2015-06-26

da noite de são joão

vim para longe e esqueci-me do material de apoio
não tenho o apuro analítico nem o esquema
da multidão, só a fome envergonhada e o medo
do dia em que o dinheiro faltou
e pensámos todos juntos
não que os poemas não devem ser fáceis e gráficos
mas que está tudo fodido
tenho as caras radiantes da noite
de são joão, as mãos a empurrar
para um lugar maior
tenho o tempo que sobra

dos gritos

fica o corpo ofegante e o choro suspenso sou forte
sou forte sou forte outra vez um grito
outra vez o silêncio outra vez um grito
outra vez o silêncio

e quando nem eu nem tu nem a multidão
trazemos para o cubículo produtor
a memória descritiva do paraíso
da noite de são joão
e escorre dos tabiques formais uma lama
sólida que é raiva e fica a raiz do mundo
marcada a vermelho na matéria branca
dos olhos
temos esta mania

da poesia



PG-M 2015



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