2015-07-08

Bondade, Maldade e Razão

 
Aconteceu-me hoje num espaço de poucos minutos. É flagrante quando estamos mais afastados do ruído e concentrados na acção - seja o labor, propriamente dito, seja a locomoção dos sentimentos e das aflições dos outros. Porque, vendo bem, o mundo que nos corre na ponta dos dedos é mais ruído colectivo que nos fazem acreditar ser relevante: a moda grega, por exemplo, não ser fruto de políticos medíocres mas da pureza de um povo, ou a careca da Laura, a mulher de um líder de um país do sul da Europa, não ser coragem pessoal mas cálculo político, e o que venha aí nos próximos dias e interesse aos média e tenha o perfil certo para deixar as redes sociais aos gritos, e esquecemo-nos da mãe que matou um filho de frio e de sede a empurrar um baloiço durante uma noite inteira porque o desespero não a deixou ver ou dos olhos baços do nosso colega de trabalho que, provavelmente, logo à noite se deixará cair de uma ponte ou apenas, por mais uma noite, na cama, talvez a ponte amanhã.
E o que é flagrante? A força das pessoas más e a fraqueza das boas. Vou passando os olhos, muito na diagonal, pelas redes sociais e já raramente me apetece dizer o que quer que seja. Mesmo hoje, quando o estômago se me revolvia a ler um post e me apetecia escrever alguma coisa e me perguntava: para quê, se o que me apetecia era dizer, ao autor do post, "és mesmo uma besta e, apesar de alinhares uns poemas engraçados que a turba literária resolveu elevar à condição de obras-primas em mais um movimento colectivo, as hordas na lama, és uma palerma calculista e , com as provas que me deste, má pessoa; talvez sejas bom profissional e razoável poeta, mas como opinion maker podias calar-te, porque, na essência, és uma besta;". E depois, a alguns comentadores desse post que estavam cheios de razão e até sensatez, eu teria de dizer, a um deles, "a tua opinião é lúcida, mas na verdade és um menino, um cobardolas com duas caras, egocentrado e manso", ou, a outro, "estás especialmente corajoso, hoje, quando passas pela vida mais ou menos calado e apenas te serves dos outros para o que realmente te é útil, mais, mentes e crias ficções para que os que tu decides que são teus amigos sobrelevem os outros, mas não sabes o que é o mérito; ainda assim, és um tipo com um grande cultura literária, das maiores do nosso meio, e que teria um papel decisivo se não fosse tão filho da puta". E um atrás do outro, ou uma atrás da outra. Reparo que agora é só o que tenho de gerir: avatares. Tenho aqui um artigo para escrever sobre as Correntes d'Escrita 2015, na Póvoa de Varzim, em que pretendo defender a "slow food", o alimento relevante da literatura, o que não desaparece porque o objecto do meu artigo ocorreu há meio-ano. Mas, no entretanto, sei que muitos dos que se notabilizaram são, verdadeiramente, uns crápulas, e alguns dos que foram criticados ou maltratados são, realmente, pessoas decentes. Muitas vezes os crápulas são lúcidos, inteligentes e, apesar de mal-formados, têm razão. E os bondosos são socialmente medíocres. Na verdade já me apeteceu mais premiar a bondade, em todos os quadrantes. Não tenho dificuldade em reconhecer o mérito artístico ou profissional a um crápula. Também não tenho dificuldade em descarnar a uma pessoa bondosa, em privado, a eventual falta de qualidade do que faz ou diz. Muitos crápulas são competentes, ainda que, mais cedo ou mais tarde, nos atropelem com a sua competência. E muita gente boa é incompetente e falha de razão. Mas, como eu disse em intervenções públicas recentes, um bom samaritano, quando chega a uma cidade nova, não escolhe abraçar apenas os que considera boas pessoas. Abraça todos. Importante talvez seja o mapa. Importante talvez seja sabermos quem é quem. E, ainda que não se possa dizer, publicamente, que certa pessoa é uma besta, mas tem razão, é importante termos noção da inutilidade do que temos feito colectivamente. Somos alimentados pelos média e alimentamo-los. Acriticamente, embora pareçamos cheios de opiniões. É importante dizer e denunciar que os jornais, as rádios, mas principalmente as televisões, perderam sentido do que é importante e fundador de uma sociedade e decidem todos os dias o que é importante e não: e não é a audiência, certamente. Quase sempre o que nos aparece como importante não o é. E, seja importante ou não, se funciona, é repetido à exaustão. E então tudo se esvazia, como a palavra que, de tanto se repetir, perde o sentido. A importância do mundo, hoje, vemo-la nos nichos, nos raros grandes jornalistas que ainda existem e nos repórteres que procuram o outro lado. Já a literatura não a vemos em lado nenhum: só nas universidades, a que, contudo, falta contemporaneidade. É verdade que encaixar o tempo corrente da literatura nas universidades pode estragar tudo, e eu, em alguns anos, não vi sabedoria pura, autêntica e não engajada senão lá. Mas ainda tenho esperança de que os bons professores resistam a este lamaçal colectivo onde temos de nos conformar com estes desabafos: que a valente puta, a verdadeira besta, depois de tanto disparate que fez e disse e a que nos expôs no seu mural, hoje disse uma coisa bem dita, ainda que o outro, o grande profissional e poeta que não tem salvação na lucidez porque sempre foi verdadeiramente medíocre, só escreva e fale porque lhe deram corda. Santa paciência, é o que digo, santa paciência. Ainda assim, no final, valem os que nos dão colo, e bem precisos são, mesmo que não tenham razão nenhuma. Ainda assim, o que sei eu? Não sei nada, não sou nada. Quero é colo, essa é que é essa.

PG-M 2015

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