2015-06-11

carta aberta à dona paula pela arte em oncologia

dona paula, nesta carta vou tratar-te por tu, mas sempre por dona paula porque toda a gente na escola de fornos de algodres te conhece por dona paula,
dona paula, tu entregaste-me aquele livro de arte em oncologia e abriste-o na página que tinha um texto teu onde tentaras expressar o teu fim do mundo quando te diagnosticaram carcinoma mamário tipo ductal grau III scharff e bloom
dona paula, eu fotografei o texto e disse que o queria ler com calma e prometi que depois te diria alguma coisa
dona paula, este é o depois
reparei, dona paula, desculpa ter reparado nisso, mas reparei, dona paula, que nada em ti ou em qualquer auxiliar de educação da escola de fornos continha a abdicação da vida que vejo nos olhos cinzentos de muitas auxiliares de escolas urbanas que já desistiram da vida e andam como sombras a limpar a gordura e os papéis amarrotados do mundo
na sessão para os meninos, foste dar para assinar o livro sem ninguém e levaste-o contigo
e à saída trouxeste-me o livro de arte em oncologia e abraçaste-me
o abraço cheirava a um campo de júlias e o teu cabelo doce ao vento com uma figueira no meio do terreno
tenho a dizer, dona paula, que a dor estampada no texto como uma espada japonesa que nos vaza para nos sair o mal todo não supera a dor de te ter lido os olhos e visto cada cena de cada minuto da tua vida e tu a subir, sempre vigorosa, uma escada sem fim com morcegos humanos - cegos como os outros- a bater-te no corpo sem clemência
e o amor, dona paula, o amor tamanho na tua cozinha e nas escadas que esfregaste e nos soalhos que poliste e que, medidos, fazem mil vezes a distância de fornos a fátima
dona paula, parece breve esta solidão, mas eu sei que não é,
e é por ser longa e dolorosa que te dá o tamanho que tens

sempre aí, imperial, mãe, mulher, gigante, forte, doce
 
falámos dos estacionamentos repletos dos serviços de oncologia, das filas nas cantinas dos serviços de oncologia, do texto da sessão que ofereci aos meninos e onde o cancro é uma manta negra tão disforme que nos cobre a todos e faz chorar e tu, dona paula, apareces ao trabalho com esse cabelo de campo de júlias e esse corpo erguido e cheiras aos anjos que mimas no teu texto

não te sentes tantas vezes esse mimo, esse palhaço pobre da vida, dona paula, em frente ao espelho a compor a maquilhagem que parece sempre descomposta?

e não valerá pelos encontros dos que no coração encerram apenas bondade, dona paula?
como tu e eu e aquelas meninas de olhos húmidos que nunca nos querem deixar partir?

não te queria escrever isto tudo, dona paula, queria apenas uma frase, no máximo um parágrafo, que tivesse o teu enorme tamanho, mas cujo corpo sintático se situasse no meu tórax e na tua face e se insinuasse como um abraço, assim, encaixadinho sob tudo e sobretudo, e então pensei que precisava de uma fotografia tua para acompanhar esta carta aberta, uma fotografia tua, mas eu sou mau para caras, dona paula, procurei, procurei no meu arquivo a fotografia que me deste ou pelo menos parecia que tinhas dado, mas não tinha a certeza de nada, dona paula

nenhuma chegava perto da tua beleza

e então pus o teu nome completo no google, o nome com que começas o artigo no livro da arte em oncologia a dizer que estás ali e estás inteira, e apareceu logo a tua fotografia em primeiro lugar

então percebi: não devia ter escrito nada.
apenas:

"depois de fornos e do teu abraço, é assim que te vejo"

e mais nada, dona paula. é assim que te vejo, e, se é assim que te vejo,

eis-te

agora assina-me por trás da fotografia com a tua letra redondinha e conforme bilhete de identidade e por cima do logótipo do fotógrafo mais antigo das beiras que chegou a fazer uns trabalhos em fornos e vem inteira


PG-M 2015
fonte da foto

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