um sistema de mérito e não o vetusto e eficaz sistema do demérito do patrão que verifica por balance scorecards ou furos nos cartões dos empregados o seu próprio poder que, construído sob a forma de um oco bastão de bambu,  tem serventia para correctivos e para sexo, não o sexo dentro do local laboral, que se assumiu como a mais perigosa forma de prazer do século XXI, mas o sexo escravizante que salda as frustrações do gabinete com terceiros por meio da introdução do bastão de bambu no canal rectal e outros prodígios, a verdade é que o sistema cada vez mais redutor, massacrante e rentável - contudo perigoso e civilizacionalmente apocalíptico, como se vai ver - da transformação da gente em máquinas e das máquinas em gente, para que singre o reinado do número e nunca haja franquia para o mencionado reino invasor do mérito, vinga sempre.

O sistema no segundo andar em espaço aberto da multinacional antes do perigoso surgimento em sala de sentimentos era simples e eficaz e funcionava assim:
Pela imprevisibilidade das competências dinâmicas, os novos contratados eram divididos, ao fim de um ano, em ordeiros - de um lado - e criativos - do outro, sem que isto significasse que um criativo não era ordeiro, mas significando que um ordeiro não era criativo. Vinha sempre um director dar as boas-vindas à nova equipa e prometer disponibilidade e envolvimento. Nenhum director observou algum dia um funcionário a trabalhar. Quem fazia isso era apenas o Presidente, que visitava as equipas de cinco em cinco anos e antes houvera observado uma pessoa a trabalhar e dava sempre conta, na reunião, como estava dentro das dificuldades práticas dos seus funcionários e como era importante mudar algumas coisas para lhes aliviar o fardo. Estas promessas, ainda que conhecidas e pouco credíveis, concediam mais seis meses de vida aos funcionários, animais que tendem a ter fé nos directores e nos presidentes para que a própria vida não se afigure uma mentira completa, assim como os cidadãos querem, muitas vezes e perante o medo e a promessa do inferno, acreditar nos políticos do sul da europa, quando é certo e sabido que, geneticamente, os políticos do sul da europa não quinhoam da sabedoria desde o Império Romano. Depois os directores alteram as regras anualmente. As novas regras nunca fazem sentido para os funcionários, mas é imperioso que, no fim do dia, e embora digam o contrário durante o dia, eles pensem que são eles os incapazes, e não quem os dirige. Há algo de comovente na escolha de directores: são todos cegos. Para cegos, fazem um trabalho magnífico, desconhecendo, como desconhecem, o seu ofício e o ofício dos funcionários que dirigem. Conhecer exige um anormal gasto de energia e essa queixa ia também anexa à emergência: não é bom para nenhum sistema laboral da era industrial conhecer.

Prosseguindo o relato do sistema equilibrado de organização do trabalho, no limite da razão do custo/benefício, os ordeiros são dispensados ou despedidos, assim como os piores ou mais contestários entre os criativos, mas há uma regra de ouro: deixar entre os sobreviventes o mais frágil dos ordeiros. Nos espaços abertos ficam então funcionários efectivos maioritariamente criativos e pelo menos um frágil e ordeiro, e entre eles paredes de tensão e opressão, objectivos e números, protocolos e resultados, sendo estimulada a permanente competição e aproveitada a dinâmica dos criativos para crescer. O frágil ordeiro que fica entre eles será naturalmente conduzido à morte, não sendo imperioso que seja uma morte física: quando o ordeiro passa os seus próprios limites, que por definição são estreitos, ou se suicida, poupando muito dinheiro às seguradoras de vida e abrindo espaço a um novo ciclo de recrutamento em que também o director é despedido (com justa causa e fundamentadamente, com relevantes poupanças para a instituição), ou planeia a morte dos colegas criativos, o que também isentará de responsabilidades a empresa, que se limitou a respeitar o sistema de trabalho. E, embora os passantes nas ruas onde estão as sedes destas empresas nunca reparem, até porque o passante humano olha em frente ou para o chão, nunca para cima, que as paredes dos espaços abertos normalmente se contraem durante cada ciclo, tornando as ruas mais amplas - o que convida à fuga - e os edifícios mais estreitos, a verdade é que todas as cidades doentes crescem por estreitamento das moradas e alargamento das ruas, forradas por magníficos tapetes entretecidos a fio dourado: o tom não vem do ouro, mas da solidão, que é uma matéria-prima eminentemente humana e os homens e as mulheres são feitos de uma luz que não é exactamente branca, por causa da pele e dos pelos.

A sala com sentimentos, contudo, perverteu o processo por se ter tornado consciente dele.
Ao processo de recrutamento acorreram elementos das mais diversas artes - poder-se-ia pensar que a maioria deles eram actores de teatro, mas, no que toca à essencialidade do rumo, qualquer bom elemento de qualquer arte é um bom intérprete e um bom soldado. Os candidatos, contudo, tinham todos uma primeira profissão, com a qual se inscreveram: no século XXI todas as artes têm profissões de resguardo e tristeza. E, quando a configuração do novo espaço aberto se tornou definitiva, as paredes não contraíram, pelo contrário, incharam, e isso seria visível da rua, não fossem os passantes de olhos no chão - é certo, por falta de hábito, mas também por temerem o sofrimento que transcende o seu próprio -, mas Frigga, a acompanhante de luxo que dava as costas nuas à sala e depois se voltava com o mesmo arrebatamento que nela colhia, e que a sala dela colhia, reparou que a sala com sentimentos se debruçava sobre a rua e fazia sombras novas onde antes o sol ardia. Cada elemento do espaço aberto trazia novas todos os dias, partilhava mão com mão, braço com braço, a música e o teatro e a literatura e até um olhar, um sorriso, um perfume, um ou outro beijo consentido, partilhava a pureza do desporto que amava, não eram likes nem reencaminhamentos sem corpo, eram likes e reencaminhamentos com corpo, as reuniões e as novas regras dos directores foram sentidas como espectáculos de stand-up, havia riso franco e os directores liam-no como sucesso retumbante, o frágil ordeiro eleito, na verdade o melhor actor e o líder secreto do projecto de afronta, continuou a fingir situar-se muito perto dos limites, e assim a sala cresceu de sentimentos todos os dias durante os anos que durou o ciclo, mas houve uma coisa que a sala com sentimentos não teve em conta e talvez esta tragédia sirva de lição aos livres pensadores, a saber:

a infantaria entrou na rua, preparou-se para investir e cruzou-se com os passantes indiferentes, indiferentes mesmo ao exército, quando a dinamarquesa Frigga, símbolo da doçura, deusa nórdica da fertilidade, do amor e da união, assomou à janela do seu quarto de hotel e tapou a boca com as mãos e os ombros com o manto. A sala com sentimentos, inflada, arrebatada, insustentável, caiu à rua. A infantaria e os passantes foram soterrados - entre estes, nenhum sobrevivente. A espuma de poliuretano do tecto falso do primeiro andar aplacou a sala com sentimentos e todos os seus elementos, cuja dor e o medo em queda foram considerados indemnizáveis pela Unidade Central Secção Três Jota Sete do Tribunal de Comarca - não o seriam a dor e o medo em queda pelo sistema de trabalho estruturado para maximizar a produção, não a produtividade, e minimizar os custos primários, que não incluíam o coupé topo de gama do presidente estacionado à porta do edifício (nem mesmo o coupé de dois lugares e um só cavalo do fundador), presidente que, milagrosamente, sobreviveu graças aos serviços de Frigga, que dava as costas nuas à luz dourada dos criativos do segundo piso e o corpo intersticial aos donos do mundo.

A cavalaria vinha atrás e não sofreu danos.

A dor e o medo indemnizáveis fundaram veios de expressão artística e a sala com sentimentos foi recuperada em queda por arquitectos premiados. Entretanto, começou novo processo de recrutamento. Frigga foi a primeira candidata.

PG-M 2015

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