2015-06-10

Cerejal

para lhes mostrares, na cidade, que lhes pode acontecer o mesmo que a ti e que elas não nascem em sacos hermeticamente fechados e depois pesados nas balanças de precisão nem dos caixotes à beira da estrada.

a dona isabel, à entrada da quinta, tinha cerejas no regaço e estendeu-me um cacho
"leve-as aos seus"
a minha mente urbana leu "cerca de dois euros só neste cacho"
e a dona isabel, apontando para a serra
"e se quiser ir comê-las das árvores há um cerejal bem no topo do monte"
a minha mente urbana leu "tu nunca vais subir ao topo do monte"

a dona isabel era a primeira empregada reformada da quinta, disse, passava os setenta e tinha este gosto, subir sozinha ao monte e colher cerejas perfeitas para as oferecer aos amigos e aos passantes
"sabe o que é isto?" - abriu a mão  com folhas verdes e flores brancas, desfeitas
a minha mente urbana reconheceu a tília, ela pareceu desiludida
"a cidade chega sempre cega, o senhor é de cá perto?"
disse de onde era, da terra dos cegos

depois a dona isabel despediu-se com um aviso
"se subir ao cerejal, pode comer as que quiser, mas não as ponha para sacos"
e reiterou, "pode comer até aqui", traçando o queixo com o braço, "mas não as prenda em sacos"
cheguei ao carro com aquele cacho perfeito
as mentes urbanas dos meus fizeram-nos abrir as bocas em deslumbramento

quis subir ao monte, que em meio século nunca tinha estado num cerejal nem comido cerejas das árvores
o resto ascendeu de imediato à condição de mito.
estava uma brisa quente e o sol oblíquo com o cotovelo no caramulo. as cerejeiras parecem chorões burgueses dando as folhas como costas de mãos e cachos resplandecentes sem qualquer contenção

demorei muito tempo a começar a comê-las
fotografei-as, filmei-as, esta ridícula urgência urbana de estar sempre a suspeitar de que nos estão a oferecer um momento a que nos vamos agarrar quando os nossos pés dividirem o chão com o abismo

depois agarrei as mãos das cerejeiras, os ramos que são uma espécie de dedos anelados de folhas e cerejas na palma
comi cerejas sem limite e pensei que a maior parte do prazer e da consciência está na escassez
a escassez das coisas
a escassez da vida

e não, não fui urbano, não trouxe uma só nas minhas próprias mãos ou o meu próprio saco
ainda andei de mãos dadas com as cerejeiras do cerejal, a brisa rompia o silêncio e o sol oblíquo, enfim, detem-me os clichés e promete-me que não vives muito mais tempo sem procurares e agarrares os dedos de um cerejeira e te unires às cerejas e era veludo vermelho na capa real do alfaiate dos montes

para lhes mostrares, na cidade, que lhes pode acontecer o mesmo que a ti 


PG-M 2015
fotografia do momento

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