2015-08-06

Fausto


O Fausto morreu. O Fausto não morreu. Nesta notável fotografia de Carlos Gonçalves, o Fausto está de costas, a vitoriar o Nuninho, que não é filho dele. Não me lembro se o filho, o Leo, estava em campo. Importa que nesta imagem está, simultaneamente, o melhor do desporto e o melhor da vida. A fotografia tem dois meses. O Fausto foi hoje a enterrar na terra do meu bisavô escultor, que também é dele. O meu filho, que é da idade e companheiro de voleibol do Leo e do Nuninho, pediu-me que eu, que rondo a idade do Fausto, lhe dedicasse umas palavras. Todos os miúdos da idade do Nuninho, do Gui, do Leo, sentiram esta perda como deles - e cresceram bruscamente ao enfrentá-la: foi o primeiro funeral para muitos deles. Vivemos estes tempos. Uma doença rara, fulminante e dolorosa levou-nos o Fausto no espaço de um mês. Vivemos tempos em que nos perdemos desta forma trágica, violenta e até injusta. Ficamos a pensar o quanto daríamos para estar mais algum tempo ao lado do Fausto nas bancadas de pavilhões deste mundo ou nos cafés que são o prelúdio das esperas pelos nossos campeões, a conversar e a resgatar os minutos que deixamos de falar uns com os outros. Sim, a história de um velório e de um funeral onde aparece em peso a família do voleibol é uma história bonita - mostra como nos prezamos, nós, que somos de uma geração que diz presente aos filhos e a este desporto. Mas o que esta fotografia me diz é que há outros Faustos, neste Clube Atlântico da Madalena e noutros clubes, com quem nos cruzamos e ficamos à conversa longas horas, não destilando azias e rivalidades, mas aproximando olimpismos, dando a nossa mão pelo bem comum que é o nosso crescimento como pessoas no exercício da virtude do desportivismo, seja apoiando os nossos filhos, seja apoiando os filhos dos outros, como aqui faz o Fausto - do nosso ou de outro clube qualquer. Todos lamentamos, hoje, não termos ouvido mais horas o Fausto. E talvez pensemos como é bom reencontrarnos nas bancadas da vida os amigos de sempre. O Fausto, e o amor que por ele daremos ao Leo, à mãe e à mana do Leo, é o paradigma destes tempos em que o abraço aos amigos parece sempre breve, o tempo sempre curto, o corpo muitas vezes ausente, e depois tudo nos sobra em velórios e funerais. Ergo, na homenagem ao Fausto, a vontade da compreensão, a vitória sobre o tempo e a certeza de que, como o Fausto, dedicarei mais desse tempo que ele venceu a vitoriar o meu clube ou o meu nobre adversário e menos ou nenhum a lamentar, a criticar ou a evitar. Ver aqui o Fausto de costas é ter a certeza de que os abraços por dar ou as conversas por ter serão dados, serão tidas, por ele, nas bancadas do mundo, sem adiamentos ou mais perdas de tempo. Em nome do Fausto tenho vontade de agradecer a todos os amigos e adversários que se vitoriam. No passado, agora e, pelo Fausto, para sempre. O Fausto morreu. O Fausto não morreu.


PG-M 2015
foto de Carlos Gonçalves