2015-06-11

poemadasolidãomoderna


No grande open space, que nunca poderia ser traduzido por espaço aberto, os likes corações e sorrisos gráficos trocados entre ecrãs leitosos pelas portas da madrugada são agora sombras espessas que circulam entre o wc e o lugar e o lugar e a máquina de café ou então nem se movem não se olham não perguntam não se tocam não se cheiram trocam ordens pelo mensageiro interno e enviam mails e ao almoço fotografarão a própria refeição para durante a tarde comerem comentários. Ali ao lado, uma mulher chora com a cabeça garrotada, sem perceber porquê. Ninguém a ouve e se a ouve não a lê. Ninguém a vê e se a vê não a suporta. Andam todos apagados e silenciosos no open space a carregar os dedos e os torsos de lítio para não cegarem perante os amoleds. A mulher que chora suplica apenas o abraço, mas os abraços estão muito vistos para partilhar. Ainda assim uma velha companheira que ela pensava já reformada (não, nunca faltei um dia) aproxima-se e levanta o telemóvel no ar. Fotografam-se abraçadas e com sorrisos inéditos. A mulher que chorara agradece e transita para o wc a pensar que agora até os abraços são frios, como ossos empilhados. Senta-se na sanita e chora outra vez. Salvem os migrantes, lê ela no jornal gratuito. Lembra-se da fotografia de uma Beach na sanita a fotografar-se enquanto o filho pequenito mama como se tirasse um café de cápsula. Liga-se ao wifi e inscreve-se, pela primeira vez, no instagram. Pensa que a seguir terá direito ao seu café de cápsula. Sorri, mas no espelho não aparece sorriso nenhum. Já estava online. Daqui a minutos vai começar tudo de novo. No grande open space, que nunca poderia ser traduzido por espaço aberto, os likes corações e sorrisos gráficos trocados entre ecrãs leitosos a meio da manhã são agora sombras espessas.

PG-M 2015
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