2015-10-22

A gente não morre (intermúndio)

O amigo do facebook que se começa a respeitar, talvez até a amar, mas cuja perspectiva de um encontro traz sempre desconforto - não por ele, mas por nós. A rapariga que nos deixa em paz na livraria do costume ou a que nos atende no restaurante do costume. O silêncio e a paz caseira ou, nos antípodas, a saudade diária dos nossos e o reencontro com eles, tantas vezes tumultuoso, com o encanto a esboroar-se nos primeiros segundos por causa de detalhes frívolos. Já lá vamos, ao encanto, e citaremos Guimarães Rosa para pesponto deste. Os corpos precisam de intermúndio, precisam de um espaço entre eles para respirar. A rotina silenciosa, ou temperada por saborosas conversas de circunstância, dá-nos equilíbrio, é bom encontrar as mesmas pessoas e é magnífico quando, num café, nos começam a trazer o que queremos sem sequer abrirmos a boca. Provavelmente, haverá poucas pessoas no mundo que estimemos tanto como esse empregado que nos traz o que queremos sem abrirmos a boca. Deixamos o pagamento em cima da mesa e devemos trocar cinco palavras por ano. Deixar isso e ir ao encontro do amigo do facebook de cujas palavras ou sugestões precisamos todos os dias, mas vemos como e quando queremos, exige um esforço físico, mental, carnal, que nem todos estão dispostos a empreender. E é mais valioso o silêncio da livreira do que a funcionária que nos aborda mal entramos na livraria, às vezes quebrando o encanto da busca de um livro que não queremos que seja ela a encontrar, mas nós, tal como é muito melhor a desilusão de o não encontrar do que um funcionário a conferir stocks num computador. E os nossos, de quem precisamos como de pão para a boca? Por vezes, em vez de nos beijarmos e seguirmos calados os primeiros momentos, talvez de mãos dadas, perguntamos logo tudo e, se falha alguma coisa, censuramos logo tudo, não nos sabemos calar bem, e é tanto pior quanto mais próximos estamos uns dos outros. Ouvir e calar tem ciência e é virtude. E então começamos a discutir, a falar alto, a despejar o que não despejámos no trabalho, a acusar e a ser acusados, aborrecemo-nos, entramos em casa, estamos fartos do dia e estamos fartos da noite, estamos fartos dos outros todos e estamos fartos dos nossos, os que nos podiam salvar, metemo-nos em nós, consultamos as redes sociais e ficamos profundamente sozinhos. O intermúndio. É importante observar os nossos e os outros como se não estivéssemos lá. Tocar ou sorrir ao de leve. As casas e os casamentos acabam quando deixamos de olhar as pessoas que amávamos - aliás, se pensamos que estamos a deixar de amar por causa dessa violenta sucessão de pequenas agressões, experimentemos olhar para eles como se não estivéssemos lá: quase sempre, o amor emerge, instala-se em toda a sua força, porque foi construído a observar e a escutar cada detalhe dos que amamos, crescendo junto a eles ou vendo-os crescer junto a nós. O silêncio e a observação são fundamentais para a felicidade, nossa e dos outros. Ontem a funcionária de um call-center com o belíssimo nome de Henriqueta pediu-me para apresentar um produto. Eu sabia que a apresentação seria redundante, porque já tinha feito a análise de mercado e tomado uma decisão. Mas optei por ouvi-la. Ela alertou que a chamada seria gravada. Eu disse "melhor". Ela começou: "Antes de mais, senhor Pedro, como está?", eu respondi "Estou bem, obrigado, e a Henriqueta?" e ela treplicou: "É a primeira vez que me devolvem esta pergunta desde que trabalho em call-centers." Um destes dias, quando ouvi uma amiga que, por necessidade, veio de uma actividade profissional cheia de charme para um call-center, quando soube o que se sofre quando uma equipa organiza um serviço robotizado, acreditando que isso é qualidade e eficiência, pressionando fisicamente o funcionário após três minutos de chamada para terminar a mesma porque está no protocolo, prometi a mim mesmo que teria a maior paciência do mundo, doravante, com os trabalhos-chapa-cinco, que são, certamente, os mais duros de todos. Se observarmos cuidadosamente o funcionário da repartição de finanças e o olharmos nos olhos e lhe falarmos sem a pressa que ali nos levou ou o tédio que ali nos deixou, teremos mais vida, menos dias maus, mais coisas resolvidas. Lá chegaremos. Se olharmos calados para os nossos no fim do dia, em vez de lhes perguntarmos tudo ou despejarmos tudo de nós, dificilmente deixaremos que a comiseração ou a solidão dos incompreendidos aparentes se instale. E sejamos artistas, expostos, vamos lá, de vez em quando, ao encontro daqueles que aprendemos a amar sem corpo nas redes sociais, mesmo que isso signifique desconforto. E então alongaremos a vida, porque cada dia terá mais sentido. E afastaremos a morte. Ainda que não se morra, como dizia o Guimarães Rosa, ou, mais precisamente:

"A gente não morre. Fica encantado."

Boas vidas.

PG-M 2015

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